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Guerra nos estádios
Quem quer que, desportista ou não, tenha-se dado a ver a televisão, no último domingo à tarde, assistiu em carne e osso e de muito perto até que ponto chegou a brutalidade de inúmeros atletas em partidas de futebol e de torcedores, nas cercanias e dentro dos estádios. Foi espetáculo por assim dizer geral, em que os árbitros tiveram que utilizar o cartão vermelho, depois de reiteradamente acionar as advertências do amarelo. A polícia também reiteradamente interveio.
Fora das quatro linhas como gostam de dizer os cronistas esportivos, verificaram-se assuadas sem conta felizmente controladas pelo policiamento ostensivo, e ainda fora dos estádios, em alguns pontos do país, os defensores da ordem tiveram trabalho duro para conter pessoas, mal educadas que se exaltam a troco de quase nada, passando a agredir e a depredar.
Tomara que seja um surto, apenas, da violência. Exceção de cenas mais atrozes ocorridas em estádios paulistanos, algum tempo atrás, o torcedor brasileiro de clubes esportivos tem um históricopouco violento, baixamente policialesco. Mas quando a paixão pela bandeira clubística extrapola para os excessos delituosos, então se haverá de perguntar aos sociólogos se não estaria agindo aí a deletéria força da anarquia urbana desencadeada pelos grupos criminosos dedicados ao fomento do tráfico de entorpecentes.
Poderíamos estar tratando de alguma crise de incivilidade por sua natureza transitória. Mas, não, é de brutalidade mesmo que estamos a cogitar, conforme assinalamos no começo deste comentário. A provável contaminação de parte da cidadania pelo exemplo extremamente corruptor dos arrastões e dos combates de campo aberto entre traficantes da cocaína e da maconha deverá ser, não, a explicitação necessária da violência nos estádios, mas, uma pista que um dia esclareça tanta baderna nos arraiais desportivos. Ora, o esporte ensina primariamente que se opõem e defrontam dois ou mais adversários, não, inimigos. É estimulado na medida em que concorrer - ou deve concorrer - para a aproximação e o entendimento dos seres humanos.
Inigualável tipo de entrelaçamento a cada quatro anos de calendário ocorre nas Olimpíadas de que com muita propriedade se enchem os espaços nos meios de comunicação de massa. Certa ocasião, lembramos aqui neste espaço, e repetimos agora com prazer, que os criadores das Olimpíadas - os gregos - chegavam ao extremo de suspender as guerras entre uns e outros, durante os Jogos, para que os atletas engajados na luta bélica pudessem competir nas faldas do Olimpo, ou para que a população helênica como um todo pudesse acompanhar melhor as disputas esportivas.
Nós, brasileiros, ao contrário deles, não somos capazes de parar uma guerra, para que os Jogos se realizem com tranqüilidade, nós fazemos dos esportes uma guerra, circunstância que, desejemos ou não, dá a medida da distância que nos separa daquela nobre Antiguidade.
Precisamos voltar a ela, não por amor demasiado conservantista do passado, mas porque a Antiguidade helênica possuiu um comportamento distinto do nosso, e melhor, do ponto de vista da convivência entre seres humanos. Quando assistimos a armas sofisticadas serem empregadas - a exemplo de helicópteros - para vigiar a conduta de multidões, enche-nos o coração de tristeza e a alma de angústia justificada. Porque estamos a desaprender a convivência.
Aplicação da reforma agrária
Antônio Ricardo Ferreira BACHAREL EM DIREITO
Pelos quatro cantos deste imenso Brasil, configura-se o avanço das invasões de propriedades no campo. Como pode uma Nação, com tal extensão de terras, que nos últimos anos tem batido recordes de produção agrícola e é vista por muitos, como um verdadeiro celeiro do Mundo, esteja envolta por uma nuvem de ameaças de conflitos por causa de terra?
Se formos analisar qual o cerne deste problema, veremos que está relacionado com uma questão acompanhada por todos através da imprensa, mas que poucos falam em seus ambientes e na realidade ninguém vê claro, é a aplicação da reforma agrária no Brasil.
O que o brasileiro mediano, o homem da rua, sabe realmente? E aqui, me incluo entre eles. Creio, que pairam muitas dúvidas sobre o tema.
Pelas notícias que circulam, sabe-se que um rio de dinheiro já foi e continua sendo destinado para a reforma agrária. Entretanto, os frutos colhidos são mínimos. Não há notícias de um assentamento que tenha dado certo, de modo a convencer a opinião pública nacional de que a reforma agrária, pelo menos nos moldes que está sendo implantada, seja o caminho correto e de um futuro promissor. Em declaração feita em órgão de Imprensa nacional, em 21/03/2003, o economista Francisco Graziano, ex-presidente do Incra, afirmou que, em apenas oito anos, o governo FHC colocou 25 bilhões na reforma agrária, e apresentou um resultado "chocante".
