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Edição de Domingo, 28 de Março de 2004 
Política | Irreconhecível após sessão de tortura
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POLÍTICA
Irreconhecível após sessão de tortura
A estratégia do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) para derrubar a ditadura militar era clara: armar frentes de guerrilha no Interior do País, entre as ligas camponesas, para depois ganhar as grandes cidades. Foi seguindo esta orientação que em 1972 Luciano Siqueira acabou indo morar na cidade de Macejana, Ceará, terra natal do escritor José de Alencar e do presidente-general Castelo Branco. Ex-estudante de Medicina, tinha sido impedido de freqüentar a faculdade em 1969, nos tempos em que ainda militava na Ação Popular. "Foi o início do processo de clandestinidade. Sem poder freqüentar as aulas, passei a ser ainda mais perseguido pela polícia", lembra.

  Antes de seguir para o interior do Ceará, ele teve que mudar completamente de vida, ganhando documentos falsificados e assumindo a identidade de Roberto Luiz Pereira. "Meu personagem era um vendedor ambulante. Ganhava uma ajuda de custo do partido, mas era obrigado a vender alguns produtos, senão as pessoas iriam desconfiar", conta. O número de camponesessimpáticos ao movimento, no entanto, não era muito grande. Para formar as bases necessárias, Luciano precisava convencer as pessoas dos ideais revolucionários. "As reuniões eram sempre com três, quatro pessoas no máximo. Às vezes ficava meio inquieto com aquilo".

  Siqueira permaneceu clandestino durante quase dois anos, período em que comunicava-se pouco com os próprios companheiros de partido e quase nunca com a família. "Como não havia muitas notícias, nossa grande preocupação era com os amigos, saber como eles estavam", diz. Como estava com a esposa, Luci, também clandestina, a solidão acabou sendo minimizada. No dia 4 de abril de 1974 ele foi preso, na cidade do Crato (CE) e levado até Fortaleza. "Fui tão torturado que nem minha mulher conseguiu me reconhecer direito", afirma. Pouco depois Luciano foi transferido para a penitenciária Barreto Campelo, onde cumpriu pena com Marcelo Mário Melo e Chico de Assis. "Na cadeia conseguíamos reunir grupos de 30 pessoas, o que para mim já era uma assembléia". Na prisão a primeira filha do casal (também chamada Luci) foi concebida, pois ele achava que poderia ser morto a qualquer momento.

  Em julho de 76 o comunista foi solto. Teve os direitos estudantis renovados no ano seguinte e voltou a cursar Medicina. Durante o período encarcerado aprendeu artesanato e passou a vender os produtos na feira de Boa Viagem, para manter a família. "Eu estava livre, mas as minhas atividades políticas ainda estavam proibidas". Entre o final dos anos 70 e o começo da década de 80, filiado ao MDB, passou a trabalhar em jornais alternativos no Recife, enquanto tentava articular novamente o PCdoB. Em 1982 foi eleito deputado estadual e, poucos anos mais tarde, pôde finalmente voltar ao partido de origem, já legalizado pela Nova República.
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