A Espanha, que tem tido historicamente uma alta taxa de desemprego, teve, no primeiro trimestre, menos do que o Brasil. Enquanto aqui a taxa estava em torno de 13%, lá eles registravam 11,4%. A propósito, lá a pesquisa é feita com quem tem mais de 16 anos
Quem olhar a série de desemprego no Brasil ficará com a errônea impressão de que no governo Lula o problema se agrava fortemente. O pulo dado é resultado de uma mudança na metodologia, nas perguntas e até na faixa etária. Agora se calcula desemprego até de crianças de dez anos. Nova mudança metodológica está sendo preparada para entrar em fase de testes no ano que vem.
O desemprego caiu pela segunda vez este ano. Fica claro que voltou a existir a sazonalidade que sempre fez com que, no segundo trimestre, o desemprego comece a cair, e continue em queda até dezembro, para, em janeiro, voltar a subir.
Tem sido sempre assim, mas, no ano passado, com o ambiente recessivo, o índice ficou em torno de 13% quase o ano inteiro e só caiu em novembro. Agora, a curva voltou a ter a mesma oscilação.
Já a série histórica fica mais difícil de ser entendida. O IBGE mudou o índice e prepara-se para mudá-lo novamente. Tudo para tentar ter uma medida mais exata do problema. Só que isso faz com que seja difícil entender oque se passou com o mercado de trabalho ao longo do tempo.
Na mudança implantada em 2002, o Brasil seguiu padrões internacionais que determinam que a pesquisa verifique quem procurou trabalho nos 30 dias anteriores. Antes, só se verificava quem havia procurado emprego nos sete dias anteriores à pesquisa.
Além disso, a pergunta passou a ser mais direta. Segundo o diretor da Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE, Cimar Azeredo, antes perguntava-se o que a pessoa tinha feito na semana anterior: "Agora pergunta-se diretamente se a pessoa que está desocupada procurou emprego. Além disso, há outras perguntas em torno dessa questão. Esta foi a principal mudança na coleta, que explica a maior parte do salto do índice de desemprego".
Mas há uma outra mudança controversa. Antes, pesquisava-se o desemprego acima de 15 anos. Agora, passou a ser a partir de 10 anos. Isso é considerado uma impropriedade que poderia estar aumentando o índice do desemprego no Brasil. Cimar discorda. Disse que só entram na amostra as pessoas, em qualquer idade, que estejam procurando emprego. Se o jovem é estudante, nem pensa em trabalhar, ele não é considerado parte da pesquisa.
"Os dados mostram que a parcela de 10 a 15 anos é de apenas 0,7% dos que procuram emprego", afirma. Ele diz que esta faixa etária segue orientação de institutos internacionais de pesquisa.
A Espanha, que tem tido historicamente uma alta taxa de desemprego, teve, no primeiro trimestre, menos do que o Brasil. Enquanto aqui a taxa estava em torno de 13%, lá eles registravam 11,4%. A propósito, lá a pesquisa é feita com quem tem mais de 16 anos. Nos Estados Unidos, um dos mercados de trabalho mais dinâmicos, a taxa é de 5,6%. Lá também, a pesquisa é feita com pessoas de mais de 16 anos.
Outra polêmica sobre o desemprego brasileiro é o local da medição. Muitos especialistas acham que o número brasileiro é inflado pelo fato de a pesquisa ser feita em seis capitais apenas e ignorar o que se passa em polos dinâmicos, como o centro-oeste, o interior de São Paulo e outras regiões.
Cimar explica que as seis regiões metropolitanas onde a pesquisa é realizada representam 28% da população ocupada do Brasil. É, portanto, significativo. "Além disso, o número é consistente com o da Pnad que, uma vez por ano, pesquisa o que se passa em todo o Brasil" diz.
De qualquer maneira, para tentar encontrar um número mais nacional, o IBGE tem um grupo
de trabalho estudando a nova mudança. O presidente do Instituto, Eduardo Nunes, conta que a nova pesquisa
será unificada com a Pnad: "Será uma espécie de pesquisa domiciliar contínua".
A Pnad vai anualmente a 130 mil domicílios em todo o Brasil. É uma pesquisa extensa demais para ser replicada todo mês. Eles farão uma adaptação menor da amostra. Mas os detalhes ainda estão sendo discutidos.
O desemprego tem crescido no Brasil. Não tanto quanto a série histórica registra, já que ela incorpora uma mudança importante na fórmula de captação do problema. Além de desemprego alto, há uma modificação forte no mercado de trabalho. No dado de ontem, por exemplo, comemorou-se o fato de que o emprego formal cresceu 3,2%. Mas o informal cresceu 9%.
O mercado de trabalho brasileiro tem sido insuficiente para abrigar os que procuram emprego e tem muitas distorções criadas pelo excessivo custo de empregar no Brasil.
Para enfrentar o problema, é preciso conhecê-lo. É o que estas mudanças estão tentando. A torcida é para que não compliquem mais ainda um assunto já bastante complexo.
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