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Edição de Quinta-Feira, 25 de Março de 2004 
Mundo | Escola de tortura da Argentina vira museu
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MUNDO
Escola de tortura da Argentina vira museu
Aniversário do Golpe
BUENOS AIRES - Ontem, pela primeira vez desde o fim da ditadura militar (1976-1983), um presidente argentino pediu desculpas pelo papel do Estado no processo de redemocratização do país. No mesmo dia em que anunciou a decisão de seu governo de transformar a Escola de Mecânica da Marinha (Esma, na sigla em espanhol) no Museu da Memória, o presidente Néstor Kirchner lamentou e considerou vergonhosa a atitude dos governos democráticos que ocuparam o poder a partir de dezembro de 1983. Kirchner fez seu desabafo diante de milhares de pessoas que participaram de um ato organizado pelo governo em frente à Esma, exatamente 28 anos após o golpe militar de 1976.

  "Como presidente venho pedir perdão em nome do Estado nacional por ter calado durante 20 anos de democracia", afirmou Kirchner. "Falemos com clareza, não é rancor nem ódio o que nos mobiliza: é justiça e luta contra a impunidade. Os autores de fatos tenebrosos e macabros devem ser chamados de uma única maneira: são assassinos repudiados por um povo inteiro".

  Durante o governo de Raúl Alfonsín (1983-1989), foram aprovadas as leis de Obediência Devida e Ponto Final, as chamadas leis do perdão, que anistiaram centenas de militares. O ex-presidente Carlos Menem (1989-1999) indultou as principais autoridades do governo militar. Já o ex-presidente Fernando de la Rúa (1999-2001) impediu a extradição de militares acusados de terem violado os direitos humanos.

  Ontem, foi um dia histórico para o país. Além de ter entregado a Esma, principal centro clandestino de tortura da ditadura, às organizações de defesa dos direitos humanos, Kirchner participou de uma cerimônia na sede do Colégio Militar durante a qual foram retiradas de uma galeria de retratos as imagens dos generais Jorge Rafael Videla e Reynaldo Bignone, figuras de proa do governo militar e ex-diretores da instituição.

  "As armas nunca mais deverão ser usadas contra o povo argentino", disse o presidente aos militares. A atitude de Kirchner provocou irritação entre alguns setores, e levou cinco altos chefesmilitares a pedirem transferência para a reserva.

conflitos- O presidente também abriu uma frente de conflito com governadores do Partido Justicialista, que ontem não participaram da manifestação para evitar um conflito com as Mães da Praça de Maio. Na véspera, a presidente do grupo, Hebe de Bonafini, tinha dito que os peronistas não deviam participar do evento "pois muitos eram cúmplices de torturadores".

  Representante de uma geração mutilada pela ditadura, o presidente, de 54 anos, não conseguiu conter as lágrimas durante a manifestação. Ao seu lado, no palanque, estavam filhos de presos políticos desaparecidos que nasceram no sinistro centro de tortura. De acordo com estimativas de ONGs, cerca de cinco mil pessoas passaram pela escola da Marinha. A grande maioria foi assassinada.

 
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