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Edição de Quarta-Feira, 24 de Março de 2004 
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Longe desse insensato mundo
DORA KRAMER
E-mail:
dkramer@estadao.com.br
Pelo jeito, os últimos 40 dias não foram apenas os piores da vida do ministro da Casa Civil, José Dirceu, como ele mesmo diz. Foram também fundamentais para o aprimoramento do ministro no exercício do auto-engano. Já não parece ser a arrogância o que move Dirceu, mas o distanciamento da realidade que o cerca.

Depois de alguns dias de silêncio compulsório - bem menos de 40 -, José Dirceu tentou uma primeira viravolta em entrevista à revista Veja, 15 dias atrás, em que se mostrava plenamente ativo em suas atribuições de fazer cair a chuva e nascer o sol.

Desde ali era possível vislumbrar a existência de um certo intervalo de tempo e espaço entre o crédito que o ministro supõe ter com a opinião pública e a acolhida que ele, de fato, tem.

Dias depois, para uma platéia de prefeitos do PT, José Dirceu atribuiu todos os seus males a uma conspiração oposicionista interessada em derrubar o Governo e, de posse de uma autoridade também algo distante da que dispõe na atual conjuntura, prometeu pôr os "pingos nos is" dalia mês.

Não esperou tanto. Segunda-feira, em entrevista coletiva durante um seminário em São Paulo e em declarações ao jornalista Merval Pereira, do Globo, atirou em todas as direções possíveis.

Bateu na oposição, confrontou o Ministério Público - e por extensão o Poder Judiciário -, alvejou políticos adversários mas de comportamento ameno em relação ao Governo, acusou a administração anterior de ter permitido a entrada do crime organizado nos negócios dos bingos e ensaiou subtrair da Imprensa o dever de lhe fazer perguntas, a não ser as por ele aprovadas.

Além disso, decretou que o caso Waldomiro Diniz estava encerrado - isso mesmo antes de a comissão de sindicância do Planalto apresentar seu relatório -, como se sua vontade fosse capaz de pautar o curso dos acontecimentos.

Em ato deliberado de construção de uma realidade paralela vivida exclusivamente por ele, informou que não existe paralisia na administração e que não há denúncias de corrupção no Governo.

Ao ressurgir da crise, o ministro da Casa Civil exibe-se como personagem de um cenário inexistente. Imagina-se dono de um poder que não está ao seu alcance e provoca perplexidade em aliados e adversários.

Nem o presidente da República, muito menos um ministro de Estado, tem o direito, o dever ou o poder de controlar tudo e todos, e a respeito de qualquer pessoa, instituição ou categoria profissional, fazer um julgamento definitivo e incontestável.

É possível que o ministro não se tenha dado conta, mas o fato de ter conduzido, preparado e dotado o PT de instrumentos que permitiram a Luiz Inácio da Silva chegar ao Palácio do Planalto não lhe confere a prerrogativa de postar-se duas oitavas acima da humanidade.

Na entrevista a Merval Pereira, rejeita qualquer hipótese de o Governo buscar sustentação política no PSDB - esquecido de que sem a oposição não teria aprovado as reformas tributária e da Previdência - e promete "não apagar" da memória a tentativa de derrubá-lo, segundo ele, organizada pelos oposicionistas nos últimos 40 dias.

Promete revanche, acreditando-se dono da capacidade de conduzir a vida política dos partidos e dos políticos a ele não alinhados.

Ao Ministério Público prenuncia enquadramento em regra. "Não vou deixar isso barato não", diz, em relação às "violências legais" na sua opinião cometidas pelos procuradores.

Dirceu preconiza aí algo de realização impossível. Independente desde a Constituição de 1988, é mais fácil o Ministério Público enquadrar quem quer que seja do que o contrário.

Na mesma toada, o ministro também se revelou crédulo no controle absoluto que o Planalto exerce sobre os governadores de São Paulo e Minas, Estados que, na visão de Dirceu, não "sobrevivem um mês" sem ajuda federal. A reação deles e de outros citados no panorama percebido por José Dirceu à sua volta foi firme, mas não superlativa no sentido de acrescentar tensão à crise. Da mesma forma comportaram-se os líderes governistas no Senado. Como, aliás, convém à responsabilidade dos sensatos.

Assim é

A assessoria do ministro do Planejamento, Guido Mantega, informa que não há, nem houve, resistência alguma de Mantega em receber o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, nos últimos seis meses.

Segundo a assessoria, os dois reuniram-se no último dia 9 e falaram quase dez vezes ao telefone de dois meses para cá, para tratar dos assuntos que Rodrigues queixou-se publicamente - na frente de 30 deputados - de estarem sendo ignorados pelo Planejamento.

Por essa versão, Rodrigues viu fantasmas ao meio-dia e ainda comprou briga com todos eles.

 
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