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A nova União Européia
A admissão de novos membros, em número de dez, pela União Européia se constitui num fato relevante da geo-política internacional. Da geo-política e da economia internacionais. Em 1957, eram apenas seis os países membros, os fundadores Itália, França, Alemanha, Holanda, Bélgica e Luxemburgo. Vieram depois a Dinamarca, o Reino Unido da Grã-Bretanha e a Irlanda, isto em 1973. A Grécia se incorporou em 1981, enquanto Portugal e Espanha, em 1986. A penúltima admissão se deu em 1995, ocasião em que se verificou o ingresso da Suécia, Finlândia e Áustria, completando-se o total de quinze países-membros. Em nossos dias, isto é, no recente 1º de maio, europeus do antigo leste comunista dos tempos da "guerra fria" foram autorizados a se declararem membros de fato e de direito da União, que agora abriga vinte e cinco sócios. Foram estes os seguintes países: Estônia, Letônia e Lituânia, localizados na área do Báltico e eram partes da União Soviética, Polônia, República Tcheca, Eslováquia, Hungria e Eslovênia, mais as ilhas de Malta e Chipre. A Polônia foi típica representante do chamado leste comunista, as ilhas de Chipre e Malta se acham em pleno Mediterrâneo, enquanto os demais se localizam na região dos Bálcans.
O conjunto agora comporta 455 milhões de habitantes, contra 376 milhões de antes desta mega fusão entre países. O Produto Interno Bruto (PIB) do novo team é de US$ 12,6 trilhões, enquanto a futura Área de Livre Comércio das Américas (Alca), se vier a ser criada, terá uma riqueza total estimada em quantia pouco menor, da ordem de US$ 12,1 trilhões.
Os novatos da comunidade européia representam obra de 19% da superfície total dos membros mais antigos e 17% de sua população. Calcula-se que os dez novos membros da União Européia dispõem de um PIB equivalente a 8% do PIB a que se juntam. São números na aparência coerentes, harmoniosos entre si. Vão receber subsídios iniciais por três anos, no montante de US$ 24 bilhões para a ampliação e melhoria da respectiva infra-estrutura econômica e do equipamento social, de modo que em pouco tempo venham a dispor de uma renda per capita próxima daquela de que já usufruem os membros antigos da União Européia, ao se vencer o exercício de 2003. Analistas da situação européia adiantam que os próximos países a ingressar na União - Romênia, Bulgária e Turquia, não deverão esperar muito tempo para fazê-lo. O caso politicamente mais complicado é o da Turquia, porque não está sendo fácil definí-la como país europeu, já que grande parte do respectivo território fica na Ásia.
O crescimento territorial, político e econômico da União Européia suscita indagações de alguma relevância. Por exemplo: com os seus 455 milhões de habitantes e o PIB já assinalado da ordem de US$ 12,6 trilhões, fica claro que o bloco é bastante forte no conjunto da realidade mundial de hoje, mas, pergunta-se, não estaria a correr o risco de fragilizar instituições que, com apenas os quinze membros de antes, todos situados no Ocidente europeu, estavam praticamente consolidadas? Se, economicamente, é indubitável que estamos ante uma força econômica igual a de um rico continente, por outro lado é de se pôr em dúvida se a nova situação ajudará ou prejudicará a coesão interna alcançada a duras penas e depois de um trabalho levado a cabo por estadistas experientes no curso de inúmeros anos de sucessivas batalhas, de acertos e fracassos inumeráveis. A História dirá.
Posse na Academia
Roberto C. de Albuquerque ENSAÍSTA
A posse do senador Marco Maciel na Academia Brasileira de Letras foi uma festa de Pernambuco. Da mesma geração de pernambucanos são o eleito e o acadêmico Marcos Vilaça, que o saudou. Ambos embalaram no sotaque da terra as glórias de Pernambuco, ressaltando o quanto devem a ubre tão fértil e generoso. Na numerosa e representativa audiência que transbordou a Casa de Machado de Assis era expressiva, senão majoritária, a cota dos conterrâneos.
