Com todos os reparos à rigidez da política monetária e à debilidade de desempenho na gestão administrativa, o empresariado iniciou o ano com uma percepção positiva dos primeiros 12 meses de governo Luiz Inácio da Silva.
Na última grande reunião da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em janeiro, o presidente Armando Monteiro - que também é deputado pelo PTB - não foi contestado ao traçar um bom cenário para 2004 e constatar que a política, se não ajudava, também não atrapalhava a economia.
Hoje, a compreensão é inversa: a crise política não apenas atrapalha, como se não for rapidamente contornada - ou pelo menos mantida sob a administração do governo e não da oposição -, pode causar prejuízos e provocar custos econômicos ainda impossíveis de serem medidos.
A preocupação central desse setor, no momento, é com o destino do ministro da Casa Civil, José Dirceu.
O ideal, para o empresariado, seria a permanência de Dirceu exatamente onde está, mas dotado dos atributos de força política e capacidade de articulação interna e interlocução externa que fizeram dele, junto com Antônio Palocci, pólo de referência dentro do governo.
Entretanto, as recentes reações do ministro, com ataques generalizados e desmedidos, alteraram fortemente a visão de que, bem ou mal, José Dirceu não deveria se afastar do cargo, sob pena de o Planalto perder sua capacidade de organização política para reagir à crise e tocar o cotidiano da administração.
Embora ainda prevaleça a preocupação com os efeitos concretos de um eventual afastamento de Dirceu da Casa Civil - dada a inexistência de um substituto no horizonte -, essa possibilidade já é posta na mesa de discussão sem muito constrangimento.
É que o destempero verbal exibido pelo ministro sempre que a situação se lhe apresenta um pouco mais favorável indicaria, de acordo com essas análises, ausência de habilidade e serenidade necessárias ao comando da Casa Civil tal como ela é concebida na atual estrutura do Palácio do Planalto.
Nesse quadro, o afastamento de José Dirceu da cena principalpoderia serenar os ânimos e dar ao governo algum fôlego para pensar em como construir uma saída segura e definitiva para a crise.
Para usar expressão corrente nas conversas, seria a "solução guilhotina", pela qual o controle só poderia ser retomado a partir do sacrifício de um "pescoço".
E porque a crise começou na Casa Civil e a partir dali continuou sendo alimentada, é que o pescoço em questão é o de José Dirceu e o de ninguém mais.
Nada de novo
A conclusão da sindicância do Planalto de forma alguma, como querem alguns governistas, encerra o caso Waldomiro Diniz. Pelo simples fato de que a investigação resultou naquilo que já se sabia desde a divulgação da fita de vídeo exibindo o flagrante de extorsão.
A comissão apenas preservou-se do vexame de contestar imagens incontestáveis. Mas, na tentativa de proteger Dirceu, deixando-o fora da roda dos depoentes, acabou mantendo no ar a mais importante das perguntas até agora sem resposta: qual a extensão da delegação e autonomia de que dispunha Waldomiro na Casa Civil?
Uma investigação de razoável independência não poderia prescindir das informações de quem - voluntária ou involuntariamente - proporcionou ao extorsionário o cenário e os instrumentos para o exercício de suas atividades escusas.
Sem ouvir José Dirceu, a comissão de sindicância não pôde apresentar no resultado de seu trabalho a evidência definitiva do distanciamento operacional entre um e outro e do completo desconhecimento do ministro a respeito dos caminhos por onde andava e das pessoas com quem falava o seu assessor.
Ética de Xerém
Nada, mas nada mesmo, surpreende na decisão do PMDB de ameaçar deixar o governo justamente no momento de maior dificuldade política.
Aquela conversa de execução de projeto comum de País, como se vê, não resistiu ao agudo senso de oportunidade pemedebista.
E era desse partido que o governo esperava receber um código para impor regras de conduta à base de sustentação parlamentar.
Rumo de Miro
O ex-líder do governo Miro Teixeira vai para o PPS, mas entra no partido integrado à ala do deputado Roberto Freire e não ao grupo do ministro Ciro Gomes.
A posição de Freire em relação ao Planalto sempre foi crítica e distante. Agora, a tendência do PPS é se afastar cada vez mais do PT.
Nessa linha, em breve abrirá tratativas com o PSB.
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