No PFL e no PSDB vigora a certeza de que o plano do governo é conquistar apoio entre os oposicionistas mais maleáveis, dividir os partidos e isolar na oposição aqueles que, na visão do PT, são os inimigos e representam ameaça eleitoral de fato
A proposta de união nacional feita por José Dirceu durante um jantar para empresários no sábado, em São Paulo, não foi recebida com surpresa pela oposição.
Há dois meses PFL e PSDB já conversavam a respeito e sabiam que, em algum momento, o Planalto lançaria o tema ao debate.
E, antecipadamente, as cúpulas dos dois partidos acertaram que a resposta é não. Pelo menos enquanto a oposição não tiver cacife para negociar. Se o governo quiser conversar sobre união nacional diante do mapa eleitoral, com o resultado dos pleitos nas principais capitais - que a oposição aposta que será desfavorável ao PT -, PFL e PSDB podem até pensar no assunto.
Mas propõem pôr na mesa de negociações a reeleição do presidente Luiz Inácio da Silva, em 2006. Ou seja, para a oposição, o pacto pode vir a ser possível. Mas tem calendário e preço políticos.
A sugestão feita pelo ministro da Casa Civil aos empresários - sob a alegação de que vem aí uma forte crise econômica internacional - pegou a oposição bem adiantada na
análise do tema.Desde a crise Waldomiro Diniz, quando o governo exibiu exuberante inaptidão para lidar com a adversidade, o grupo de tucanos e pefelistas que periodicamente se reúne em torno do ex-presidente Fernando Henrique vem conversando sobre a hipótese de, em algum momento, o Planalto propor um pacto
de união nacional.
Entre eles há concordância sobre a inexistência de pontos objetivos para servir de base a acordos. Sem a materialidade dos ônus e dos bônus de parte a parte, o pacto proposto não passaria de pura e simples adesão ao governo. Por essa avaliação, o PT quer é uma
trégua pré-eleitoral.
Desnecessário detalhar, então, quem seria o único beneficiário desse acordo.
Sim, mas como recusar a mão estendida sem parecer intolerante nem dar à opinião pública a impressão de que a oposição aposta no pior para o País? O ex-presidente Fernando Henrique acha que as incompatibilidades reais falariam por si. Por exemplo, se os tucanos propusessem mudanças na política econômica e quisessem compartilhar sua condução, FH tem certeza de que o governo não aceitaria.
Mas tal hipótese é posta apenas para dar clareza ao raciocínio que sustenta a recusa aos pactos, porque nem passa pela cabeça de pefelistas e tucanos a possibilidade de considerar a
sugestão de Dirceu.
Muito menos agora. No PFL e no PSDB vigora a certeza de que o plano do governo é conquistar apoio entre os oposicionistas mais maleáveis, dividir os partidos e isolar na oposição aqueles que, na visão do PT, são os inimigos e representam ameaça eleitoral de fato.
Seria, na concepção de tucanos e pefelistas, apenas uma manobra, uma tentativa de neutralizar a oposição.
Em vez de sair a campo para capitalizar as dificuldades enfrentadas pelo governo, se subscrevessem a proposta os adversários do Planalto ficariam reféns da agenda de uma suposta crise criada para dar às críticas um caráter de ataque ao bem-estar dos cidadãos e à estabilidade nacional.
Essa interpretação da proposta de Dirceu só não pode ser atribuída a delírios de oposição porque obedece ao padrão do governo de construir crises institucionais quando se vê em cenário adverso.
Foi assim na "conspiração" montada a partir do Ministério Público no caso Waldomiro Diniz, foi assim no "ataque à soberania nacional" visto por trás de um artigo de jornal.
De salto alto
Se quiser mesmo fazer alianças partidárias importantes e transformar em realidade o que hoje é apenas a suposição de que José Serra ganha em São Paulo de Marta Suplicy, o PSDB terá de começar por calçar sapatos de saltos mais baixos
em suas andanças.
Causou espécie a falta de cerimônia com que o governador Geraldo Alckmin abordou o presidente do PFL, Jorge Bornhausen, dizendo simples e diretamente que o PSDB iria "precisar" do tempo de televisão reservado ao PFL no horário eleitoral gratuito.
Pois agora os pefelistas acham que "precisam" ouvir argumentos mais consistentes para concordar em retirar a
pré-candidatura de José Pinotti.
Faz-de-conta
Esse apoio do presidente do Senado, José Sarney, ao tucano Tasso Jereissati para substituí-lo no cargo parece tão autêntico e sincero quanto o apoio do PFL à reeleição de João Paulo Cunha na presidência da Câmara.
Os pefelistas abraçam a tese da reeleição porque sabem de seu potencial destruidor sobre a base governista. E Sarney apóia Tasso para levar o governo a se engajar na sua batalha por mais um mandato no Senado.
Fosse real a trama, teríamos de admitir como verdadeira a disposição de entregar ao PSDB o comando do Congresso no biênio eleitoral de 2005/2006.
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