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Edição de Quinta-Feira, 25 de Março de 2004 
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Opinião
Opinião
O desperdício da água

Está para aparecer maior indutor do desperdício do que a abundância. A abundância de qualquer bem, uma vez mal conduzida, mal administrada, gera essa forma de delito que parece neutro e incolor que é o desperdício. Não é a primeira vez que este jornal se lança à advertência de que, um dia, a água potável vai sair da abundância, em que hoje se encontra, para o crítico estágio da escassez. Se olharmos o mapa geral do mundo, logo distinguiremos áreas e zonas nas quais a água potável já se mostra radicalmente escassa. Há quem diga - não se sabe se com exagero - que as próximas guerras entre os povos não serão mais pela posse do petróleo e outras matérias-primas, serão pela conquista e utilização da água.

  O fato de as Nações Unidas terem instituído o Dia Mundial da Água, transcorrido ultimamente, dá a medida para o grau de preocupações que sobre o assunto tomou conta das mentalidades mais evoluídas do planeta, ou seja, das pessoas com responsabilidades mundiais. Não se trata, apenas, de proteger o meio ambiente,de privilegiar a ecologia para garantir a existência dos seres humanos sobre a terra, mas de, especificamente, utilizar a água potável numa escala e de um jeito que assegurem a sua disponibilidade permanente.

  No Brasil, as autoridades estão a calcular que atingem a elevada marca dos 40% as perdas de água encanada em nosso território, vale dizer, nos centros urbanos. É constatação do "Atlas do Saneamento" do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) recentemente dado à publicação. É muita coisa: a água não somente desapareceria pelos vazamentos das tubulações adutoras e distribuidoras, mas, igualmente, pela maneira como a utilizamos - maneira defeituosa porque desatenta a qualquer norma sobre a hierarquia dos usos dela. Não se pode dizer que a lavagem de calçadas possa incluir-se nas prioridades para a utilização acertada da água. É, antes, um daqueles abusos que até comprometem os nossos foros de gente civilizada. Dentro de casa, abusos semelhantes ocorrem, e fora como se estivéramos no melhordos mundos.

  Muito se poderia fazer, do ponto de vista pedagógico, no interior de inúmeras indústrias ainda desatentas ao problema. Alguns países elevaram de tal modo o preço da água que conseguiram moderar e mesmo eliminar os desperdícios do produto de todo o segmento industrial. Talvez tenhamos, aqui no Brasil, caso a simples pedagogia da demonstração não dê os resultados previstos, de adotar o argumento a fortiori do preço mais que proporcional.

  Os brasileiros devem inclusive dar ao mundo o melhor dos exemplos que é o exemplo de quem dispõe de água em abundância. O país é responsável, ante o resto do mundo, pela administração de alguma coisa em torno de 10% de toda a água potável existente. Não pode dar-se ao luxo de exorbitar desse dom natural, mas, ao contrário, a fartura da água doce deve servir de mote para ações cada vez mais aperfeiçoadas necessárias ao manejo da água. Não esquecer, só porque estamos no Nordeste onde é crítica, por vezes, a disponibilidade da água em seus agrestes e sertões, do desperdício que se verifica em alguns perímetros de irrigação, nos quais se deixa a água correr solta pelos declives abaixo.

  Esperamos que o Dia Mundial da Água tenha servido para realçar estes e outros aspectos da utilização da água no país.


Remédios em casa

João Lyra
DEPUTADO FEDERAL (PTB-AL)

Neste ano, perto de 500 mil brasileiros receberão gratuitamente do Ministério da Saúde, através do Sistema Único de Saúde-SUS, medicamentos de uso contínuo. Um recorde, merecendo registro especial essa bem-sucedida iniciativa governamental, uma das mais notáveis em todo o mundo.

  Mas, esse programa meritório e de longo alcance social, ainda é muito pouco, sobretudo quando se examina o perfil da população beneficiada e as dificuldades que enfrenta para ter acesso aos medicamentos.

  Para serem incluídos no cadastro do Sistema Único da Saúde-SUS, o pobre, o aposentado, o necessitado, o doente portador de patologias que dificultam sua locomoção (Aids, diabetes, cardiopatias graves, artrites reumatóides, entre outras) submetem-se a extensa bateria de exames médicos que os habilitam à recepção mensal dos medicamentos receitados pelo próprio SUS.

