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Edição de Terça-Feira, 3 de Fevereiro de 2004 
Viver | Mãe do Dalai Lama solta o verbo
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VIVER
Mãe do Dalai Lama solta o verbo
Biografia da avó do Tibete tece criticas à sociedade que não reconhece direito das mulheres
São Paulo - Autobiografia da mãe de um líder espiritual reverenciado em todo o mundo, Dalai Lama, Meu Filho deveria ser neutro, como convém a um livro budista, e politicamente isento, como se espera de uma obra do gênero. No entanto, a vida de Diki Tsering, também conhecida como a "avó do Tibete", foi dura demais para que a camponesa, destinada a ser a mãe do décimo quarto Dalai Lama, perdesse a oportunidade de criticar duramente a sociedade de castas que discrimina as mulheres. Diki Tsering tinha como meta criar filhos e ser uma boa esposa. Iletrada, transformou-se na mãe do Buda reencarnado. Queria viver para sempre numa aldeia do Tibete. Teve de fugir com a família e morrer no exílio. Enfim, nada do que planejou deu certo. Exceto Sua Santidade, o Dalai Lama, seu maior orgulho.

  Publicado no Exterior pelo sobrinho do lama, Khedroob Thondup, oficial do Parlamento-em-exílio do Tibete, a biografia de Diki Tsering é uma espécie de As Boas Mulheres da China do mundo ancestral. O que o livro da moderna chinesa Xinran fez por suas compatriotas, vítimas de uma cultura patriarcal e repressora, o da mãe do Dalai Lama faz pelas mulheres tibetanas, oprimidas pelo mesmo poder arcaico. Mesmo assim, a avó do Tibete considerava-se uma mulher "tradicional". Anacrônica, jamais. Contrariando o espírito do site oficial do governo do Tibete no Exílio, que passa uma imagem pasteurizada da sua história para o mundo, Diki Tsering afirma, no livro, que as mulheres tibetanas nunca tiveram seus direitos reconhecidos. E mais: muitas cometeram suicídio pressionadas pelas famílias dos maridos ou foram brutalmente assassinadas.

  A mãe de Sua Santidade trabalhou de sol a sol. Passou fome. Perdeu filhos, levados por "espíritos maus", até chegar à quinta gravidez, quando, finalmente, teve um bom augúrio, o nascimento do Dalai Lama. Criou 16 filhos, das quais só sete sobreviveram, três deles destinados a virar lamas encarnados, provavelmente parecidos com Sua Santidade, que gostava de ordem, vivia arrumando sua trouxinha de roupa e alertava atodos que deveriam se preparar para deixar sua terra. E assim foi. A família partiu para o exílio em 1959, quando os chineses invadiram o Tibete, confirmando a profecia do Buda.

  Ao descrever a casta budista, não hesita em relatar com detalhes a luta pelo poder entre os grandes, que levou seu marido à morte - provavelmente envenenado - e abriu caminho para a invasão chinesa. Morreu no exílio.

Serviço

Dalai Lama, Meu Filho - A História de Uma Mãe , de Diki Tsering
Editora: Ediouro, 208 páginas
Quanto: R$ 29,00

 
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