Em discurso substancial, Marco Maciel cumpriu o rito acadêmico ao celebrar o historiador Francisco Adolfo de Varnhagen, patrono da Cadeira 39, de que Maciel é o oitavo ocupante, bem como os que nela antes se sentaram. Destacou o pernambucano Oliveira Lima, fundador da Cadeira, e o antecessor imediato, jornalista Roberto Marinho. Deu provas de talento e cultura ao discorrer sobre as interfaces entre a política e a literatura e ao sintetizar o ideário liberal temperado de justiça social que vem pautando seu já longo, brilhante e coerente itinerário de homem público. Como sempre, Marcos Vilaça encantou com a erudita e bem-humorada saudação que recepcionou o novo acadêmico.
Compôs-lhe o retrato inteiro: da pessoa, do intelectual, do político. Interpretou suas crenças, as idéias, as obras. "O seu discurso é um ato de fé, aquela operária de todas as vitórias. A fé, o povo, o sol das praças são imagens da sua fala", disse Vilaça.
Em editorial de 4 de maio, dia seguinte à solenidade, o Jornal do Brasil (que tem a cara do Rio de Janeiro) considerou a posse "um momento de orgulho para os políticos e pensadores brasileiros" e "um reconhecimento mais do que merecido". A Academia Brasileira de Letras, criada em 1897 à imagem da Académie Française (que nasceu em 1635), não empresta às Letras o sentido, restritivo, de literatura de ficção. Sempre as entendeu na acepção, ampla, de humanidades; amplíssima, por vezes, de erudição, cultura. É requisito necessário para ascender à imortalidade ser escritor: escritor de livros publicados e relevantes. Na Academia convivem, desde o século XIX, poetas e romancistas com ensaístas, gramáticos, historiadores, filósofos, jornalistas, políticos; mais recentemente médicos, até economistas. De comum, poder-se-ia dizer que os acadêmicos todos são intelectuais, no sentido de serem votados às coisas do espírito. E que eles são, em sua grande maioria, notáveis: no sentido de possuírem notoriedade em seus variados saberes e fazeres.
Marco Maciel é um intelectual na política, avis rara desta República neste início de século. Homem de pensamento e reflexão, ele submete ação política sempre pautada pelo interesse coletivo a severos crivos éticos. Seus livros e artigos divulgam as idéias do homem público, reflexões sobre o Brasil e seu futuro. Tratam com freqüência do aperfeiçoamento das instituições e processos políticos e eleitorais, província esta, a das eleições, onde ele tem se revelado imbatível. Por isso, Maciel também pode ser considerado um intelectual da política.
Foi como avis cara, caríssima, que Marco Maciel foi recebido pela Academia. Em assembléia sem unanimidades (a não ser as retóricas), sua eleição foi consagradora. A posse ministrou-lhe a graça da confirmação.
Ato Institucional nº 1
Hely Ferreira CIENTISTA POLÍTICO
Após o golpe de 1964, a idéia de que o novo regime seria algo breve, ainda predominava. Porém, no dia 9 de abril daquele ano, através da Junta Militar outorgou o Ato Institucional nº 1 (AI-1), decretando que a realização de eleições indiretas para presidente da República num prazo de dois dias a partir da publicação e eleições diretas no mês de outubro do ano seguinte, além de fortalecer os poderes do presidente, podendo apresentar emendas constitucionais ao Congresso e aprova-las através de maioria simples. Também podia suspender por um certo período os direitos políticos dos cidadãos e ainda decretar estado de sítio sem a autorização do Congresso; também podendo suspender de forma temporária a estabilidade dos serviços públicos. Na verdade, a estratégia do novo regime era impor ao Congresso um candidato militar, para banir da política nacional aqueles que eram rotulados de esquerda.
Embora a Constituição de 1946, estivesse em vigor, aos poucos foi sofrendo modificações. O presidente "nomeado" pelo Congresso foi Castello Branco, recebendo o apoio dos governadores que haviam apoiado o golpe, ou seja, Carlos Lacerda, Ademar de Barros e Magalhães Pinto.
A famosa "limpeza" teve início desde o golpe. Não foi por acaso que, em dez dias, os militares investigaram, prenderam líderes políticos, jornalistas, estudantes, ou seja, qualquer pessoa que fosse considerada "subversiva".
As principais vítimas políticas foram os membros do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), dos Estados do Nordeste. É bem verdade, que Castello Branco tentou apurar as denúncias, mas não logrou êxito e ao invés de abraçar à tortura, optou em cassar mandatos, os quais foram atingidas 441 pessoas em apenas dois meses.
