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Edição de Sexta-Feira, 14 de Maio de 2004 
Economia | Miriam Leitão
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ECONOMIA
Miriam Leitão
Dúvidas internas
E-mail: paneco@oglobo.com.br
O temor é que o Brasil se transforme em um país onde as decisões são tomadas de forma atabalhoada, emocional e arbitrária. Como foi a expulsão do jornalista. A democracia, o respeito às leis, a liberdade de Imprensa não são ativos apenas políticos

O Brasil nunca esteve, do ponto de vista dos indicadores econômicos, tão forte diante de uma crise externa como está neste momento. E a própria crise externa é a mais benigna de todas as outras que sacudiram o Mundo nos últimos 20 anos. Mesmo assim, o governo administra mal a crise brasileira por errar insistentemente na emissão de sinais truncados. Até a crise do jornalista está sendo lida pelos investidores como risco-Brasil.

  Na quarta-feira, entre os que pioraram, o Brasil foi o que mais piorou. Mesmo não sendo um fato econômico, fez acender um sinal de alerta nos investidores. O temor é que o Brasil se transforme em um país onde as decisões são tomadas de forma atabalhoada, emocional e arbitrária. Como foi a expulsão do jornalista. A democracia, o respeito às leis, a liberdade de Imprensa não são ativos apenas políticos. Eles ajudam a criar o ambiente amigável ao investimento, que atrai capital estrangeiro e estimula o capital nacional a iniciar novos projetos. Portanto, um ato equivocado como este podedar um sinal errado que produz efeitos econômicos.

  A comunicação não é apenas a relação com os jornalistas. Se bem feita, pode ser o principal auxiliar de uma política econômica adequada. E O governo tem errado insistente e sistematicamente na comunicação. Tenho dito que as ambigüidades, as declarações impensadas, os conflitos explícitos entre facções do Governo conseguem apagar os efeitos benéficos da escolha pelo difícil caminho da austeridade fiscal e monetária.

  Dois veteranos em crises externas, que entrevistei no Espaço Aberto, da Globonews, mesmo tendo vivido épocas distintas da história recente, concordam que esta crise é mais fácil ser vencida.

  Carlos Geraldo Langoni enfrentou, como presidente do BC, a hoje remota crise do começo dos anos 80:

  - Na época, o mundo vivia uma mistura de recessão, inflação, juros altos e choque do petróleo. Os Estados Unidos elevaram a taxa de juros a níveis nunca vistos por causa da alta de inflação para dois dígitos. Agora, eles estão crescendo, a inflação mundial é baixa e os juros internacionais nunca foram tão baixos. A única surpresa é o petróleo.

  O petróleo vem batendo recordes de altas de preços, mas o Brasil hoje é cada vez menos dependente de petróleo importado.

  Luiz Fernando Figueiredo assumiu o cargo de diretor de Política Monetária do Banco Central no furacão da crise de 99. Enfrentou depois turbulências em 2001 e nova crise em 2002 e acha que agora a situação está mais fácil:

  - O Brasil está com superávit comercial e em transações correntes. Em outras crises, estava com contas externas no negativo e, em 99, muito negativo. O país está com um bom histórico no campo fiscal. E tem câmbio flutuante, o que ajuda a amortecer a crise porque, quando o fluxo cai, o câmbio ajusta.

  Isso não significa que está tudo bem. Significa apenas que o País tem mais chances de passar bem por esta crise. Tem mais vantagens que em outros momentos, como as contas externas em ordem, contas públicas controladas e bons instrumentos de política econômica, como o câmbio flutuante e metas de inflação.

  A crise agora vem da expectativa de alta dos juros americanos e do risco de que produza efeitos, fazendo com que investidores saiam dos países emergentes para países ricos. Mesmo esse efeito, já está quase todo dado.

  - Os juros americanos já se ajustaram. O que não subiu até agora foi a taxa básica, mas o mercado já elevou os juros e, pela curva, pode-se ver que os EUA vão subir em torno de 0,25% a cada mês em todas as reuniões até o fim do ano. E, no fim do ano que vem, estará com taxa de 4%, diz Figueiredo.

  - Já foram antecipados alguns efeitos da mudança na conjuntura. O impacto pode ser menor ainda se o Brasil seguir seu caminho e evitar o neo-populismo. Nada do que está acontecendo é semelhante com o que acontece em 98, 99 ou 2002, afirma Langoni.

  A alta de juros vai reduzir um pouco o crescimento americano, mas os EUA vão continuar crescendo. A queda do crescimento da China não deve ser significativa, aposta Figueiredo, que esteve recentemente por lá.

  O cenário mostraque os riscos a serem enfrentados não são assim tão grandes. Poderiam ser facilmente vencidos se o Governo não demonstrasse tanta inabilidade para lidar com os desafios cotidianos da arte de governar, decidir, se comunicar e manter o rumo escolhido.

  Haverá um momento mais adiante em que os riscos serão maiores. As duas máquinas que puxam o mundo serão testadas por fundamentos frágeis. Os EUA com enormes déficits externo e fiscal. A China pelas distorções do seu modelo híbrido, pela suas falhas institucionais e pelos gigantescos rombos bancários.

  - Aí é que reside o risco para a economia mundial, alerta Langoni.

  Se esses dois países não souberem contornar estas distorções, o Mundo pode passar por uma grande crise. Mas esta que está aí deixando os mercados nervosos, que derrubou a bolsa em mais de 20% e quase dobrou o risco-país, é mais fácil de ser enfrentada que outras.

  O grande problema agora é se esta turbulência vai afetar a economia real, abortando a incipiente retomada econômica que apareceu nosúltimos indicadores. Este risco será tão maior quanto maiores forem os erros de administração das expectativas o governo cometer. Neste ponto, tudo o que vem acontecendo no país não é tranqüilizador. Como disse Langoni, o maior problema não é com a dívida interna, mas sim com a dúvida interna.

 
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