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Edição de Terça-Feira, 20 de Julho de 2004 
Economia | Miriam Leitão
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ECONOMIA
Miriam Leitão
Duas versões
E-mail: paneco@oglobo.com.br
A crise gerencial não acontece por falta de poder do ministro-chefe da Casa Civil. Seu poder, nas palavras do ex-ministro petista Cristovam Buarque à revista Época, é uma "aberração". Mas aumenta-se o poder da Casa Civil, que agora terá que coordenar uma Câmara de Desenvolvimento Econômico

O Governo vai elevar o já imenso encargo trabalhista e até o deputado petista João Paulo disse que é um "erro político", mas o ministro Antonio Palocci repetiu ontem que o atual governo não vai aumentar a carga. O poder da Casa Civil cresceu de novo e o senador petista Cristovam Buarque afirmou que José Dirceu se comporta como chefe - e não, coordenador - dos ministros e que assume funções de presidente da República, mas o ministro Palocci disse que até a câmara de política econômica deveria ser comandada por José Dirceu. O país vive em duas realidades, mesmo se ouvir apenas interlocutores petistas.

  Entrevistado pelo site do partido, o presidente do PT, José Genoino criticou a idéia de elevar a cobrança das empresas e pediu compensação. O ministro Antonio Palocci, no Bom Dia Brasil, continuou dizendo que o atual Governo não vai aumentar a carga tributária e que, na Cofins, houve apenas a mudança da forma de cobrança.

  Segundo ele, o único aumento foi positivo pois pesou sobre o produto importado, corrigindo uma injustiça com o produto nacional. Chegou a afirmar que "toda indústria paga menos impostos do que pagava no passado". Como este ano já provou, houve aumento de carga e haverá novamente com a elevação da taxação sobre a folha de salários anunciada na sexta-feira.

  Segundo Palocci, vão ser implantadas compensações aos empresários. A cobrança dos encargos incidirá sobre o valor agregado - e não sobre a folha -, o imposto de renda vai cair para todo mundo e as aplicações de longo prazo serão desoneradas. Quando? No futuro. Esse Governo faz o mal à vista e promete fazer o bem em algum momento mais para frente.

  O curioso, em determinadas explicações do Governo, é o fato de que ele parece transitar numa outra dimensão da realidade. O ministro Guido Mantega, por exemplo, acha que só alguns poucos programas governamentais estão com o uso dos recursos atrasados e que as pessoas "pinçam" um programa e, com base nele, criticam o Governo. Palocci disse que, em 2003, foi feita a mesma acusação de atraso no uso dos recursos e que, no fim do ano, tudo se normalizou. O secretário-executivo do Ministério da Educação, Fernando Haddad, diante do fato de só ter gasto 1% da receita do programa Brasil Alfabetizado, garante que a iniciativa não está parada, mas, sim, que melhorou. Todos os dados mostram que a paralisia atinge vários programas e até o deputado petista Paulo Bernardo, presidente da Comissão de Orçamento, diz que o Governo está andando muito devagar. Há uma crise gerencial e é melhor que os ministros encontrem formas de corrigir isso, em vez de esconder a realidade.

  A crise gerencial não acontece por falta de poder do ministro-chefe da Casa Civil. Pelo contrário. Seu poder, nas palavras do ex-ministro petista Cristovam Buarque à revista Época, é uma "aberração". Mesmo assim, aumenta-se o poder da Casa Civil, que agora terá que coordenar uma Câmara de Desenvolvimento Econômico.

  O desenvolvimento, no sentido de crescimento sustentado com avanços na área social, não será derivado de mais um arranjo burocrático. Ele virá do bom desempenho da área social, das soluções reclamadas pelos empresários, da superação dos gargalos ao investimento. A Câmara será mais um espaço para crítica à política econômica, o que, convenhamos, já há bastante.

  O País está crescendo este ano. Os dados são inequívocos. Mas também é fato que não há qualquer garantia de crescimento de médio e longo prazo. Não há investimento privado, despencou o Investimento Direto Estrangeiro, não há marco regulatório que crie o ambiente para o investimento em infra-estrutura, não houve qualquer concessão nova de geração de energia, o país está à beira do colapso logístico, a carga tributária só aumenta e 60% dos trabalhadores já estão na informalidade. Apesar de tudo isso, o secretário de Política Econômica, Marcos Lisboa, diz que o país está iniciando um período de dez anos de crescimento.

  O ministro Palocci, ao justificar o aumento do encargo trabalhista para pagar os aposentados, afirmou: "não podemos fingir que o problema não existe." Atitude saudável. Mas a frase do ministro seria boa se fosse usada para toda a realidade econômica do País.

  Não se deve ocultar os problemas. Eles são muitos e estão impedindo que se tenha horizonte para o crescimento. Para que esta não seja apenas uma recuperação cíclica, o Governo não deveria fingir que não há problemas. Eles não desaparecerem ao serem negados. Deveria trabalhar para superá-los. Para saber quais são esses entraves, não precisa nem ir longe. Em alguns casos, basta ouvir os de casa, os próprios petistas.

  Em outros, basta chamar alguns empresários para ver se o que está havendo na economia é exatamente o que o Governo acha que está acontecendo. Omar Carneiro da Cunha, da Ação Empresarial, comentou ontem, depois da entrevista do ministro Palocci, que, para saber que a carga tributária aumentou, basta olhar os dados no site da Receita Federal: "Apesar de a tendência do começo do ano ser sempre a de aumento da carga, (diluindo-se o efeito no segundo semestre), os dados mostram aumento em relação ao mesmo período. Acho que a carga terminará o ano em 39% do PIB".

 
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