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Governo defende prioridade de compras a países pobres
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Lula diz que corrupção atrapalha ajuda dos mais ricos no combate à fome |
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SÃO PAULO - Defensor de uma "geografia comercial", com maior participação dos países pobres, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que o Brasil irá importar produtos das nações vizinhas mesmo que custem mais do que mercadorias idênticas vendidas a um preço menor pelos países ricos. "Nós temos que ajudar os países mais pobres, comprando as coisas deles. Se não, como é que eles vão produzir, gerar empregos?', disse Lula no Fórum da Sociedade Civil, da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento). "Nós temos que comprar determinados produtos que poderíamos comprar mais barato no Canadá ou em outra parte do Mundo, porque precisamos ajudar os países menores", disse.
Ao se reunir com militantes de ONGs, Lula fez uma retrospectiva da sua política externa. Respondeu a perguntas de três militantes e fez uma revelação: sua determinação de importar produtos mais caros de países pobres é motivo de discórdia dentro do Governo. "Se você for levar em conta a briga, a boa briga que nós temos no Governo, é que todo país do mundo só quer vender, nenhum país quer comprar. Todos só querem ter saldo comercial positivo. Ninguém quer ter déficit comercial, mas o Brasil precisa vender e precisa comprar.'
A tal briga a que Lula se refere é a seguinte: o ministro Celso Amorim (Relações Exteriores) vem dizendo reservadamente que o Brasil, para assumir a posição de liderança regional, precisa ser generoso com os países mais pobres. Isso significa comprar seus produtos. A equipe econômica, interessada em manter alta a balança comercial, resiste à idéia.
Lula disse que os governantes deveriam priorizar a erradicação da fome na elaboração dos seus orçamentos. "A fome passa a ser responsabilidade daqueles que comem.' Ao falar do dinheiro destinado às ações nessa área, Lula disse que os US$ 50 bilhões destinados pelo Banco Mundial e pela ONU são "modestos' comparados aos "trilhões gastos com guerras e armamentos" e que "as guerras não matam tanto quanto a fome.'.
"O desafio, na verdade, écriar as condições de convencer os governantes do mundo a entenderem que a fome é o que mais mata gente no mundo, hoje."
Na segunda-feira, o presidente Lula reuniu-se com o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan. Conversaram sobre o encontro do dia 20 de setembro, em Nova York, quando o fundo internacional de combate à pobreza deverá ter as regras de financiamento estabelecidas. Annan é o principal aliado de Lula na cruzada para tirar a idéia do fundo do papel. Já conseguiram a adesão do presidente da França, Jacques Chirac, e do Chile, Ricardo Lagos, mas isso ainda é pouco para concretizar a idéia.
Para Lula, uma nova agenda econômica, mais favorável aos países em desenvolvimento, passa inclusive por mudanças nos critérios do FMI (Fundo Monetário Internacional) para que investimentos que os países pobres fazem em infra-estrutura não sejam contabilizados como gastos. O presidente criticou a idéia de que a liberalização dos mercados - adotada por países da América do Sul nos anos 80 - se refletiria de forma positiva na economia.
CORRUPÇÃO - O presidente Lula, que está empenhado em criar um fundo internacional de combate à fome e à pobreza, disse hoje que um dos empecilhos para conseguir convencer os países ricos a doarem esse dinheiro é a corrupção existente nas nações em desenvolvimento. "Precisamos ter instrumentos de fiscalização desses recursos. É preciso que organismos multilaterais possam determinar, de comum acordo com os países, o tipo de desenvolvimento e a aplicação desses recursos. Estamos cansados de ver, também nos países pobres, o dinheiro que é enviado para combater a pobreza ser desviado para a conta dos dirigentes no exterior", disse Lula.
Ontem, segundo dia da Unctad, o presidente discursou duas vezes -participou de uma mesa-redonda sobre novas formas de financiar o desenvolvimento e do Fórum da Sociedade Civil.
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