SÃO PAULO - O poeta, crítico e professor de literatura pernambucano Frederico Barbosa, radicado em São Paulo, iniciou sua participação na editora paulista Landy em 2000 com a seleção e organização do livro Sermão do Bom Ladrão e Outros Sermões Escolhidos, do Padre Antonio Vieira. Lançou outros livros pelo selo e, em 2002, criou a coleção Alguidar, que publica obras de poesia ou prosa inventiva de autores brasileiros e portugueses. A série revelou a poeta recifense, criada em Arcoverde (PE), Micheliny Verunschk, e editou um dos últimos livros do pernambucano Sebastião Uchoa Leite (1935-2003), A Regra Secreta, que levou o segundo lugar no prêmio Portugal Telecom no ano passado.
Os dois últimos títulos da coleção, cujo nome foi inspirado em um poema de João Cabral de Melo Neto, estão entre os lançamentos da editora na 18ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que vai até o dia 25 deste mês no Centro de Exposições Imigrantes. Um deles é Brasibraseiro, escrito em conjunto por Frederico e o poeta e antropólogo baiano Antonio Risério.
"Tive a idéia de escrever o livro a partir de uma consideração que o próprio Risério fez em um posfácio que escreveu para meu livro Contracorrente, dizendo que eu deveria falar sobre o Brasil", conta Frederico, em entrevista em seu apartamento, em Perdizes, bairro da zona oeste de São Paulo onde cresceu. "O Risério é meu ídolo desde os 16 anos", diz o pernambucano, filho do crítico literário João Alexandre Barbosa, que foi exilado, do Recife para São Paulo, após o Golpe de 64. Os poemas são inéditos em livro.
Para o livro, Frederico escolheu duas vertentes temáticas para seus poemas: as viagens de carro que fez de São Paulo ao Recife e a história do Brasil, principalmente o período do Descobrimento. "Essas viagens que fiz mudaram minha perspectiva do País. É muito diferente de viajar de avião. A gente passa pela miséria do Brasil", explica. A série foi intitulada Mapa de Viagem e traz versos sobre a Bahia, o rio São Francisco, Recife, as estradas, os buracos das estradas etc.
Frederico dedica um poema sobre Recife ao professor Jommard Muniz de Britto, da UFPE, que, segundo diz, o devolveu à cidade. "Ele me mostrou que a coisa mais rica do lugar é o multiculturalismo", conta. O poema, batizado de Vocação do Recife, foi criado a partir de versos de Manuel Bandeira e faz citação a um texto de Clarice Lispector, ela mesma presente no poema: "Clarice sim/frieza entranhada/na estranheza de ser Recife".
Já para a parte "histórica", o poeta se valeu de documentos e textos, como a carta de Pero Vaz de Caminha, e de livros, como O Cortiço, de Aluísio Azevedo, e Vocabulário Pernambucano, de F. A. Pereira Costa. A partir de trechos destes dois últimos, ele criou ready-mades (poemas formados a partir de cortes e seleções no texto original). De O Cortiço, a passagem trata da "abrasileirização" do personagem português Jerônimo.
Entre os temas abordados por Antonio Risério está o mar, na série Para o Mar. Em Meu Cáspio: Tu, ele transforma as palavras em "correntezas" para desenvolver versos com as palavras "rios" e "azul". O baiano utiliza diferentes fontes de letras, símbolos e sinais gráficos em uma experiência que se assemelha e ultrapassa o concreto.
Serviço
Brasibraseiro De Antonio Risério e Frederico Barbosa Editora Landy 144 págs., R$ 25,00
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