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Opinião
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Pedido de socorro |
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Se compararmos o Brasil com outros países em estágio semelhante de desenvolvimento, a China e a Índia, por exemplo, logo verificamos que aqui não se pratica um esforço adequado para levar adiante o programa espacial. Há nesta país quem ainda pense a aventura espacial como artigo de luxo adequado à demonstração de força e vitalidade das nações desenvolvidas, mas uma das tarefas urgentes da pedagogia nacional, em cujo meio milita de forma influente a Imprensa, é demonstrar o erro desse ideário mesquinho de vistas curtas. Num foguete lançado às lonjuras siderais e num satélite vai o sumo da atualização tecnológica de um país, e não é só isto. Os aparatos, que gravitam em órbita da terra, não irradiam só a noção de poderio militar e pujança econômica. Eles interagem com inúmeros aspectos da referida atualização tecnológica, dizem com a nossa segurança, com o controle futuro das comunicações, até nos orientam produtivamente no que se relaciona ao combate do desmatamento e nos avisam das intempéries, para que os prejuízos, aqui na terra, sejam os menores possíveis.
Pois bem. Abalizado comentário do ex-ministro da Ciência e Tecnologia, Roberto Amaral, põe a nu a difícil trajetória vivida até agora pelos que carregam nos ombros o Programa Espacial Brasileiro, para demonstrar que ele morre à míngua de recursos orçamentários diminuídos a cada exercício que passa. Uma das causas do lamentável acidente da base de Alcântara, que vitimou pelo menos 21 técnicos e cientistas, foi, exatamente, a falta de dinheiro para impulsionar o programa para o alto de melhores realizações. Diz ele que, dentre os grandes países emergentes, só o Brasil "trata com menoscabo o respectivo programa espacial". Se Índia e China aplicam, anualmente, acima de US$ 400 milhões nos respectivos programas espaciais, o Brasil, de 1993 a 2002 - durante nada menos de nove anos! - gastou apenas US$ 374 milhões, estabelecendo a média por ano de somente US$ 37 milhões. O país deste modo vai voar rasteiro como voam as arapongas e as codornizes, voar mais baixo do que os aviões de carreira.
A pífia média obtida é coisa muito grave, como desprimoroso verificar que os aportes anuais do Governo ao programa vêm caindo sistematicamente, como se o declínio fosse coisa preconcebida dos bons programas planejados para levar o país adiante. Tivermos, em 1995, o dispêndio de US$ 27,5 milhões; em 1996, de US$ 18,7 milhões: em 1997, de US$ 11,2 milhões; em 1998, de US$ 10,4 milhões, chegando a inacreditáveis US$ 3,7 milhões, em 2002. Em 1999, diz o ex-Ministro, o Governo federal "teve o desplante de só aplicar US$ 1,6 milhão". Além do desfalque causado diretamente pelo acidente da base de Alcântara, a falta de dinheiro do programa espacial do país perde técnicos, cientistas e mão-de-obra especializada porque não tem condições de acompanhar os preços pagos pelo sofisticado mercado da campanha de domínio sideral, no mundo.
A reduzida quota de participação da Universidade no programa é outro ponto a ser revisto, se queremos, um dia, firmar no espaço a presença brasileira ganha aqui na terra. As indústrias igualmente se integraram pouco, até agora, ao programa espacial. O rol das nossas falhas a respeito, pensa Roberto Amaral, não estaria completo, se omitíssemos a necessidade em que ele se acha de ser repensado de baixo até em cima, ponto por ponto.
Conclusão. O programa espacial do país pede socorro.
FRASES
A administração pública deve levar em consideração a decisão do TSE que permite apenas as transferências de recursos para obras fisicamente. Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República, ordenando que repasse de verbas para obras ainda não iniciadas obedeça ao TSE
De forma alguma houve viés partidário. O banco nunca privilegiou prefeituras do PT na aprovação de financiamentos este ano. Márcio Henrique Monteiro de Castro, diretor do BNDES, negando que a instituição tenha privilegiado prefeituras do PT
O partido vai reeleger todos os oito petistas que hoje são prefeitos de capitais. O principal é que vamos ganhar de Serra em São Paulo José Genoíno, presidente do PT, mostrando otimismo para as eleições deste ano.
