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Edição de Segunda-Feira, 16 de Fevereiro de 2004 
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Opinião
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Distância de oito décadas
Enquanto astrônomos costumam medir a distância entre os corpos celestes em anos-luz, os economistas agora deram de medir em simplórios anos de calendário o percurso que separa duas ou mais economias. Trata-se de cálculo complicado bem ao gosto dos da grei econômica. Mas é o que nos anuncia o PhD pela Universidade norte-americana de Chicago, Marcelo Moura. Acha o economista, após meditar sobre as categorias Produto Interno Bruto (PIB) e renda per capita dos Estados Unidos da América e Brasil, a partir dos anos 50 do século XX, que a distância entre ambos os países é, hoje, de 84 anos.

  Nessas extrapolações de séries numéricas, não raro a metodologia é mais importante que tudo. A informação sobre a projeção do crescimento brasileiro e norte-americano não acompanha o vaticínio. Fica-se apenas com a credibilidade do profissional nos meios acadêmicos.

  Segundo ele, se o Brasil, a contar de agora, obtiver o crescimento sustentado de 5% a.a., enquanto a economia do norte se expanda de modo também sustentado à taxade 2,6% a.a., a distância entre o nível de desenvolvimento dos países aqui considerados terá sido zerada daqui a oito décadas. Para que este país possa chegar à metade do nível de expansão norte-americana, consideradas as mesmas premissas, seriam necessários pelo menos 38 anos de esforço.

  É mero exercício para meditação. Os desenvolvimentos não são simétricos conforme supõe a hipótese do economista brasileiro. Ocorrem saltos de qualidade de um e outro lado capazes de alterar as previsões econômicas as mais acauteladas. Neste particular, o futuro integrado de algumas décadas é tão absconso e incognoscível quanto é, para o crente, a eternidade. É manifesto que o Brasil tem condições de superar o respectivo desempenho histórico, mas, as variáveis que poderiam levar a esse resultado são extremamente numerosas. Por outro lado, ninguém sabe dizer se os Estados Unidos atingiram, já, o fastígio e o ápice da respectiva curva de crescimento. Desse ponto em diante, se, como o demonstra a história e o bom senso, o crescimento nem é ilimitado, nem infinito, vem a decadência. Mas, são já visíveis sinais daquilo que chamamos de decadência?

  Sob o prisma do Brasil, as coisas não parecem menos complicadas. O próprio economista aponta o difícil itinerário a cumprir. Precisa o país liberar as empresas para investirem mais, mediante a diminuição da carga tributária que suportam. O Estado precisa investir, sim, mas, em educação, saúde, saneamento básico e infra-estrutura de transporte e energia elétrica. No meio das atuais vicissitudes políticas, tornam a ter voz aqueles que não acreditam na exaustão do Estado e os que não conseguiram tirar ainda nenhuma conclusão da derrubada do Muro de Berlim. Numa década, pensamos que a locomotiva do crescimento é o setor privado da economia, noutra, alternativamente, imaginamos que o Estado não abdicou do papel de carro-chefe do desenvolvimento. O Estado teria assim recobrado a capacidade de investir de antigamente. No curso de oito décadas, ocorrerão circunstâncias que sequer podem ser hoje imaginadas pelo mais promissor núcleo de futurólogos.

  É bom saber, afinal, que estamos distanciados e quanto distanciados. Para que nos provoque a diligência e nos instigue a vontade nacional de acertar. Mais do que isto, sinceramente, é sonho.

 
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