O que se constata no País, e já é farta a literatura nestes sentido, é que a reforma agrária aplicada no Brasil só tem produzido violência, alastrando a miséria no campo, com assentamentos absurdamente improdutivos e disseminados por todo o interior da Nação. Ela tem prejudicado proprietários e agricultores pobres e ameaça lançar o Brasil num caos espantoso. A reforma agrária tem trocado o latifúndio improdutivo pelo minifúndio também improdutivo.
E, cada vez que se publica algo sobre esta constatação, a dúvida, a incerteza e uma grande interrogação surgem na consciência dos brasileiros. Afinal, se a reforma agrária é feita para o bem do trabalhador rural, mas de fato não o tem beneficiado, pelo contrário tem-no lançado na miséria e na desolação, então por que ela continua nesta mesma trilha?
Por que prosseguir gastando bilhões de reais num processo falido, quando a toda hora o cidadão brasileiro vem sendo castigado com aumento de impostos, sob o pretexto de que o orçamento nacional está apertado? A reforma agrária tem sido um slogan constante dos governos brasileiros que se sucederam de 1960 até nossos dias. Há uma tentativa insistente de implantá-la, ela fracassa, se reinicia, muda de nome, e nada. Mas tenho a impressão que um dos fatores que fazem este processo emperrar é uma falta de credibilidade por parte do cidadão brasileiro.
Este cidadão, cujo bom senso discerne que a solução para a população rural não consiste apenas na mera distribuição de lotes a "sem-terra", mas sim, em que sejam criadas situações para que o proprietário possa manter na zona rural as famílias de camponeses, auxiliá-las a prosperar e voltar a empregar no campo aqueles que migraram para as cidades. Não há que se dividir misérias, mas sim multiplicar riquezas.
O fato é, que na tentativa de fazer o brasileiro engolir esta "pílula" chamada reforma agrária, eis que surge no cenário nacional, algo com ares de uma manobra. De um lado, com aspecto de insolente, ameaçador, destruidor e ilegal, o movimento das invasões. Do outro, com aspecto de legalidade, pacífico e ordeiro, o Governo, querendo aplicar a legislação agro-reformista.
Assim, na hipóteses de o País ser lançado, de um momento para outro, numa grande convulsão, invasões no campo, de Norte a Sul com ameaça de conflitos entre latifundiários e trabalhadores sem terra, sou levado a crer que a opinião pública nacional, insegura e aterrorizada, comece a considerar que de fato o ruim é o MST, a violência, e que a reforma agrária feita através da lei é boa e deve ser aplicada.
Penso, que muitos latifundiários se tornarão mais dóceis e flexíveis.
Grande vitória. Inesquecível lembrança
Jaqueline Andrade JORNALISTA
Se estivesse vivo, seu Jamilton, torcedor doente do Náutico, certamente teria se desmanchado em lágrimas, assim como choraram milhares de alvirrubros, desde os primeiros minutos da inesquecível partida de domingo, que levou o time à conquista do campeonato. Desde pequena descobri que alvirrubros legítimos, como o meu pai, torcem acima de tudo com devoção. Eles não são de muita conversa nas derrotas, disfarçam a ira, cortam o papo. Nas vitórias se transformam, tiram a máscara de torcedores frios, se abraçam e choram como crianças. Essa cena presenciei por diversas vezes, dentro de casa.
Cresci escutando papai falar, em um tom orgulhoso, que ser hexa era luxo. Essa era a resposta que ele sempre dava a minha mãe, torcedora do Sport. Até hoje, essa é a resposta que cala os torcedores contrários. Também cresci com o coração partido ao meio, entre duas paixões: amar o Náutico ou o Sport. Filha única de mulher, contrariei meu pai e pendi para o lado de mamãe. Virei rubro-negra. Mas um tanto estranha. Sempre me emocionei com as vitórias do alvirrubro.
Lembro que o meu pai comemorava as vitórias do Náutico com muita alegria, gargalhadas, rádio nas alturas. O padrão vermelho e branco era sua roupa oficial de final de semana. Nas derrotas, um silêncio mortal tomava conta da casa. Ao final da partida, se o Náutico tivesse perdido, a TV e o rádio eram desligados imediatamente. Papai nunca admitiu que sob o seu teto alguém escutasse, em detalhes, os caminhos que levaram aos gols adversários.