É suspeito que uma semana antes da aprovação das contas da prefeita se tenha aprovado 79 cargos de confiança paraos senhores conselheiros do tribunal Paulo Salim Maluf, candidato a prefeito de São Paulo (PP), criticando a atual prefeita e candidata à reeleição Marta Suplicy (PT)
Pulo do Gato
Márcio Cotrim
DIRETOR EXECUTIVO DA FUNDAÇÃO ASSIS CHATEAUBRIAND
Expressão popular que traduz o segredo profissional. Sílvio Romero, festejado pesquisador e escritor, afirma que ela deriva da fábula que as gentes antigas de Minas Gerais ainda conhecem.
A onça vivia admirada com a agilidade do gato. Curiosa, resolveu pedir-lhe umas aulas. O gato aceitou e começou a ensiná-la. Achando que já havia aprendido tudo, a onça resolveu pegar o gato como refeição, mas ele havia sumido. Dias depois, ao encontrá-lo, a onça perguntou: "Pois é, compadre, esse pulo você não ensinou...". O gato, muito esperto: "É ele, comadre, que me mantém vivo!"
O pulo do gato é muito comum. Nem sempre o chefe ensina tudo ao aprendiz, que se péla de medo de perder lugar. Na brabíssima competição do mercado, salve-se quem puder - e souber...
Audi - Em 1901, na cidade alemã de Colônia, o empresário August Horch desenvolveu seu primeiro automóvel e o batizou de Horch - ouça!, em alemão. Depois, brigou com os sócios, perdeu o controleda firma e foi impedido de dar seu nome a outro carro. Encontrou a solução: traduziu a marca do carro para o latim Audi, que também lembra audição. O veículo foi o primeiro carro alemão com a direção do lado esquerdo. Até então, valia a tradição das carruagens: nelas o cocheiro sentava do lado direito, o que lhe permitia, como lembra Reinaldo Pimenta, ficar com a mão direita livre para agir do lado de fora ì pegar coisas, dar tapinhas em carecas, apunhalar inimigos, etc. Em 1971 a Audi passou ao controle da Volkswagen e se tornou uma das marcas mais sofisticadas da indústria automobilística. Ouviu bem?
Potiguar - A palavra, que designa o natural do Rio Grande do Norte, é de origem tupi: poti'war significa comedor de camarão, crustáceo encontrado com fartura no litoral do Estado. Primitivamente, designava os potiguaras, etnia indígena que habitava a região. A identificação dos potiguaras com o crustáceo era tão grande que poáti - camarão, em tupi - virou nome próprio. O melhor exemplo disso foi o índio Poti,levado para Amsterdam em 1630, onde recebeu formação holandesa. O camarão fez história...
Hamburguer - Tudo começou com gente da Europa Oriental e da Ásia, habituada a comer carne crua finamente cortada. No século XVIII, marinheiros no porto de Hamburgo inovaram, passando a cozinhar a carne. Imigrantes alemães levaram a receita para os Estados Unidos e, na Feira Mundial de Saint Louis, em 1904, a iguaria ficou mais saborosa. Agora tinha carne moída temperada, misturada com cebola e ovos, amassada em bolinhos redondos e frita como um bife. Virou o hamburg steak (bife de Hamburgo), popularmente conhecido como hamburger. Há quem pense que o sanduíche ì um dos mais consumidos do mundo ì foi inventado nos Estados Unidos, mas a participação dos americanos foi apenas juntar ao bife o pão. Um alimento gostoso, mas nada dietético. Que o digam os obesos que não saem das lanchonetes...
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A leitora Maria Lúcia Franco Neto (Malu), de Brasília (DF), deseja saber a origem da expressão banho maria, tudo o que demoraa ser decidido, que está sendo cozinhado em banho maria. Deu-se que, na Antigüidade, uma alquimista européia conhecida por Maria, a judia, usava um tacho de cobre para manter por muito tempo aquecida a água aromatizada que usava em seus singulares experimentos. Da chaminé que expelia o vapor da água veio a expressão grega Kaminos Marias, a chaminé de Maria, que em latim virou balneum mariae, o banho de Maria. Na França, o bain-marie, de onde derivaram os dois sentidos de lentidão: o de cozinhar um alimento em água com fogo brando e, mais recentemente, o de empurrar uma decisão com a barriga, hábito comum entre os que adotam a conhecida e edificante máxima de Millôr: Não deixe para amanhã o que pode ser feito depois de amanhã...
e-mail: Marcio.cotrim@correioweb.com.br
Em volta da fogueira
Leonardo Dantas Silva HISTORIADOR
Quando eu era pequenino Mariana, as noites do mês de junho eram verdadeiras sucursais do paraíso. O céu tinha mais estrelas, o frio cobria de orvalho as nossas cabeças, o nevoeiro tomava conta da Campina da Torre e a fumaça das fogueiras enchia de lágrimas os nossos olhos infantis.
