Exatamente no fatídico dia 31 de março de 1964, o escritor e jornalista Zuenir Ventura chegava a Brasília, após três dias de viagem de fusca a partir do Rio de Janeiro, onde iria assumir uma cadeira na Universidade de Brasília. "Cheguei em plena conspiração para o golpe. Era uma boataria misturada com notícias, não sabia a quem dar crédito. A impressão mais forte foi de uma grande desorientação de todo mundo em relação ao que estava acontecendo", lembra.
Ele descreve o dia do golpe no recém-lançado Um Voluntário da Pátria, parte da série Vozes do Golpe (Companhia das Letras), que traz mais três títulos: A Revolução dos Caranguejos, de Carlos Heitor Cony, Mãe Judia, de Moacyr Scliar, e A Mancha, de Luis Fernando Veríssimo.
Zuenir também reconstitui os acontecimentos no Rio de Janeiro, onde estava o presidente João Goulart no dia do golpe, e rememora os fatos que antecederam a tomada do poder pelos militares. Já Cony relembra sua atuação na imprensa naquele ano e conta as perseguições que sofreu. Scliar eVeríssimo escreveram histórias de ficção a partir do fato histórico.
A escritora Beatriz Kushnir, a partir da sua tese de doutorado, perscruta a relação entre o regime militar e os órgãos de imprensa, expondo os bastidores da censura, no livro Cães de Guarda (Boitempo). Ela entrevistou onze censores do período -apenas dois permitiram a identificação. Um fato que surpreendeu a autora foi a presença de jornalistas entre os censores federais. "Eles agarraram empregos públicos para se defender da instabilidade das redações", explica. Ela também coloca que muitos jornais que não se opuseram ao governo exerceram a autocensura. Mas, para além da análise do período ditatorial, o livro discorre sobre a censura no Brasil desde o Império.
Para o jornalista Ottoni Fernandes Júnior, comentarista da TV Gazeta em Brasília, a idéia de registrar sua militância política e o inferno que enfrentou em seus seis anos de prisão durante a ditadura surgiu em 1975. Desde então, ele fez anotações, guardou recortes e coletou váriosdepoimentos.
O resultado sai apenas agora, sob o título O Baú do Guerrilheiro (Record). O autor narra o início das perseguições, quando era estudante na USP (Universidade de São Paulo), a opção pela luta armada, as ações guerrilheiras, a prisão no Rio de Janeiro, o truque que enganou o torturador e salvou sua vida, a liberdade e a volta à militância no fim dos anos 80. (A.P.)
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