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Edição de Quinta-Feira, 29 de Janeiro de 2004 
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Opinião
Opinião
Repique inflacionário

As autoridades econômicas e monetárias estão impressionadas com o que poderá ser novo repique inflacionário - a atual campanha de majoração de preços notada em alguns pontos do País. Inúmeros preços estão sendo aumentados de modo difuso, no País, sem que alguém tenha conseguido explicar o sentido que leva o fenômeno. Em janeiros passados, ocorreram repiques inflacionários sempe, ganhando notoriedade, dentre todos, o primeiro janeiro da administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

  O noticiário informa que o presidente da República, seu ministro da Fazenda, Antônio Palocci, e o dirigente do Banco Central, Henrique Meirelles, ficaram contrariados ao tomar conhecimento de que setores industriais (embalagens plásticas e de papelão e aço, dentre outros) estariam a pedir, neste janeiro, aumentos de preço da ordem de 18%. A informação não veio de nenhuma central de boatos, ela procedeu de levantamento sério a cargo da Fundação Getúlio Vargas. Numa reunião das três autoridades, ainda em outubro do ano de 2003, o Sr. Henrique Meirelles fez ver que o Banco Central deveria servir-se de uma rota cautelosa, "para que pudéssemos evitar um repique inflacionário na virada do ano".

  Setores produtivos, conforme tradição de um tempo não muito longínquo, poderiam olhar a inflação passada, desdenhando a tendência de queda na respectiva taxa, "para então remarcar preços e assim atrapalhar o esforço do Governo em reaparelhar a economia para o crescimento".

  À parte a atual política de juros rígidos e elevados que têm oscilado entre 9% e 20% reais porque descontada a inflação, o País já cogitou de tudo, até de moratória externa e interna, para voltar e desenvolver-se. Houve congelamentos de preços e juros, intervenções cambiais, a adoção da correção monetária e de "gatilhos" de toda espécie, o controle de capitais etc. Assinala o atual presidente do Banco Central: "foi uma sucessão de desastres". Por sua vez, o ministro Antônio Palocci gostou de acentuar esta boutade que ganhou notoriedade: O Governo gostaria de cometer erros novos, não, velhos erros!" Fora do Governo, numa área isenta de toda parcialidade, analistas salientam que, quando uma experiência começa a produzir frutos, cresce a ansiedade e todo mundo passa a apressar o final do processo.

  Não é que o Banco Central deseje o atraso e rejeite o desenvolvimento. Ele quer a retomada do crescimento econômico, mas em bases sustentáveis, é o que se constata no curso da atual política financeira. Quando o Comitê de Política Monetária - Copom, do Banco Central, baixa pouco os juros básicos ou os deixa no patamar em que se acham - indicam observadores econômicos -, ele está a levar em conta informações das quais muitas vezes não dispõem os mais vigilantes analistas econômicos e de mercado. Não é que o Sr. Henrique Meirelles seja nenhum profeta inerrante, todavia, o levantamento da FGV e o receio do repique inflacionário exarado nas calendas do último outubro lhe estão a dar razão.

  Entretanto, juros baixos favorecem o crescimento, pela engorda do mercado. Todos os querem mínimos, e é justo que assim seja. É bom sempre repetir: um dos mais importantes suportes desse desenvolvimento é uma política de juros baixos. O País só terá condições efetivas de enfrentar os angustiantes problemas sociais através do crescimento econômico, o que garante emprego e melhores padrões de renda.


Minha amiga Kiola

Marcos Vinicios Vilaça
Da Academia Brasileira de Letras

Numa dessas secas brabas do Nordeste, uma família se arrasta, afugentada, para os vales úmidos do Maranhão, a fim de sobreviver. No meio daquela gente, daqui de Pernambuco, encontrava-se uma menina, nascida em Correntes.

  Lá se foi, para usufruir de um lugar onde havia o que faltava aqui, água. Deu-se conta, logo em menina, de que precisava se situar na vida sem fronteira de medo.

  Cresceu na sua fé católica. Viveu nela o tempo todo. Sem carolice. Convicta. Nada a afastou das crenças que lamparinaram a criação de uma grande família.

  Aliás, o seu único orgulho foram os filhos, os netos, os bisnetos, a guarda da memória do marido. No mais, humildade só.

  Quando um filho chegou a presidente da República, não se incendiou com as glórias ao seu José. Orava para ele, o tempo todo. Quando a neta foi governadora, a mesma coisa. Quando outro neto foi ministro, a mesma coisa.

  Testemunhei, muitas vezes suas orações de terço na mão, sobretudo nos horários vespertinos, quando a tarde maranhense, cansada de tanto dia, adoece a sua luz.

  De manhã, ao tempo da Presidência, chegando ao gabinete, o filho, ele próprio, discava o telefone e vinha o começo invariável da conversa: "A benção, minha mãe". Nunca soube o que ela lhe dizia, só escutei, tantas vezes a conversa terminar assim: "Tá certo. Se Deus quiser. Um beijo minha mãe".

  Maria do Carmo e eu afeiçoamo-nos a ela pelo tanto com que nos distinguiu, pelo muito que nos amou, sobretudo naqueles tempos em que eu e minha mulher aprendemos ser a vida infinita mas que nada é tão enorme quanto a morte.