E eu, Mariana, menino curioso, passava as noites ao lado dos mais velhos que, juntamente com o teu avô Tonico (Antônio Machado Gomes da Silva Netto), se encarregavam da organização dessa festa, cuja tradição fora iniciada em 1916 por "Amaro Barbeiro", no depoimento do nosso Birino; falecido neste ano com mais de 90 anos bem vividos.
Hoje, Mariana, fechando os olhos eu volto a ser criança. Regredindo no tempo, sou capaz de reproduzir na lembrança a rua modesta de casas conjugadas. As bandeiras multicoloridas balançando ao vento, a decoração de palhas de coqueiro e folhas de bananeira, três grandes estrelas distribuídas ao longo dos 300 metros da rua, o brilho das fogueiras clareando as noitesde inverno, no céu os balões enfeitavam o espaço como se fossem as estrelas daqui deste mundo, provocando o alvoroço da criançada na vã tentativa de derrubá-los focando suas imagens num espelho. Em frente à casa nº 121, de Carmo Perruci, o mamulengo de "Zé da Paz" ameaçava esconder o "Cabo Setenta" numa daquelas estrelas. No interior daquela casa, numa grande mesa de amarelo vinhático, lá estavam o cuscuz, a tapioca, o manuê, o bolo de milho e outras iguarias confeccionadas com mãos de fada por Dona Maria Inês. Tudo hoje se torna tão presente em meu paladar, que ainda sinto o sabor da canjica, da pamonha e do pé de moleque que só tua avó, Dona Ilídia, sabia dar aquele toque todo especial.
E não terminam por aí estas minhas lembranças.
Na tela do computador da memória, surge a figura do preto Antônio Dionísio dos Santos, que eu tratava pelo doce apelido de "Pai Velho". Sim Mariana, eu sou do tempo em que se tomava a bênção aos mais velhos e assim criei o teu irmão, Tonico. Do alto dos seus vinte e seis anos, ele ainda com respeito pede a bênção a Birino, a Zeca Lucena e outros antigos moradores desta rua. Ao lado do meu "Pai Velho" eu construía a nossa fogueira, entre as casas de nº 73 e 79, e com ele permanecia, soltando fogos, assando milho e beijus, até que o sono roubava minhas forças e nos braços do meu pai eu era colocado sobre os lençóis do leito.
Assim eram aquelas noites de festas juninas aqui neste hoje conturbado bairro da Torre: no céu, imitando as estrelas os balões vagavam ao sabor dos ventos, e na terra a festa era de todas as idades; era de toda gente.
Sim Mariana, já houve um tempo, bem diferente de hoje, em que eu, nesta mesma rua Marquês de Maricá, era feliz e não sabia...
Campos Matos: 7 biografias
Dagoberto Carvalho Jr. ESCRITOR
O arquiteto português - da Póvoa de Varzim, como Eça - Alfredo Campos Matos é um velho e querido amigo, já muito conhecido dos meus leitores quinzenais do DIARIO DE PERNAMBUCO. Pela histórica e lúcida histórica entrevista que concedeu, em 1995, ao quase bicentenário jornal da Pracinha, por suas simpáticas visitas à cidade - sempre em companhia da botânica (por formação) e pesquisadora (por devoção ao marido) Carolina Matos - e pela consentida e nunca desmedida reincidência do articulista na resenha e no comentário de seus livros. A tal ponto chegam essas afinidades que os seus amigos do Recife já o homenageamos - pioneiramente em relação a outros patrícios - inscrevendo-lhe o nome em placa de bronze, no obelisco eciano da praça do romancista, na Madalena. Aqui esteve, por último, em agosto de 2000, para visita à mesma praça, Jantar Eciano e conferência, na Universidade Católica, alusiva ao centenário da morte do autor d'Os Maias. Na ocasião, vale lembrar, realizamos passeio aIgarassu (Igreja e Convento franciscanos de Santo Antônio), de seu particular interesse; Goiana, para conhecer a cidade por onde Eça de Queiroz "chegou ao Brasil, em 1872" e incluí-la no roteiro eciano internacional - objetivo ainda não conseguido por falta de definição da Prefeitura da Cidade - e à Ilha de Itamaracá. As curiosidades, já a partir da toponímia e da riqueza da vegetação (restos da mata atlântica), ficaram mais por conta da travessia, a barco, para a Coroa do Avião, de seus poetas violeiros e dos caranguejos folclóricos do "Buraco da Jia".
