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Edição de Quinta-Feira, 29 de Janeiro de 2004 
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Verissimo
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O tal espírito
Luis Fernando Verissimo
Convicções sobre futebol são um pouco como o tal "espírito de seleção", coisas etéreas que vêm e que vão, às vezes durante uma vida, às vezes durante um jogo. O time brasileiro que disputou o pré-Olímpico, por exemplo, teve espirito de seleção quando derrotou o Chile jogando com dez no segundo tempo, deixou de tê-lo 48 horas depois quando se entregou ao Paraguai e foi eliminado da competição. As convicções sobre futebol variam do mesmo jeito. Não há certeza sobre as dimensões e o estilo que devem ter jogadores de seleção que resista a uma jogada sensacional do Diego e/ou do Robinho, assim como basta uma derrota como a do pré-Olímpico para reforçar a idéia de que, com jogadores desse tamanho e com essa disposição, não se terá uma seleção vencedora com o espirito desejado. Depois do que se viu no jogo contra o Paraguai um cínico poderia discordar do que disse o Diego, na volta, que o time perdeu porque jogou de salto alto. No seu caso, saltos altos teriam ajudado: ele veria por cima da cabeça dos adversários, como convém a alguém na sua função, e faria lançamentos mais precisos. Já outro, com outra convicção, diria que o que falta à seleção é justamente mais diegos e robinhos, e que para ter o espírito que se quer basta convencê-los a voltar para marcar, como fizeram na vitória heróica sobre o Chile. Primeira convicção: é na escolha dos jogadores que se assegura uma seleção com espírito. Convicção oposta: deve-se convocar os mais hábeis e sensacionais, e o espírito descerá sobre eles quando for chamado. Ambas as convicções sujeitas a revisão instantânea segundo os resultados.

  Diz a lenda que Rubens Minelli, assim que assumia como treinador num novo clube, mandava reduzir o vão da porta do vestiário para um metro e 75, e jogador que conseguisse passar pela porta sem se abaixar era mandado embora na hora. Se a lenda fosse verdade, nem Maradona nem Romário, para citar só dois, jogariam num time do Minelli. Ela apenas ilustrava a convicção do técnico sobre o tamanho ideal, sujeito a revisões sensatas, para se enfrentar os trancos e as retrancas do futebol moderno. Mas a tendência nacional, com o aproveitamento cada vez mais precoce de jogadores jovens, parece ser a de largar os garotos esmirrados na frente da área para serem derrubados e confiar em bons batedores de falta. O que também é uma convicção.

E o melhor, no Chile, estou mais ou menos convencido, foi o Fábio Rochenback.

 
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