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Atualizado em 22|03|2004 
Viver Mulher | Romero de Andrade Lima
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Viver Mulher
Romero de Andrade Lima
O Anel dos Peregrinos - Capítulo 6
O cientista moderno afirma que o sono e o sonho arquivam e organizam os fatos do dia, vendo o que presta e o que não presta, o que é bom para guardar e o que é bom prá botar no lixo; o que é mais ou menos prá guardar por garantia, para uma precisão, e o que é excelente para ser lembrado sempre.

O cientista alquimista daqueles anos 1 600 afirmava que o sono e o sonho transformam em poesia a dura prosa do dia.

Concordando com ambos, eu afirmo que aqueles três tiveram que dormir e sonhar tanto, depois daquela noite, que em vez de acordar à noitinha do dia seguinte, como seria de esperar para aqueles noctívagos seres, só foram acordar de manhãzinha do outro outro dia, já no horário certo da sua nova condição de vida.

Só Relâmpago em seu juízo de cavalo, já acordara contente para conferir os detalhes de sua casa nova.

Diamantino acordou com o cheiro de café que vinha da cozinha. Olhou de lado. Esmeralda ainda dormia. Aproveitou para olhá-la e olhar a sua nova situação. Acordou com uma canção na cabeça. Uma cantigade gesta do Romance do Cavaleiro da Rosa, na parte quando a Dama do Lago lhe aparece e lhe prenuncia:

Nenhuma história humana se repete...

Nem parecida...O que cabe a uma vida...

Só cabe numa vida.

Por isso, cuida muito bem da tua ferida,

Como a Rosa única que a ti compete.

Esmeralda acordou, não pelo cheiro do café, a que ele não era muito chegada, mas por estar sendo observada. Foram ao lavatório, e daí à cozinha, onde Juvenal os esperava para uma reunião que não fora combinada, mas que era obviamente necessária.

Sentaram-se e antes que começassem a falar ouviram dentro de casa um grito:

- Ai Jesus!... tão fino, alto e esquisito que Diamantino quase cai da cadeira e Esmeralda quase morde a louça da xícara...

Só Juvenal não se alterou porque conhecia aquela voz.

- Eu ia passando, vi a porta aberta e entrei e ai Jesus, o Barão e a Baronesa vivinhos! ... Vivinhos da Silva. Ô meu Deus!...

Juvenal desgraçado tu não tinhas dito que a malina tinha levado os dois?

- Tinha ... Mas nesses tempos bicudos nem a mortecumpre a palavra diz que vai levar e não leva.

- Ai Jesus, não levou mas deu uma pisa dessas que enrijecem o couro e robustecem o espírito. Parece que estão mais bonitos!

Deixe eu ver, mas espia a baronesa... A cintura afinou... O peito aumentou ... A bunda cresceu ...

Se toda peste, não matasse assim, e ainda desse um trato desses, era muito marido empestando as esposas !...

Só o cabelo que ficou ruim... encrespou ... foi a febre ... mas nem se preocupe, eu tenho babosa da roxa. A senhora passa antes de deitar e faz uma touca que o seu cabelo vai ficar todinho o que era antes: lisinho, lisinho. Mas meu Deus eu carpi tanto o Barão e a Baronesa... E vosmecês aqui vivinhos...

-  Eu tenho para mim, diz Juvenal, que foi o fato de que o Engenho Pintangueiras foi recentemente incorporado à comarca de Igarassu, e os Santos Cosme e Damião, contentes de ver tão linda propriedade ser integrada aos seus domínios, resolveram preservar esses dois.

- Com a Graça de Deus! Ai minha Baronesa... Eu estava pronta para fechar aminha banca:

Prá quem eu vou vender raiz se eu perdi minha melhor freguesa?

Não querendo dizer nada Diamantino e Esmeralda faziam ar distante de convalescentes, ainda que sorridentes.

A velha raizeira era daquelas de menos de 1 metro e meio, cabelo de cocó, magra, seca e forte e disposta e que fala, ri e abraça a cintura do interlocutor e encosta a cabeça que fica na altura do ventre, e declara o seu amor a cada três frases do diálogo.

Aproveitando que o Barão e a Baronesa não tinham falado nada, diz Juvenal.

-  Mas minha velha Jurema, que bom que a senhora apareceu, que eu estava agorinha me preparando para ir lá nos matacões da colina, prá pegar uns pezinhos de Babaguariba, que é prá fazer um chá, prá soltar a língua dos dois, que estão bonzinhos mas a língua ainda está pregada!...

-  Mas eu tenho uns pezinhos na carrocinha, eu vou buscar agorinha!...

-  Mas estão vivos?

-  Oxente, estão! O princípio ativo está vivo, ora pois!

-  Não, mas eu digo o pé, tá verde, vivo, tirado hoje?

  Varei-te, Juvenal, tá seco! Claro! Quem já viu ninguém vender pé de Babaguariba sem ser seco de três dias no sol?

-  Eu vi o doutor dizer: tem que ser vivo, verde, de hoje! Prá soltar língua de quem escapou da peste só chá de pé de Babaguariba vivo verde do dia...

  Danou-se, é vivendo e aprendendo, mas se é pros meus patrões ficarem bons, eu vou. Agora não dá prá voltar hoje... eu pego amanhã e trago quando passar aqui de manhãzinha.

-  Pronto, Dona Jurema, faça isso, tá ótimo assim que daqui pra amanhã as línguas descansam... vá!...

Cinturas abraçadas, cabeças encostadas ao ventre, declarações de amor, a velha parte e o Barão fala:

Juvenal, você era criado desta casa?

 
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