No que tange à questão econômica, Castello Branco nomeou Otávio Gouveia de Bulhões como ministro da Fazenda e Roberto Campos no Ministério do Planejamento. Ambos elaboraram o famoso Plano de Ação Econômica do Governo (PAEG), tentando estabilizar a economia brasileira.
O quadro político do País estava vivendo em pandemônio. Carlos Lacerda, que antes apoiava o golpe, aos poucos já se mostrava contrário à política econômica do Governo. Políticos ligados ao regime estavam sofrendo derrotas eleitorais. Basta lembrarmos de 1965, quando na eleição para prefeito de São Paulo o candidato Faria Lima, que era apoiado por Jânio Quadros foi eleito. As vitórias de Negrão de Lima, na Guanabara e Israel Pinheiro, em Minas Gerais, mostrou que Kubitschek, ainda exercia influência na política nacional.
Cartas da Póvoa de Varzim - III
Manuel Lopes ESCRITOR
Meu caro Dagoberto. Por mais que me esconda ou disfarce, encolha ou desapareça, o amigo "corta-me sempre as vazas!" E eu que nada faço para lhe merecer tão desprendida amizade! À vergonha da inoperância junta-se o remorso da dívida impagável. E nem erguendo uma "cidadela" de ouro em sua memória me é permitido corresponder à largueza benevolente da sua compreensão!
Agradeço-lhe, pois, muito sensibilizado, não só a oferta do seu novo livro Revolução pela Palavra - Notas sobre Eça de Queiroz e a Geração de 70, como também, a inclusão das amáveis e imerecidas referências, vindas a público ao longo da colaboração jornalística concedida ao DIARIO DE PERNAMBUCO.
Vou deixar para mais tarde a continuação desta carta. Não quero repetir-me em lamúrias inúteis, mas não posso deixar de confessar a estranha repulsa que sinto, por vezes, pelo modo afável e correto como os amigos me vêem ou descrevem. Parece-me que falam de outra pessoa, de alguém a que sou distante, absolutamente alheio e indiferente. E não há estímulos de "auto-ajuda" que me façam aceitar a pele que me vestem. Para me explicar, recorro inúmeras vezes ao exemplo de Antonio Salieri, o músico secundário que tanto admirava e reconhecia a genialidade do grande Mozart. Milos Forman, no filme que dedicou ao criador sublime da Flauta Mágica, agarra bem o tresloucamento do compositor italiano. Na ausência total de inveja (jamais uma gota me maculou a alma), o meu caso é diferente. Salieri dizia que Deus a quem era fiel, lhe recusara a genialidade própria concedendo-lhe apenas o dom de a reconhecer nos outros. Integro bem esta parte na minha própria experiência e apetece-me fugir, creia, mesmo quando vejo o meu nome citado de forma elogiosa e sincera.
Nestes tempos em que nem as colunas sagradas do Direito e da Justiça escapam à "relativização" decadente e auto-destruidora que parece submeter a humanidade, agarrei num alfarrabista, para nossa Biblioteca, uma das peças da célebre "Questão dos Moedeiros Falsos" (Antonio Alves de Sousa Guimarães, Conde de Bolhão), em que o probo juiz José Maria de Almeida Teixeira de Queiroz, pai de Eça de Queiroz, escreve ao Rei D. Pedro V um veemente protesto de denúncia e desagravo, verdadeiro libelo contra o modo como se exercia a Justiça em Portugal. Corria o ano de 1860 e andava Eça pelos seus quinze anos de idade.... A vertebrada coragem e a desassombrada honestidade do pai haviam de ter deixado alguma semente na sua consciência e personalidade. Curiosamente, no "guinhol" eciano, não desponta, em forte ou leve traço caricatural, nenhuma figura ou personagem representativa do clã dos banqueiros. Só o complacente Cohen, em Os Maias, assume a classe, mas é a esposa, "a divina Raquel", que conclama todas as atenções! Junto, por mera e queiroziana curiosidade, uma cópia do folheto. A Justiça continua a vendar "os olhos para não ver e inclina o fiel por onde sente mais peso". A espada e o báculo continuam a pesar sobre o prato que baixa!
n PS - A partir desta carta, adota-se o título - que se pretende definitivo - para a colaboração do diretor emérito da Biblioteca Municipal "Rocha Peixoto" no DIARIO DE PERNAMBUCO. A primeira, Cartas Fradiqueanas - III, saiu em 16.07.2003 e a segunda, A Póvoa e a "Restauração", no DIARIO de 18.03.2004.
