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Literatura em festa Bloomsday
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Data é comemorada ao redor do Mundo em reverência ao romance Ulisses, de James Joyce (1882- 1941) |
Augusto Pinheiro Da equipe do DIARIO |
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Há exatos cem anos, o personagem Leopold Bloom, no romance Ulisses (1922), do irlandês James Joyce (1882-1941), realizou seu périplo por Dublin, capital da Irlanda, cidade retratada pelo escritor de maneira transcendental, mas, ainda assim, realista.
Como parte da mística em torno do livro, o dia 16 de junho foi batizado de Bloomsday, data comemorada por amantes da literatura do mundo inteiro. Os eventos ganham cores mais fortes na Irlanda, país-natal do escritor, mas estão espalhados pelo globo. No Recife, acontece hoje o 2º Bloomsday de Pernambuco, na sede da UBE - União Brasileira dos Escritores (leia mais no texto abaixo).
Toda a ação do livro se passa em 18 horas e está dividida em 18 capítulos, em mais de 800 páginas. A obra, considerada uma das mais importantes da literatura mundial, inovou a linguagem e transgrediu a narrativa, com a técnica do fluxo de consciência - utilização de elementos do inconsciente para tratar de questionamentos internos.
Joyce começou a fazer rascunhos para o livro em 1902, aos 20 anos. "Ele estava suficientemente absorto em si mesmo para reunir todas as suas epifanias e começar a organizá-las para criar anotações para Ulisses", diz texto do site do Centro James Joyce. Mas começou efetivamente a escrevê-lo em 1914, logo após a publicação de Retrato de um Artista Quando Jovem, e o publicou em 1922.
"Ele inovou o monólogo interior, utilizando uma linguagem que, além de não-linear e não-lógica, é simbólica e metafórica", atesta Raimundo Carrero, consagrado escritor pernambucano que se diz influenciado pelo trabalho de Joyce.
Para o escritor Vital Corrêa de Araújo, presidente da UBE-PE, o romance é um divisor de águas. "É vanguarda até hoje, ninguém conseguiu superá-lo", comenta. "Alterou a língua inglesa e influenciou a poesia moderna, com seu texto abstrato e simbolista.
Como o próprio título sugere, Ulisses traça um paralelo com a grega Odisséia, de Homero, que narra as aventuras de Ulisses na tentativa de retornar para a mulher, Penélope, e o filho, Telêmaco, em Ítaca. Considerado de leitura difícil, Ulisses traz frases sem pontuação, referências clássicas, trechos de canções e até mesmo diagramas.
Além de Leopold Bloom, vendedor e judeu não-praticante, povoam as páginas do livro Stephan Dedalus, um jovem intelectual arrogante, e Molly, mulher de Leopold, cujo monólogo, no último capítulo, é um dos mais famosos trechos da obra de Joyce. "São 50 páginas sem ponto nem vírgula, com o inconsciente do jogo interior", diz Carrero.
O livro chegou a ser considerado pornográfico e proibido na Inglaterra e nos EUA, segundo explica Vital, por conter cenas sexuais explícitas. "Ele também descreve outras atividades fisiológicas".
Apesar de todas as comemorações na capital irlandesa, Joyce mantinha uma relação de amor e ódio com Dublin e deixou a cidade definitivamente em 1912 quando um editor destruiu a primeira edição de seu livro de contos Dublinenses.
PSICANÁLISE - A partir dos estudos que o psicanalista francês Jacques Lacan fez da obra de Joyce, o autor também virou uma febre entre os profissionais dessa área. "Lacan dedicou um seminário, chamado O Sinthoma, a ele", explica Ana Lúcia Falcão, psicanalista e uma das organizadoras do Bloomsday no Recife. Ela e colegas do instituto Intersecção Psicanalítica do Brasil se debruçam sobre os escritos e a vida de Joyce há quatro anos. "Lacan diz que todo mundo tem uma parte de loucura dentro de si. E ele descobre que Joyce faz da doidice dele uma produção literária, assim ele amarra a loucura a partir da escrita".
As comemorações também partem do setor editorial. A Casa da Palavra lança semana que vem Shakespeare & Company, autobiografia de Sylvia Beach, amiga e admiradora de Joyce, que relata, entre outras coisas, os percalços para a primeira publicação de Ulisses.
Segundo Vital, após terminar o livro, Joyce teria dito ao poeta Ezra Pound que "cem anos seriam pouco para estudar e compreender seu texto". Mas, se depender do interesse em torno da obra do escritor, não vai faltar interessados em furar esse "bloqueio".
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