Por isso, ao assistir pela televisão a vitória alvirrubra me emocionei. Cheguei às lágrimas. Chorei por ele. Chorei por meu pai. Senti sua presença ao meu lado e fiz o que ele certamente teria feito num momento tão especial: gritei na varanda, pulei de alegria. Liguei o rádio o mais alto possível. Ao meu lado, minhas duas filhas, de quatro e dois anos e meio. Juntas, abraçadas, comemoramos os gols, um a um. Papai teria ficado orgulhoso. Acho que ficou. A minha filha pequena gritava: Náutilo, Náutilo.
Se vivo fosse, seu Jamilton, talvez, tivesse ido ao estádio com o seu genro, meu marido César, outro alvirrubro em minha vida, que só chegou em casa na madrugada da segunda-feira. Coincidências da vida. Assim como na casa em que eu cresci, a paixão pelo Náutico continua estampada já na sala, delimitando o território para as visitas. Hoje, aos 32 anos, a história se repetiu mais uma vez. Meu coração continuou dividido, meio a meio.
Violência: melhor remédio é prevenção
Pedro Corrêa DEPUTADO FEDERAL POR PERNAMBUCO (PP)
A verdadeira batalha ocorrida entre traficantes e policiais, na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, com a morte de mais de uma dezena de pessoas, e a divulgação de pesquisa do IBGE, que aponta um crescimento de 130% da taxa de homicídio em 20 anos disparou um alarme em todos os setores organizados da sociedade.
Os dois fatos recentes reforçam a sensação de insegurança da população brasileira e a ineficácia das ações policiais nas grandes cidades. Não é possível que um povo pacífico como o brasileiro, que não é predisposto ao terrorismo nem aos conflitos civis, morra mais do que o número de angolanos, em 27 anos de guerra civil. Neste conflito morreram 350 pessoas, contra os 600 mil assassinados no Brasil em duas décadas. Na guerra do Vietnã, que durou 11 anos, morreram 58 mil americanos. E as bombas atômicas lançadas sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki, em 1945, mataram 340 mil pessoas.
Em Pernambuco, um estado que já foi considerado tranqüilo, a taxa de homicídios já é o dobro da média nacional, que está em 27 por 100 mil habitantes. Segundo os dados do IBGE, morrem 54 em cada 100 mil pernambucanos assassinados, acima dos números do Rio de Janeiro (51), Espírito Santo (46) e São Paulo (42), estados tradicionalmente mais violentos. Esses números provam a banalização da morte em nosso País.
O mais perverso dessa situação é que são os homens jovens, de 15 a 24 anos, são os mais afetados. No Rio de Janeiro, em 200, foram registrados 205 homicídios por 100 mil homens dessa faixa etária. Em Pernambuco, nesse mesmo ano, foram confirmados 198 homicídios para cada 100 mil homens jovens.
É oportuno lembrar que segurança é um direito elementar, condição de vida, liberdade e cidadania. E o Estado não está conseguindo atender a essa necessidade básica da sociedade. O Governo Federal elaborou um Sistema Único Nacional de Segurança Pública - O Susp -, que teve a adesão de todos os estados da Federação. Recursos têm sido liberados, mas continua a repetição de ações reativas, que não atacam as causas da violência,apenas tentam combater, sem sucesso, a explosão da violência. Como médico, vejo a violência como um sintoma de uma doença do tecido social. E o melhor método para acabar com essa epidemia é, como para as doenças em geral, a prevenção.
Assim, não basta investir em segurança pública. É preciso fixar o homem no campo com a reforma agrária e promover investimentos maiores para a agricultura familiar, evitando o inchaço das grandes cidades. É necessário oferecer oportunidades aos menos favorecidos. É premente que o País cresça e possa gerar empregos para todos os brasileiros e assegurar maior proteção ao jovem carente, principal alvo do crime organizado e do tráfico, além de manter programas gratuitos de recuperação de usuários de drogas. O Partido Progressista tem defendido que o Estado deve desempenhar seu papel de indutor de investimentos nas áreas mais carentes, como forma de gerar, rapidamente, emprego e renda. Defende, também, a reformulação das Leis de Execução Penal, obrigando que os criminosos cumpram suas penas em regime fechado. E apóia a adoção de um comando único para as polícias.
O Legislativo tem aprovado as leis necessárias ao combate da violência, inclusive o Código do Desarmamento, que ficou tantos anos tramitando no Congresso Nacional. Mas já vimos que são ações paliativas. A prevenção depende, basicamente, da ação do Executivo. Nossa expectativa é de que essa ação chegue logo e evite a morte por homicídio de 30 mil brasileiros por ano.