Depois do Dicionário de Eça de Queiroz (duas edições integrais e um Suplemento com tamanho e conteúdo de edição autônoma) e de Imagens do Portugal Queirosiano (duas edições) e outros muitos títulos, todos comentados nesta "Página de Opinião", do DIARIO, Campos Matos presenteia-nos, agora, com 7 biografias de Eça de Queiroz, editado pela já conhecida "Livros Horizonte", de Lisboa. O autor teorizou o tema, preparando-se, metodologicamente, para a análise das obras escolhidas, consciente, como Luís Viana Filho - um dos biógrafos estudados, o melhor deles, na opinião do autor desta resenha - de que "quando lemos uma biografia não fazemos mais do que ver a vida duma personalidade através dum biógrafo, e com todas as deformações, coloridos, restrições e omissões daí decorrentes". Por tratar-se de historiador - mesmo de individualidades - o biógrafo é, também, "a soma de si mesmo, de todas as suas raízes e influências", como assumiu o mestre da História contemporânea brasileira, José Honório Rodrigues. Vianna Moog - outro dos biógrafos estudados por A. Campos Matos - confessa, justamente no prefácio de Eça de Queiroz e o século XIX, dever-se o livro a "espíritos do passado, [verdadeiros] fantasmas ibsenianos, [que] vivem dentro de nós e nos tomam quase todo tempo a discutir conosco problemas que não nos deviam dizer mais respeito. Para nos libertarmos deles - desabafa - só há um caminho a seguir: escrever-lhes a biografia".
Os outros autores contemplados em 7 biografias, são Antônio Cabral, João Gaspar Simões, José Calvet de Magalhães, Maria Filomena Mônica e o brasileiro Miguel Mello, precursor da riquíssima fortuna crítica do romancista. Seu livro, pedra angular da bibliografia especializada, Eça de Queiroz, a obra e o homem é de 1911. Mereceu o prêmio da Academia Brasileira Letras, em sua época, talvez, de maior esplendor. E, a vista de parecer de ninguém menos que Sílvio Romero, segundo maior líder da Escola (lítero-filosófica) do Recife e referencial da crítica literária brasileira de todos os tempos.
Tributo a Pablo Neruda
Petrúcio Ferreira DESEMBARGADOR FEDERAL
Eu que nutro um grande, necessitado e esperançoso desejo de encontro com todo e qualquer que, rejeitando a mentira, lutando pelo primado da verdade e exigindo a justiça, ama e se deixa amar.
Eu que agradeço pelo meu Deus, pela vida, pelo amor, pela chuva, pelo sol e pela lua, pela brisa e pelo vento, pela rosa e pelas estrelas, pelo céu e pelo mar, pelos meus e por todos que fazem o meu agora em casa, no trabalho, na rua e no trânsito,na Igreja, no meu bairro e no meu tempo.
Eu que lamento pelo covarde que, por medo, não foi juiz, policial, governo, nem evangelizador, nem pastor e calou a sentença justa e esperada, não denunciou nem apurou o crime de todos sabido nos mínimos detalhes, nem puniu o homicídio, o assalto, o estupro.
Eu que peço perdão por todos os crimes da humanidade, pelos genocídios sempre repetidos, pelos que escravizam e pelos escravizados, pelos que guerreiam, matam e morrem, pelos invadidos e invasores, pelos oprimidos e pelos opressores, pelos explorados e pelos exploradores, por toda e qualquer discriminação, pelos crimes contra a natureza, pelo que não ama a mulher, a criança, o irmão e a vida.
Eu que sou irmão de todo que crê nele mesmo, na vida, no amor, na criança e no irmão, e assim tem Deus, este Deus que tudo soma e a todos salva e a quem, em cada fibra do meu eu, e a cada momento de minha vida me confio, de modo especial me sinto feliz neste 12 de julho de tributar uma especial homenagem ao poeta maior, ao poeta universal, ao poeta irmão, aquele que comprou bondade, esteve no mercado da cobiça, respirou as águas mais sórdidas da inveja, a desumana hostilidade dos disfarces e do ser, que viveu um mundo de lodo marinho, onde a flor, de logo, açucena o devorava em um temor de espumas e cuja poesia nasceu simplesmente resgatada de urtigas e empunhada sobre a solidão como um castigo.
Aquele que nascido Ricardo Eliezer Neftali Reys Basoalto, saindo de suas primeiras terras, do seu primeiro barro, do seu silêncio de criança a andar e cantar pelo mundo e cujo canto fez de suas andanças luz que o eternizou como Pablo Neruda.