  Todo mês, a pessoa cadastrada, ou um seu procurador, comparece, na data agendada, ao local indicado pelo SUS, para receber os remédios receitados e essenciais a sua vida. Muitas vezes, o medicamento não se encontra disponível, obrigando o doente a retornar em outro dia ao SUS, num desperdício de tempo e sacrifício financeiro, que deveriam ser evitados. Trimestralmente, o SUS reconfirma a continuidade do benefício e, transcorrido um ano, repete a bateria de exames. Um sofrimento interminável, se consideramos o mal que acomete o doente e até mesmo a falta de dinheiro para o transporte. E se o doente residir em município distante, não é problema, é uma tragédia.

  Como pode um homem ou uma mulher pobre e doente, sem meios e apoio familiar "o que é mais comum nesses casos" deslocar-se de tão distante para receber os medicamentos de que precisa?

  Para facilitar a vida desse universo de brasileiros, apresentei projeto de lei, determinando que o SUS faça a entrega em domicílio do remédio, naturalmente protegendo o erário de possíveis fraudes.

  Para a viabilização do projeto, é imprescindível o apoio e a conseqüente decisão do ministro Humberto Costa. Seria um gesto de profunda sensibilidade humana, que tocaria a vida de milhares de velhos, pobres e doentes, espalhados por todo o País.


Um regionalismo interessante

Roberto Martins
SOCIÓLOGO

Mesmo com a Espanha em evidência, muito infelizmente por motivos tristes e que não mereciam de modo nenhum ter ocorrido, para o seu povo e suas famílias, faz-se oportuno - e, repito, desafortunadamente oportuno - comentar sobre um dos aspectos mais interessantes deste país ibérico. Menciono com bastante vinco denotativo a expressão país, exatamente para não usar o termo nação. Espanha é um conceito complexo. Tanto é assim que o seu principal historiador contemporâneo, Pierre Vilar intitulou um dos seus livros, As Sete Espanhas. Vale a pena aqui focar em uma dessas espanhas.

  Para tanto não me apresento como um especialista em estudos hispânicos; o que me credencia na minha competência é a minha sempre renovada pesquisa na tentativa das análises do regionalismo, inclusive sob a perspectiva comparativa internacional: do Nordeste brasileiro ao sul da Itália; e com mais profundidade ao sul dos EUA, e finalmente dando aqui neste texto uma breve avaliação sobre uma parte da Espanha, particularmente a região da Catalunha.

  Há os regionalismos retrógrados e vivaldinos como o do Nordeste brasileiro. E há aqueles inteligentes e modernizadores que sabem e/ou podem entrar bem na história. Catalunha sim, é muitíssimo instigante para ser estudada com a sua expressão regionalista. A Galícia, outra regionalidade espanhola não tem muito interesse; os Bascos e o Eta são mais notórios e escandalosos também não me interessam. A Catalunha não é uma regionalidade de tradição inventada; data de 988 e é este o ano de seu ano oficial como nação. Já em 1978, o artigo 2º da nova Constituição espanhola declara a Espanha como uma "nação de nacionalidades". Em 1979, O Estatuto de Autonomia da Catalunha firma o alicerce institucional para a autonomia da nação catalã, como parte constitutiva da estrutura da Espanha, estabelecendo inclusive a declaração da existência de dois idiomas oficiais, sendo o catalão adotado como a "a língua própria da Catalunha", sutil maneira de dizer-se que o espanhol pode vir a ser a língua predominante. Os catalães sempre foram muito pródigos na criação de seus intelectuais ideólogos, que asseguraram por séculos a argamassa discursiva da identidade histórica da nação - região. Prat de Riba, sem dúvida é considerado o mais lúcido deles. Hoje, seu maior líder, Jorde Pujol - não confundam com o atual jogador do Barcelona - insiste que a língua é o principal fundamento da identidade catalã, que jamais reivindicou alguma especificidade étnica e religiosa. E, principalmente, os catalães rejeitam a idéia de separatismo.

  O mais interessante, entretanto, é a sua maneira de organizar as suas relações como entidade regional com o mundo maior da Europa. A Catalunha concilia (e vamos usar e expressão certa manipula conciliatoriamente) magistralmente seu respeito pelo Estado espanhol com a sua autonomia para se integrar com a União Européia e com dezenas de redes de governos regionais e municipais que se espalham pelo mapa europeu. A identidade catalã não só não busca a secessão, mas também não se isola. A Catalunha preserva o singular, o particular, ao mesmo tempo que evita o paroquialismo. (Exemplo - não um modelo diga-se para que algumas elites intelectuais do Nordeste brasileiro deixem de cultivar delírios identitários regionalistas, inclusive o de se separar do resto do Brasil.)