O pânico é um (des)amparo
Amparo Caridade Professora da UNICAP
O deus Pã é filho de Mercúrio. Diz a Mitologia, que ao nascer, sua mãe assustadíssima com seu aspecto físico animalesco, abandona-o e foge, pois espanta-lhe aquele olhar terrível e aquela barba tão espessa. Vem daí a denominação de Síndrome do Pânico, ou seja, do terror que causava o aspecto do deus Pâ. Fica a idéia de um deus (uma síndrome) que apavora, causa terror, perturba (adoece) as pessoas.
A Psicanálise estabelece relações significativas entre a Síndrome do Pânico e o estado de desamparo em que todos nascemos. É o estado do bebê, de total dependência dos outros para sua sobrevivência, para a satisfação das necessidades básicas. Se o bebê não for atendido, não sobreviverá, posto que ele não tem condições de gerir minimamente suas necessidades fundamentais. Não deve ser por acaso que somos seres tão necessitantes uns dos outros. Freud dizia que o bebê sente angústia e dor, que ele vive confusamente esses afetos, porque ainda não sabe distinguir a ausência temporária da mãe do seu desaparecimento definitivo. Confunde o fato de perder a mãe de vista, com o perdê-la realmente. É fácil observar que o bebê quando está frágil, doente ou angustiado, procura o corpo, os braços da mãe, como se buscasse o conforto primordial do útero. "A criança nos seus primeiros tempos de vida veste-se de mãe, cria para si na fantasia, um agasalho de carne onde se refugia - como um útero, totalmente identificada com ela, a mãe - num sono e num sonho em que recupera o paraíso perdido" diz H. Pellegrino numa magnífica compreensão desse desamparo infantil. Esse é nosso sentimento primário. Um medo, um terror, um pânico de ser abandonados.
Mário E. Pereira, professor da Unicamp diz que o pânico se constitui num certo confronto do sujeito com seu desamparo fundamental. Um estado afetivo "que se instaura quando o aparelho psíquico, vendo-se radicalmente confrontado com a sua dimensão de desamparo fundamental - descobre com terror, que o lugar onde esperava encontrar a presença concreta de um fiador da estabilidade do seu mundo, estáfundamentalmente vazio". Isso, num momento em que o eu não está preparado para suportar essa constatação desesperadora do ser só e desamparado. Por isso a angústia, numa crise de pânico, ultrapassa todo limite, e a pessoa sente-se numa condição de "falta de garantias". Essa parece ser a inquietação fundamental de quem é acometido por uma crise de pânico: o desespero da falta de garantia. Por isso é tão difícil ficar só e enfrentar o medo de morrer que a crise ocasiona.
Os sintomas numa crise de pânico, devem ser compreendidos no emaranhado bio-psíquico-existencial e precisam ser vistos e tratados de forma multidisciplinar. Eles reúnem tanto a condição orgânica em sua maior ou menor vulnerabilidade, como as tensões psíquicas provocadas pela angústia e pelas ansiedades intensas que nos advém do social. Convivemos hoje com situações de horror e incertezas que passaram do plano do imaginário para o virtual e para o real e isso constitui o pano de fundo, terreno fértil para o desencadear de crises de pânico. Muitos "deuses Pâ" povoam hoje o cotidiano e nosso imaginário: Bin Laden, Busch, baixos salários, assaltos, desemprego, envelhecimento, tirania com a aparência, corrupção, vazio de sentido, tudo constitui falta de garantias para o viver humanamente. O pânico é um dos males da época que vem causando grande sofrimento.
No Recife contamos com a Ampare, uma associação que atende, acolhe, orienta, pessoas portadoras de Síndrome de Pânico. Sua Presidente, Socorro Capiberibe, é uma pessoa que já sofreu na pele essa angústia do Pânico. Para comemorar 3 anos de existência, a Ampare está promovendo nos dias 7 e 8 de maio, o II Fórum Ampare sobre Transtorno do Pânico, que ocorrerá no Memorial da Medicina, no Derby. O Fórum está aberto a profissionais e estudantes interessados no tema.Vale a pena participar e sensibilizar-se diante dos sofrimentos que acometem as pessoas em crise de pânico. Oxalá possamos fazer-lhes com os braços, um útero, onde possam proteger-se um pouco de sua angústia de serem sós e desamparadas.
e-mail: amparoÄcaridade@uol.com.br
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