  Lá, na praia do Calhau, o mar deve estar em suas murmurações, dizendo dela, da sua generosidade, do quanto foi cristã.

  Não é exato, como se falou em tom evidentemente de brincadeira, que ela prometia desfavores a quem fizesse injustiça aos seus. Isto, não. O que havia em Kiola era a consciência do matriarcado saudável, dos seus deveres, que a gente até louva, de paparicar os filhos e netos, de sair em defesa deles se necessário sem medir distância.

  Curiosamente, essa mulher a sugerir apenas o fogão, linhas e o bastidor do bordado, o rosário, viveu antenada à vida pública. Lia jornal, acompanhava sessões do Congresso pela TV e os noticiários, para saber e opinar. Foi de fazer, sentir e dizer. Fez-se significante sem prejudicar o significado dos familiares e dos amigos.

  Os evangelhos falam da advertência de Jesus a Maria, de que seu coração de mãe seria trespassado de dor. O de Kiola, quase centenário, experimentou mágoas porém sorriu muito mais do que lacrimejou.

  Lacrimejam, agora, os que ficaram.


A invenção do trânsito em Boa Viagem

Roberto Andrade
Engenheiro civil, ex-presidente da urb e vereador pelo PTB

O recifense está se deparando com mais um dos atropelos do Prefeito João Paulo, que teima em fazer tudo na base do achismo, ignorando o fato de que mudanças na vida da população não podem ser executadas sem estudos técnicos detalhados sobre o impacto que essas modificações poderiam causar. Como Engenheiro e ex-presidente da Empresa de Urbanização do Recife-URB, de imediato vi as falhas que a inversão (melhor seria dizer "invenção") do trânsito em Boa Viagem iria causar.

  O raciocínio é o seguinte: antes da invenção, Boa Viagem tinha duas entradas no sentido Cidade-Subúrbio (Av Domingos Ferreira e Av. Conselheiro Aguiar) e mais três saídas no sentido Subúrbio-Cidade (Av. Domingos Ferreira, Rua dos Navegantes e Av. Boa Viagem). O que a Prefeitura fez foi apenas misturar essa ordem e o resultado óbvio é que o cidadão não viu qualquer melhoria efetiva.

  Não houve abertura de novas vias (como, por exemplo, a criação de uma paralela da Domingos Ferreira, a Linha Verde), não foram feitos melhoramentos nas ruas perpendiculares e não houve restrição ao tráfego de veículos. Aliás, Recife ganha cerca de 1.500 novos veículos a cada mês. É uma questão lógica: se a quantidade de ruas é a mesma, se não houve diminuição em número de automóveis, então em que mudou a vida do cidadão? Mesmo com a sincronização do sistema semafórico ao longo da Domingos Ferreira, as perpendiculares que cruzam com a avenida sofrem com retenções pelo maior tempo que passam com o sinal vermelho.

  Na última audiência pública a respeito do assunto, que aconteceu no dia 04 de dezembro passado, fui retrucado pelo secretário Dílson Peixoto e pelo vereador Luiz Helvécio, que presidia a sessão naquela ocasião, de que as sugestões de alargar a Av. Herculano Bandeira e a construção de passarelas em nada interfeririam na fluidez do trânsito em Boa Viagem. E hoje, por ironia do destino, a Prefeitura já fala da necessidade imediata das passarelas e do início efetivo do alargamento da Herculano Bandeira

  Só depois da "invenção" é que a PCR começou a identificar a necessidade de novas ações para melhorar o sistema viário. Em nenhum momento, nos foi apresentado o projeto executivo de engenharia com todos os estudos de viabilidade possíveis e o que se vê hoje, com as mesmas retenções de tráfego antes existentes, é que a inversão não está passando de um engodo. E olha que ainda estamos em férias escolares. A partir da próxima segunda-feira (02), com o início do ano letivo, a situação tende a piorar ainda mais.

  A invenção em Boa Viagem, além de não melhorar em nada o trânsito, trouxe um grande perigo aos pedestres. É que no início da Domingos Ferreira, com a retirada do canteiro central, criou-se um vão livre equivalente a oito faixas de rolamento, em que o caminhante que quiser atravessar a pista tem que "marcar carreira" para fazer a travessia de quase 40 metros. Ou andar mais de 300 metros em busca de uma faixa de pedestres. O perigo é grande e a solução para isso seria instalação de uma passarela, já que a colocação de um semáforo ocasionaria uma outra retençãono trânsito. Também se faz urgente dar início ao trabalho de recuperação da estrutura da Ponte Paulo Guerra, cujas obras foram alardeadas pela PCR há um ano, mas que, até agora, nada foi feito.

  Outro aspecto importante é que para alargar a Av. Domingos Ferreira, a PCR retirou, inadvertidamente, mais de 50 árvores do canteiro central e não deu qualquer satisfação sobre replantio. E é de se estranhar que nenhuma entidade ambiental tenha se pronunciado.