  Um caso para aqui ser lembrado, é o de Barcelona que usa o poder da identidade como trampolim e não como âncora paralisante, mesmo tendo já possuído uma classe burguesa industrial que foi bizarramente conservadora e vaidosa. O arquiteto Antoni Gaudi não existiria se não fosse o dinheiro do milionário Eusebi Güell. Esta extravagante vaidade da identidade catalã expressa, mas só em parte, observe-se, uma identificação do catalanismo com uma burguesia industrial arrogante e magoada com o centralismo de Madri. É por essas e outras que o regionalismo catalão torna-se interessante; e não só para acadêmicos, mas também para os operadores de políticas de desenvolvimento regional, interregional e transregional.


Caça aos tubarões de Piedade

Adalberto Arruda Silva Júnior
ENGENHEIRO FLORESTAL

A caça aos tubarões das praias de Piedade e Candeias mediante o uso de espinhel é tarefa viável, fácil, barata, que venho defendendo há cerca de pelo menos cinco anos e que já devia estar em prática há muito tempo.

  Em "Audiência Pública" sobre o assunto na Câmara de Vereadores de Jaboatão, em 1998, cobrávamos publicamente esta ação mediante envolvimento do Corpo de Bombeiros Salva-Vidas da área.

  Propúnhamos naquela ocasião o uso pelos Bombeiros Marítimos de dois ou três espinhéis no trecho da Piedade/Candeias, com 100,00 m de comprimento cada, ancorados a cerca de 200,00 m da praia, em profundidade media de 8,00 m, com âncora em uma extremidade, bóias e anzóis a cada 5,00m, iscados de cabeça de peixe ou bofe de boi. Diariamente, pela manhã e à tardinha, haveria verificação e troca de iscas.

  Com isso, os bombeiros estariam fazendo, além de treinamento em ação no mar com operação de barco, com salário e barco disponível, também oportuna e rica pescaria, pois os peixes fisgados seriam distribuídos em asilos e creches de pessoas carentes e praticamente sem custo adicional para a sociedade.

  Na época, porém, esta proposta foi contestada, notadamente pela tese acadêmica de alegado interesse científico de pesquisas de longo prazo e a várias milhas da costa, e também era refutada por certo ambientalismo incipiente do tipo que o mar é dos tubarões, e que "os tubarões são intocáveis" etc..

  Hoje, vemos, que aumenta a população dos tubarões na área, com diversos ataques em número recorde no Mundo, e com a morte de vários surfistas e banhistas, e ataques ocorrem em águas de pouco mais de 1 (hum) metro de profundidade.

  A sugestão de espinhel já constava, inclusive, de "Carta de Leitor" publicada neste DIARIO nos idos de 1997, subscrita por Ricardo Albuquerque Arruda, ex-surfista da Piedade que defendia "caça aos invasores", justificando que conhecia bem aquele trecho de mar, onde praticava "surf", sem nenhum receio de tubarões, ainda recentemente, até 15 ou 20 anos atrás.

  Participei com Ricardo, à época, dessesaudável esporte, e lembro as competições de "surf", com apoio da mídia que eram realizados em frente ao então "Bar Sarong" (hoje inexistente), em frente ao Hospital da Aeronáutica, com participantes até de diversos estados do País. Isso há 20 ou mais anos atrás.

  Acho também que não se deve imputar toda a culpa pelos acidentes à teimosia e desobediência dos banhistas. Não. Acho que está havendo passividade e inação das autoridades para o assunto. Não se trata apenas de colocar placas proibitivas. E muito menos colocar policiais para impedir que se tome banho de mar em Piedade Candeias. O problema não só de desobediência a avisos e santos aconselhamentos. Haverá sempre, em algum momento, alguém, talvez simplesmente encantado pela vida, pelo mar, ou desinformado, que penetre tranqüilamente naquelas águas lustrais de Piedade/Candeias.

  Tomar banho de mar é um dos prazeres mais saudáveis, democráticos e apreciados, além de ser gratuito para toda a população. E tudo isso acabar, assim, do dia para a noite em Piedade/Candeias? E sem que façamos nada em defesa. Nem capturarmos as saudáveis fontes (carne de tubarão) de alimento humano disponível, como fazemos com tantos outros peixes menos carnudos e menos agressivos. Como explicar isso?! Sadomasoquismo? Que tristeza! O homem pode e deve modificar a natureza, racionalmente e para melhor.

  Apesar das tantas agressões ambientais - hoje felizmente bastante conscientizadas e combatidas - adaptar a natureza é o que o homem tem feito ao longo do processo civilizatório; E isso é, sem dúvida, uma das suas mais gloriosas obrigações existenciais e culturais. Ademais, caçar os tubarões de Piedade/Candeias não é nem ética ou legalmente proibido, e nem prejudicial ambientalmente,

 
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