Numa das madrugadas em que esteve preso, Francisco Julião foi acordado por um sargento que não gostava dele. Iria ser submetido ao que o sargento chamou de prova da "banana russa". Com duas bananas na mão, ele falou: "Julião, uma dessas bananas está envenenada: mordeu, morreu. A outra está intacta. Agora você vai escolher uma delas e comer". Julião pegou a primeira banana, deu uma dentada, duas, três, até comê-la por inteiro, sempre olhando para o sargento. Não aconteceu nada. Ele pegou a segunda banana e a comeu também. Furioso, o sargento deu meia volta e foi embora. Julião voltou a dormir, de barriga cheia.
Quem conta o episódio hoje, 40 anos depois, é o homem que foi carcereiro de Julião na 2ª Companhia de Guardas: Carlito Lima, que na época era um tenente favorável ao golpe. No dia seguinte à "banana russa", o sargento encontrou o tenente Lima e desabafou, referindo-se a Julião: "Esse cara é doido!" Atualmente capitão (reformado), Lima foi o carcereiro que tratou bem a todos os presos políticos da 2ªCompanhia de Guardas - além de Julião, Miguel Arraes, Paulo Cavalcanti e outros. Ele conseguiu papel de embrulho no qual Julião escreveu trechos de Até Quarta, Isabela ("Mas eu não sabia que ele estava escrevendo, ninguém sabia"). Alagoano (vive hoje em Maceió), boa praça, Lima foi amigo de conterrâneos que estavam do lado oposto à ditadura, como Vladimir Palmeira. E vem nos últimos anos publicando um livro atrás do outro, contando suas histórias: Confissões de um capitão, Nordeste Independente, Comédias Mundanas, entre outros.
Julião, segundo Lima, foi o preso que mais tempo ficou na solitária da 2ª Companhia: mais de dois meses, quando os demais ficavam no máximo 48 horas. Os presos eram levado para a solitária na véspera dos interrogatórios, conta Lima. Era uma cela úmida, medindo nove palmos de comprimento por quatro de largura, com paredes ásperas. Mal cabia um homem deitado. "Era um negócio para quebrar qualquer moral. Mas outro dia, conversando com o sargento Canuto, também daquela época, ele me dizia que o que mais o impressionou foi Julião ter passado esse tempo todo na solitária e ter saído de lá zerado", afirma Lima.
Lima diz que quando era o oficial do dia, conversava muito com os presos. Poucos, segundo ele, diziam-se "revolucionários". Julião era um desses, recorda. Outro era Gregório: "Um dia ele me falou: Tenente, por que vocês não me matam? Vocês ganharam a guerra".
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