Ainda que para chegar lá tenha que atravessar uma longa jornada cheia de altos e baixos, a vocação do Recife Antigo para se tornar um grande Centro Cultural é irrevogável. O empreendedor de hoje, interessado em subir a escada do êxito, tem a seu favor os degraus deixados por todos que vieram antes dele: de Martins de Barros, Nassau e Duarte Coelho até os chefes Tupinambás que descobriram que aqui era um Porto excelente para sempre. A ilha do Recife guarda um pouco dos tesouros de cada século de sua trajetória sendo o maior de todos obviamente as suas próprias estórias. Há cidades cujas histórias acontecem misteriosamente em tom de fábula. O Recife é uma dessas. Os fatos que aconteceram na nossa formação são interminavelmente um mote de primeira para uma discussão nos campos da História e da Arte. Recentemente comentou-se sobre o exagero de homenagens a Nassau e sua corte, afirmando que celebrá-los equivaleria a Moscou erigir monumentos a Napoleão ou Paris a Hitler. Polêmica dupla: primeiro, porque os personagens históricos são únicos e incomparáveis e um conquistador não é igual a outro conquistador; segundo, porque quem ganha uma guerra não se cansa de falar sobre ela; de certa forma, o livro Guerra e Paz é também um monumento a Napoleão e toda a filmografia sobre a Segunda Guerra dá o destaque máximo a Hitler, mesmo que seja sobre o pedestal da execrabilidade.
O Rochedo de Israel
Um lugar sacralizado torna-se sacro para sempre, seja ele o círculo de megalitos de Stonehenge, ou uma pirâmide em Machu Pichu. A antiga Sinagoga da Rua dos Judeus passou séculos desativada. Restaurada, volta à vida com toda categoria e responsabilidade. Ali a atriz e cantora Eliza Toledo entoa cânticos médio-orientais tão antigos que são do tempo em que palestinos e judeus eram menos inimigos. Humilde e delicadamente essa cantoria, perante o Deus que ambos celebram deve ter maior eficácia que as grandes e bombásticas ações diplomáticas feitas para as câmeras de TV.
Os Arcos do Triunfo
Também sacros são os locais onde existiam osArcos do Bom Jesus, de Santo Antônio e de Nossa Senhora da Conceição. Todos três foram demolidos para deixarem espaços vazios. Considerando que a marca histórica daquela região da cidade são as grandes realizações de engenharia não custava a algum prefeito reconstruir os três arcos, já que existem minuciosos registros em desenhos e fotografias que lhes preservaram toda a feição. A Grécia já fez esta experiência com seus bens destruídos e obteve êxito: rapidamente o monumento reconstruído se reincorpora a paisagem como se não tivesse padecido um intervalo de inexistência.
Pense no Passado
Em Nova Iorque, cidade com a mesma idade do Recife, e com estreitos laços de parentescos conosco, sempre que o histórico solo vai ser revolvido por alguma obra de engenharia, obriga-se previamente a uma escavação arqueológica relâmpago que recolhe e classifica todos os fragmentos do passado. Aqui, onde essa lei ainda não vinga, vêem-se em muitas construções estes cacos contadores de história irem parar nas bocarras dos papa- metralhas. A artista plástica Lorane, que está expondo na Maison do Bonfim, sempre que passa diante de alguma demolição, entra, tanto para adquirir alguma porta, janela ou a escada a preço de ocasião como para simplesmente recolher do chão pedaços de ferro, louça ou vidro que vão parar em suas obras de arte, destino tão nobre quanto as vitrines de um museu. Juntando o que encontra com o que adquire em antiquários e depois realizando montagens sobre suportes de madeira, Lorane cria os Reflexórios: objetos feitos, como aliás todo objeto de arte, para se admirar e refletir.
Tapete Castanho
No Paço Alfândega, exemplo perfeito do alto padrão de qualidade possível ao Recife, entra-se caminhando sobre tapetes de mosaico, representando desenhos de Ariano Suassuna, que também forram o chão do Pátio Central. Os mosaicos foram realizados por Guilherme da Fonte. Toda pedra é preciosa num certo sentido, pois a mão de Deus que derreteu montanhas a fogo para fabricá-las não o fará de novo. Consciente disto, Guilhermecomeçou a recolher as sobras das pedras das marmorarias e montou uma oficina onde partindo dos pedacinhos de mármores e granitos coloridos pela natureza, constrói grandes painéis, com desenhos seus e alheios, que se tornam obras de arte de parede, de mesa e de chão. Guilherme conta que muitas vezes contaram a ele e ele próprio já ouviu, pessoas olhando e admirando o piso que ele construiu e afirmando: mas esse Brennand é mesmo um arretado. O engano serve de elogio de mão dupla. A obra de Brennand ganha ao ser associada à milenar arte do mosaico e Guilherme, neófito, ganha ao ter sua obra confundida com a do mestre.
Arte com arte dá samba
Nesse chão onde passam os visitantes também se dança. O pátio central, visto de todos os andares simultaneamente, permite apresentações artísticas. A bailarina Paula Costa Rego que ali já marcou os seus passos anda estudando os desenhos de Picasso para deles extrair dança. Vai conseguir. A junção das artes, marca do nosso tempo, tem dado excelentes resultados provando queo coração da platéia não estabelece fronteiras e aprecia e absorve arte como um todo.
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