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Edição de Terça-Feira, 6 de Julho de 2004 
Brasil | Sebastião Nery
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BRASIL
Sebastião Nery
Os dois Lulas
sebastiaonery@ig.com.br
SALVADOR - Pitta Lima era o rei do jogo do bicho aqui na Bahia. Sabia mais de dezenas, centenas e milhares do que Einstein sabia das matemáticas. Um dia, o fascínio da glória lhe subiu à cabeça. Quis ser deputado, legenda não lhe faltava. Comprou a inscrição, candidatou-se.

  E a propaganda? Era preciso pentear a imagem. Ainda não havia os Dudas e Guanaes. Pitta Lima mandou fazer um cartaz enorme e espalhou pela cidade, apenas a foto e a legenda: "O verdadeiro Pitta Lima".

  Silvio Valente, poeta mordaz, terror dos políticos medíocres do Estado, que assinava uma coluna diária de epigramas no jornal A Tarde, e assinava Pepino, o Longo, publicou quatro quadras que devastaram a candidatura.

Pitta Lima

  "Embora me fuja a rima,

  Sigo da rima no encalço.

  Existem dois Pitta Lima:

  O verdadeiro e o falso.

  Na Assembléia, o danado

  Será talvez o primeiro.

  Será falso deputado?

  Deputado verdadeiro?

  Quis entrar na Academia,

  Mas a eleição deu em nó,

  Porque ali não havia

  Duas vagas para um só.

  Termino aqui esta rima,

  Que não tem fito nenhum.

  Desejando ao Pitta Lima

  Que seja ao menos um".

  A candidatura acabou.

O time

  O país elegeu Lula pensando que ele era um só. Foi enganado. Como o Pitta Lima de Silvio Valente, Lula já era dois: o Lula do ABC e o Lula do FMI. O Lula dos sindicatos e o Lula da Febraban. O Lula do PT e o Lula dos banqueiros. O Lula de Frei Betto e o Lula de Henrique Meirelles. O Lula da convicção e o Lula da traição.

  Com menos de dois anos de Governo, caiu a mascara. O Lula do ABC, dos sindicatos, do PT, de Frei Betto, da convicção, sumiu logo. Ficou apenas o Lula do FMI, da Febraban, dos banqueiros, de Henrique Meirelles, da traição.

  Em um país onde os governos, quase todos, principalmente nos oito anos do desastre de Fernando Henrique, sempre jogaram no time das elites, o mínimo que se poderia esperar de Lula é que jogasse no time do povo.

  Cada dia é mais claro. O Governo de Lula é um Governo dos poderosos, um Governo dos implacáveis interesses que jogam o povo na marginalidade.

Edson Vidigal

  O país assistiu, na semana passada, a dois episódios lamentáveis, provando que, pior do que um Governo que nada faz para defender o povo, o Governo Lula tudo faz para defender e proteger os exploradores do povo.

  Até a Anatel, que é o sindicatão das teleempresas privatizadas e doadas por Fernando Henrique, já havia anunciado que o aumento deste começo de novo semestre seria no máximo de 7,43%. As empresas decidiram que

não. Que as tarifas seriam as que elas queriam.

Impuseram aumento de 17,45% e foram à Justiça para o Tribunal aprovar.

  E de repente apareceu diante da Nação, em todas as TVs, o meritíssimo jornalista, deputado e juiz Edson Vidigal, presidente do Superior Tribunal de Justiça, com um discurso histriônico e arrogante, dizendo que o Brasil precisa acabar com "essas coisinhas" que "deixam o país mal diante dos empresários estrangeiros". A "coisinha" é um aumento de 17,45%, escandalosamente doado e garantido às telefônicas, para elas não ficarem de mal com o Brasil.

  Nem Lula nem o ministro das Comunicações fizeram nada para negociar as tarifas pelo índice oficial da inflação, o IPCA, que mede os salários e os direitos do povo. E aceitaram o IGP-DI, que é o índice especial, externo, dos empresários, quando se trata de arrancar o couro da população.

  Curiosa a metamorfose do ministro Edson Vidigal. Até agora se sabia que o único medo dele sempre foi de o senador Sarney ficar de mal com ele.

Planos de saúde

  O escândalo dos planos de saúde é pior ainda. Segundo vários exemplos dados pela Folha, "a mensalidade do seguro-saúde, mantido há mais de 16 anos, aumentará

em 81,6% a partir de próximo mês, muito acima do aumento máximo anual autorizado pelo Governo neste

ano, de 11,75%".

  O Supremo Tribunal "determinou" que a lei de 98 que regula planos e seguros de saúde "não vale para os contratos anteriores a ela". São milhões e milhões que serão assaltados pelas empresas, a absoluto critério delas. A Bagdá já chegamos. A próxima etapa é carro-bomba.

 
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