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Os americanos estão chegando
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Só em 1962, vieram morar no Recife 4.968 americanos |
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Nunca houve tanto americano no Brasil e em Pernambuco quanto no início dos anos 60. E também nunca houve um embaixador dos Estados Unidos que tivesse presença tão ostensiva na política nacional quanto o daquela época, Lincoln Gordon. Tanto que uma das palavras de ordem que mais sucesso faziam então era: "Chega de intermediários, Gordon para presidente!"
O embaixador apresentou suas credenciais a João Goulart em outubro de 1961. Àquela altura o governo Kennedy já havia criado a Aliança para o Progresso, programa que visava fornecer assistência sócio-econômica para a América Latina e que tinha entre suas metas melhorar a distribuição de renda, crescimento e diversificações econômicos e integração econômica visando à implantação de um mercado comum latino-americano.
Foi também em 1961 que começou o aumento do número de vistos solicitados pelo Departamento de Estado dos EUA ao Itamaraty. A maioria vinha morar no Nordeste. Só em 1962 o total de cidadãos norte-americanos desembarcados no Brasil foi de 4.968 -número que, segundo o cientista político Moniz Bandeira era superior a todos os registrados nos anos anteriores, incluindo o período da Segunda Guerra Mundial, quando os EUA tiveram bases militares no Nordeste. Muitos desses americanos, conforme Moniz Bandeira, faziam parte das Special Forces (os chamados Green Berets, Boinas Verdes), especializadas em enfrentar tentativas de revolução.
No Recife o consulado americano tinha uma equipe como jamais teve: 14 vice-cônsules e um cônsul, que - conforme informações publicadas por Moniz Bandeira, e nunca desmentidas, era agente da CIA. No início dos anos 60 estava instalado na capital pernambucana o maior escritório do mundo da Usaid (Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional). Em 1972 ele foi fechado.
Outra área em que se verificou a ação americana foi a eleitoral. Por meio do Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática) foram investidos cerca de 1 milhão de dólares nas campanhas de candidatos contrários à esquerda e favoráveis aos EUA. O valorde US$ 1 milhão foi reconhecido pelo próprio embaixador Gordon. No livro O Diário da CIA, o autor, Phillip Agee, ex-agente da Companhia, fala em cifra mais alta: US$ 5 milhões. Pernambuco foi um dos Estados em que o Ibad mais auxiliou candidatos (todos contrários à candidatura de Miguel Arraes). Até o Engenho Galiléia, onde surgira a primeira Liga, foi contemplado: em um ato repleto de autoridades, foram doados aos galileus gabinete dentário, escola e implementos agrícolas.
O embaixador Gordon tinha contatos freqüentes com o presidente João Goulart - de quem, a propósito, tinha péssima impressão. "Goulart era uma rolha balançando na água, ia e vinha sempre pela última opinião que ouvia", disse ele em entrevista à historiadora americana Phyllis Parker, autora do livro 1964: O papel dos Estados Unidos no Golpe de Estado de 31 de Março (publicado nos EUA em 1976 e no Brasil no ano seguinte; esta obra é feita principalmente com base em documentos oficiais, liberados pelos EUA anos depois de 64).
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