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Edição de Sábado, 29 de Maio de 2004 
Viver | Em sintonia com outras linguagens
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VIVER
Em sintonia com outras linguagens
O diálogo com outras linguagens artísticas sempre serviu como fonte de inspiração para os grupos de dança que atuaram no Recife, dos anos 1970 até a atualidade. Esta relação estreita com outras artes foi expressada em vários estilos de dança cênica, do clássico ao moderno, passando pelo jazz, e chegando ao popular e ao contemporâneo. Para falar sobre esta sintonia, ninguém melhor que os próprios criadores.

  Para Mônica Lira, coreógrafa do Grupo Experimental, a cultura precisa de conexões mais abrangentes para ser alavancada. "Hoje, é mais comum vermos os grupos preocupados em fazer pesquisa musical ou de textos de teatro. É uma forma de se trabalhar", detalha Lira, que já criou em cima de referências do cinema, no espetáculo Lúmen (2002), e da cultura mangue, em Zambo (1997). Agora, o Experimental está de novo às voltas com a arquitetura, que inspirou Quincunce (2000), desta vez sob um outro olhar. "Antes, era a arquitetura e a vivência das pessoas que moravam no edifício Holliday, que chamo de favela vertical. Nesta nova produção, que estréia no segundo semestre, busco a arquitetura das formas e do corpo em movimento", compara.

  A plasticidade das esculturas de quatro artistas plásticos pernambucanos ajuda a tecer os movimentos de Labirindo, novo projeto da Cia dos Homens, previsto para setembro. O grupo, o pioneiro na dança contemporânea em Pernambuco, nascido em 1988, foi fundado por Airton Tenório e hoje é dirigido por Cláudia São Bento. Ela, que foi bailarina da companhia desde o início, participou de uma montagem que unia dança e literatura - o espetáculo Soroco, Sua Mãe, Sua Filha, baseada no conto homônimo de Guimarães Rosa. "Estive em dois momentos, em 1992 e em 1999, e gosto mais da segunda leitura," relata Cláudia.

  Seria complicado elencar todos os espetáculos que fazem este casamento entre a dança e outras formas de expressão, mas alguns foram pesquisados pelo RecorDança, por sua importância. O Anjo Azul, de Mônica Japiassú e Rubem Rocha Filho, imaginado a partir do filme de Ernest Lubisch, estrelado por Marlene Dietrich, é um exemplo. Piazzolada, onde Zdenek Hampl foi buscar a essência do tango na música de Astor Piazzola e A Toda Prova, que criticava os quadrinhos americanos e tinha uma conotação política, também marcaram época. Outro espetáculo memorável imaginado pelo coreógrafo foi o da Festa da Pedra, realizado no ateliê de Francisco Brennand, na Várzea, com músicas de Stravinsky e Ravel, em 1990. "Fui apresentado ao escultor por Cecília Brennand. A proposta era libertarmos o erotismo escondido nas esculturas dele. Tivemos muito público e as pessoas ficaram em arquibancadas", recorda Zdenek.

  Na dança popular, Baile do Menino Deus, estrelado pelo Balé Popular do Recife e pelo Balé Brasílica, une a dança ao texto de Ronaldo Correia de Brito, enquanto Uakti, do Brincantes, procura a dança a partir da tradição oral dos índios tucanos do Rio Negro.(T.M.)
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