  Vale ainda ressaltar que durante esta semana, a Prefeitura autorizou a passagem de veículos particulares nas vias exclusivas para ônibus, confrontando o motorista com a regra de proibição estabelecida pela própria PCR, o que abre uma precedência enorme para futuras penalizações. Muitos motoristas, ainda que autorizados pelos guardas de trânsito a seguir pela faixa de ônibus, evitaram fazê-lo, por medo que os pardais identificassem a placa de seus veículos.

  A inversão em Boa Viagem, para nós que defendemos verdadeiramente a melhoria na cidade e na qualidade de vida da população do Recife, foi apenas mais um engodo, assim como as obras da Avenida Caxangá.


Um rally fora de moda

Roberto Martins
Sociólogo

A cada fim e princípio de ano, meu amigo Ismael Caldas e eu, ficamos atentos, perplexos e irritados com a repetição do evento do rally automobilístico Paris-Dakar (Senegal). Neste ano realizou-se a 26ªedição deste que, meu amigo e eu, consideramos um bizarro anacronismo geopolítico "desportivo", criado em 1978 por um francês. A Europa e o mundo pseudoesportivo não querem compreender que aquele evento é uma stravaganzza de um exibicionismo sobre quatro rodas (e sobre mais ou menos rodas, incluindo as motos e os hipercaminhões) de uma situação bizarra, na medida em que insiste em encenar uma competição demodé de um antigo cenário do neocolonialismo europeu que data dos finais do século XIX, quando a África era um forçado e submisso "parque de diversões" das elites européias que acrescentavam ainda o safári, em incursões com sofisticados rifles que escaneavam as planícies africanas em busca de um "belíssimo" animal, para depois ser empalhado e ostentado em mansões e palácios do mundo aristocrático decadente e burguês - ascendente europeu e, às vezes, norte-americano.

  Safári e rally: síndrome de um hábito arrogante da "supremacia" do homem branco sobre os povos e suas culturas, não só africanas, como também da Ásia, lembrando aqui do safári dos ingleses na Índia, por exemplo. (Houve até um grande caçador português que foi mito nos safáris africanos.) Mas no mundo conturbadíssimo da África de hoje, que diabo ainda fazem aquelas máquinas atravessando terras que não lhes pertencem e se já "lhes pertenceram" foi por causa de invasões e opressões militares e autoritárias?

  Vamos compor um pouco a história desses homens audaciosos e de suas "máquinas maravilhosas". Tudo começa na França. Nos fins do século XIX e princípios do século XX, a França estava na vanguarda - a América ainda não - da Europa nas áreas do automobilismo e da aeronáutica. Há quem registre a sobrevivência desta vanguarda francesa em palavras tais como chauffeur, garage, pneu etc. A virada do século (XIX-XX) viu os anos hegemônicos dos carros De Bion-Bouton e Delauney-Belleville, com o brilho de seus metais e o cheiro de couro dos seus estofados. Havia competições em Monte Carlo, e de Reims à Chanpagne. Em torno de 1910, a França liderava a avião no Mundo; eram muito comuns os "Concours de avÛation" com prêmio de cem a duzentos mil francos. No automobilismo havia pior exemplo, o circuito de Dieppe do qual eu conheço uma cópia de 1908 do pôster publicitário desta corrida. Já em 1899 fazia-se publicidade dos "autos electrique" que possuíam uma associação própria de abrangência nacional. Conheço também cópia de um pôster publicitário desta "societé françoise de'autos electrique".

  Vestígios desta arrogante política de demonstração de poderio tecnológico correm como que fantasmas deslocados nas areias e dunas das fundamentalistas nações islâmicas neste ano de 2004, quase que atiçando a ira dos morteiros e das metralhadoras dos múltiplos grupos armados que polvilham a parte africana do itinerário deste anacrônico rally Paris-Dakar. A mística ocidental fetichista e psicótica dos motores, violenta terras embebidas do autoritário e atrasado Alcorão e há cheiros de gasolina, diesel e sangue nas areias dos desertos de uma África violentamente fatiada pelas metrópoles colonialistas do século XIX, com a brutal Bélgica do assassino Rei Leopoldo, indo até as persistentes colônias francesas - vide Argélia com o teimoso e ambíguo De Gaulle - aos territórios do ultramar do regime ridiculamente fascista do nefasto Dr. Oliveira Salazar.

  E o nosso Rally dos Sertões, não conotaria um deboche político? Em vez de uma comitiva da extinta e zumbí Sudene, uma corrida de jipões e motos pelos sertões, outrora do Conselheiro, de Lampião e da Coluna Prestes. A pobreza vira uma espécie de parque temático, com as máquinas correndo nas trilhas margeadas de populações magras. E sedentas.

Comentários dos Leitores
"Gostaria de comentar sobre o artigo do ilustre vereador Roberto Andrade. É impressionante como se faz política mesquinha nesta terra, se tudo feito pelo atual prefeito foi errado, por que o candidato requentado a prefeito do referido vereador não fez melhorias no trânsito de Boa Viagem quando prefeito por duas vezes desta cidade? Naquela época o trânsito na zona sul já era caótico. Opiniões movidas por despeito eleitoral é feio." Ronaldo Lessa, por e-mail.
 
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