A negociação com a Alca não avançou este ano e o prazo de janeiro de 2005 é considerado inviável pelo Itamaraty. Depois da troca de cartas entre o ministro Celso Amorim e o secretário Roberto Zoellick, tenta-se encontrar algum caminho para a retomada do diálogo
Um ano que começou com uma agenda ambiciosa na liberalização do comércio mundial está vendo dificuldades cada vez maiores nas negociações. A negociação para um acordo entre Mercosul e Europa desta semana, por exemplo, não foi adiante e o embaixador José Alfredo Graça Lima disse que, muito provavelmente, a negociação não será terminada em outubro, quando acaba o mandato da atual comissão negociadora. Perguntei se a médio prazo ele estava otimista e ele respondeu: prefiro a palavra "confiante".
A negociação com a Alca não avançou este ano e o prazo de janeiro de 2005 é considerado inviável pelo Itamaraty. Depois da troca de cartas entre o ministro Celso Amorim e o secretário Roberto Zoellick, tenta-se encontrar algum caminho para a retomada do diálogo entre os 34 países do continente. Mas o Itamaraty nunca escondeu suas reservas quanto a um acordo com os Estados Unidos. Teme que o País fique sem espaço para fazer políticas nacionais de desenvolvimento. As desastradas declarações do representante brasileiro -Adhemar Bahadian - ajudaram a criar um clima azedo entre Brasil e Estados Unidos nesta questão.
Na União Européia, havia mais otimismo. A reunião desta semana porém ficou presa num círculo vicioso: a Europa não queria divulgar a integridade da sua proposta na área agrícola argumentando que precisava antes ter algum sinal de que ela seria passível de aceitação, e o Mercosul ponderava que, para saber se era aceitável, era preciso conhecer a proposta.
A Europa pondera que a proposta que fez ao Mercosul engloba 91% dos produtos vendidos por nós a eles, excluindo apenas o setor agrícola. O Mercosul argumenta, com toda razão, que os produtos agrícolas só têm um espaço pequeno na pauta porque hoje enfrentam inúmeras barreiras para entrar no mercado europeu. Quanto a nós, fizemos uma oferta que cobre 83,5% do que compramos, mas incluímos produtos que interessam a eles.
"A nossa proposta é inédita em termos de liberalização e inclui até o setor automotivo e a deles exclui quase toda a pauta agrícola, que está sendo restringida há muitos anos", diz o embaixador Graça Lima.
Ele acha que o tipo de impasse que surgiu na reunião desta semana já deveria estar superado. Os dois blocos deveriam agora estar melhorando as ofertas em todos os lados.
Sobre a ampliação da Europa, o embaixador brasileiro disse que o lado positivo - o aumento do mercado consumidor do continente - só será efetivo se houver acesso ao mercado. Há alguns produtos cuja tarifa para entrar na Europa é maior do que a que atualmente pagamos para entrar nos outros países que agora passam a integrar o mesmo bloco, como café solúvel, por exemplo, cuja tarifa é 9% na Europa e 2% em vários dos outros países.
" Há ainda cotas que são muito pequenas e que terão que ser ampliadas. Temos que avaliar todas as margens perdidas, para pedirmos compensação", comenta Graça Lima.
O ano de 2004 seria marcado, na visão dos especialistas no tema, por quatro grandes saltos em direção ao livre mercado: acordo com a Alca, acordo Mercosul-Europa, avanços decisivos na Rodada Doha e ampliação do Mercosul. O quinto mês do ano encontra a Alca paralisada, Mercosul e Europa com enormes atrasos, o Mercosul do mesmo tamanho e a Rodada Doha sob muitas dúvidas.
Sob comando federal
O ministro José Viegas disse que, na segunda-feira, vai ser anunciado o conjunto de medidas sobre a presença do Exército no combate à violência no Rio. Ele afirmou que "a grande mensagem do governo federal neste assunto é que nos queremos contribuir para a segurança da população do Rio de Janeiro". Segundo o ministro, todas as operações das forças armadas no Rio serão feitas sob o comando das próprias forças armadas.
Jornalismo independente
A coluna do sábado sobre os erros de comunicação nos improvisos do presidente da República recebeu inúmeros elogios dos leitores, que entenderam perfeitamente tratar-se, não de crítica à pessoa do presidente, mas sim da preocupação que todos devemos ter com a instituição da Presidência da República. A estes leitores, agradeço.
Não recebi e-mails com críticas, masseriam bem recebidos, como sempre foram aqui. O leitor tem o direito soberano de reclamar.
Houve apenas um artigo com críticas, cujo tratamento genérico do problema não consegue disfarçar o ataque ofensivo e injurioso à coluna.
Continuo convencida de que elogios devem ser feitos quando merecidos, críticas podem e devem ser feitas quando necessárias, porque é assim que se exerce o jornalismo verdadeiramente independente. E só ele - o jornalismo independente - contribui para o País.
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