Pesqueira
Edson Mororó Moura EMPRESÁRIO
Era a cidade progressista, rica, formosa e culta dos meus tempos de criança e adolescência. Remanesce, ainda a formosura dos seus prédios e o bom nível cultural da sua sociedade. Considerando a vida curta do ser humano, eu, que estou com 74 anos, poderia tomar emprestado dos Santos Evangelhos uma alocução muito dita nos sermões dos padres do meu tempo, quando me refiro à Pesqueira: In illo tempore, nós, os belojardinenses, nos valíamos do excelente médico que foi dr. Lídio Paraíba, que como clínico atendia desde os males da vista, à febre tifóide, que ceifou tantas vidas preciosas aqui em Belo Jardim, inclusive a garotinha muito bonita, Magdala, filha de uma senhora linda de espírito, que foi dona Ester Monteiro que aqui veio se fixar com o marido e a família em conseqüência dos ventos saudáveis da Revolução de 30.
Minha mãe teve partos muito difíceis e o dr. Lídio sempre a curou de seus padecimentos ligados à maternidade. Pesqueira era, também, a terra da portentosa fábrica Peixe, empresa de orgulho de muitos espíritos, inclusive o meu e de meu pai, que sempre nos enlevou a pujança daquela empresa incluindo sua filial em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, onde, pelas mãos do valoroso químico Valois Valgueiro Diniz, diretor-técnico daquela empresa, tantos belojardinenses que emigraram para o Rio na década de 40, tiveram um bom emprego garantido. Os cinco filhos homens da viúva Maroquinha Mergulhão foram empregados da fábrica Peixe do Rio e se fizeram em consequência disso cidadãos bem sucedidos na antiga Capital Federal.
Era Pesqueira, também, a terra dos rapazes ricos que vinham abrilhantar as danças na nossa ABA, o clube elitizado de Belo Jardim, que recebia rapazes e moças da classe média local e, temos de reconhecer, que ficávamos todos com invejas até, dos rapazes de Pesqueira virem nos visitar em carros novos tão bonitos; nós de Belo Jardim não os tínhamos, novos ou velhos. Não era só a Peixe: havia também a Rosa, a Tigre como empresas importantes na fabricação de doces de goiaba e concentrados de tomate. O exemplo das indústrias de Pesqueira desdobrou-se para Belo Jardim e aqui também vicejaram algumas fábricas razoáveis. O meu curso ginasial eu o devo à Fábrica Mariola, daqui de Belo Jardim, onde meu pai foi trabalhar em 1939. Pesqueira era também, a terra de intelectuais ilustres e Eugênio Chacon tinha uma interação muito boa com meu pai e através do Jornal dele foi dada uma excelente contribuição publicitária para o movimento que fez nascer a Barragem do Bitury que foi liderado por meu pai, arregimentando as proeminências políticas dos municípios vizinhos, incluindo o saudoso Monsenhor Alfredo de Arruda Camera.
Em decorrência da Pós Graduação que estou cursando em Belo Jardim, tive que fazer pesquisas sobre o ideário popular de Belo Jardim acerca da II Guerra Mundial, mas concluí ser necessário me valer de pessoas de Pesqueira para ter conclusões mais equilibradas. É possível, por exemplo, que se possa dizer que as elites pesqueirenses daquela conflagração eram em grande maioria partidárias da Alemanha, enquanto aqui em Belo Jardim, a nossa elite menos sofisticada do que a de Pesqueira, tendia a formar ao lado dos Aliados. Quando aqui no Brasil, as pessoas não tiverem mais acanhamento de confessarem haver sido partidárias dos alemães e, eu até diria, do nazismo - sem naturalmente referendar as atrocidades destes contra judeus, ciganos e eslavos - o Brasil terá atingido um patamar de melhor esclarecimento social.
Para isso é necessário, entretanto, que as pessoas que escrevem nos jornais, mesmo que façam jus ao tratamento de excelência, passem a dedicar mais tempo a estudar seriamente, independente da idade, integrando cursos formais, universitários. Então tenho ido nos últimos 60 dias, seguidamente, à Pesqueira e lá entre conversas muito esclarecedoras tive em mãos uma foto de um grupo que incluía pessoas gradas de Pesqueira com Plínio Salgado. Adivinhariam os leitores qual foi o dia daquele encontro? 27 de novembro de 1935, quando os comunistas deflagraram o que se chama hoje Intentona Comunista. Paraos leitores sectários que abjurarem a coincidência entre concepções ditas antagônicos por aquela época, 1935, lembro soprando ao ouvido que menos de 4 anos depois daquela data, nazistas e comunistas, firmaram em Moscou o pacto nazi-soviético que foi um referendum dos comunistas ao esmagamento da Polônia pelos alemães. (Continua)
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