Eu que também corri campos verdes, andei por lugares santos,em terras distantes fui esquecido, e no centro do mundo me escondi.
Eu que sempre estou andando, de dia e de noite sem parar, de noite e de dia sem cansar e da luta nunca fugi, da luz jamais me escondi, da vida nada pedi, do Amor, só do Amor me socorri, sinto-me feliz em fazer este tributo àquele ser que jamais conheceu o disfarce e em sua existência jamais se negou ao seu compromisso de vida, aquele que se apresentou ao mundo dos complicados como um homem demasiado simples, e que não temendo contagiar-se ao misturar-se à massa dos inimigos, assim definidos por ele tão só os inimigos do povo, pode na sua verdade de vida afirmar que não nasceu para condenar e sim para amar.
Falo daquele cuja poesia foi sua arma maior pela força da própria palavra, que amava, perseguia e que por ser tão bela vestiu e deu vida a seu poema, eternizando-o, fazendo-o simplesmente bela entre os sulcos do corpo moreno de uma campesina que em seus versos é vista como um cacho de uva de sua Parral, no centro do Chile.
Falo do grande Neruda que não deixou de cantar seu amor pelo seu Chile, para onde voltava em seus sonhos, indo até a Patagônia onde o vento golpeia os estábulos e salpica de gelo o oceano, falo de Neruda aquele que afirmou não ser nada mais que um poeta, que ama a tudo e a todos e anda errante pelo mundo que ama.
Falo de Neruda, e faço este tributo a Pablo que tal qual o grande Paulo lutou pela Justiça e pediu castigo para aqueles que trouxeram seus fuzis repletos de pólvora e trouxeram o extermínio a um povo que cantava, um povo por dever e amor reunido, e justamente por aqueles mortos, aquela delgada menina que tombou com sua bandeira, aquele jovem sorridente que rodopiou ferido, por todos os assassinados, é que sua poesia pede castigo como satisfação para aqueles que salpicaram de sangue a pátria, para o verdugo que trouxe aquelas mortes, para o traidor que cresceucom o crime, para o que ordenou toda aquela dor, pede castigo e não lhes aperta a mão afogada no sangue de sua gente, não os quer como embaixadores, nem tampouco tranqüilos em suas casas, em uma falsa paz, mas sim julgados naquela mesma praça, no mesmo lugar.
Falo de Pablo Neruda que independente de ser apresentado como um comunista incrédulo soube viver a essência da vida, a plenitude do ser, o verdadeiro amor e confessou sua inabalável e absoluta fé no destino humano, a despeito de tantos encontros entre sua poesia e a polícia, de tudo que precisou amargurar no seu dia a dia, a despeito de saber da ameaça da bomba sobre todas as nossas cabeças, não deixando que nada abalasse sua esperança.
Falo e homenageio Neruda que em uma visão rica apanhada em sua poesia, não pode entender a conduta mesquinha dos missionários do Deus Amor, como ocorreu com aquele cura que procurado por aquela jovem grávida que queria como padrinhos de seu filhinho Neruda e sua Matilde, eriçou-se todo diante da possibilidade de admitir como padrinho a um comunista, ou do Sr. Pascal, aquele sacerdote que dirigia o jornal e não permitiu que Neruda publicasse um poema para aliviar a dor de Don Asterio, um velho relojoeiro cuja esposa estava à morte, simplesmente porque Neruda era comunista.
E com o poeta maior afirmo: "Quero viver em um mundo sem excomungados. Não excomungarei ninguém. Não diria aquele sacerdote: você não pode batizar ninguém porque é anti-comunista. Não diria aquele outro: Não publicarei seu poema, sua obra porque você é anti-comunista. Quero viver em um mundo onde os seres sejam simplesmente humanos, sem quaisquer outros títulos que este, sem fechar-se em um regra, agarrar-se a uma palavra, a uma etiqueta. Quero que as pessoas possam entrar em todas as igrejas, em todas os jornais. Quero que ninguém seja preso para ao final ser expulso. Quero que todos entrem e saiam do Palácio Municipal sorridentes. Quero que a grande maioria, a única maioria, todos, possam falar, ler, escutar, florescer. Não entendi jamais a luta a não ser para que esta chegue ao fim. Não entendi jamais o rigor, a não ser para que este não exista. Segui um caminho porque creio que o mesmo levar-nos-á a todos a uma convivência amiga e duradoura".
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