O ministro da Previdência, Amir Lando, foi singelo no raciocínio: "A gente não escolhe aliado, adversário nem suplente", disse, a título de eximir-se da responsabilidade pelo suplente, Mário Calixto Filho, um companheiro de partido, PMDB, e Estado, Rondônia, assaz embaraçoso.
Calixto, como estamos todos acompanhando, teve os direitos políticos suspensos pela Justiça, é alvo de mais de uma centena de processos e agora corre o risco de ter o mandato cassado pelo Senado.
Em se tratando de folha corrida parlamentar, notadamente no que tange a suplentes, não chega a surpreender que o substituto do ministro tenha não só conseguido o registro da candidatura como ainda pertença aos quadros da Casa revisora da República.
O inusitado fica por conta do poder de síntese de Lando para traduzir uma das mais eloqüentes barbaridades do sistema político-eleitoral-partidário em vigor.
De fato, aliados, adversários e suplentes, conforme descritos na filosofia exposta, são igualmente frutos de uma combinação de contingências comcircunstâncias.
Da mesma forma que o político não sabe quem será o amigo ou inimigo de amanhã, o candidato a senador também não faz a mais pálida idéia de quem será seu possível substituto num mandato de oito anos.
Em matéria de indiferença ao eleitorado, trata-se de mais uma obra-prima, tão perfeita quanto a própria existência do suplente, tal como é hoje concebida.
O parceiro de chapa não é escolhido por identidade ou capacidade. Raríssimos são os casos de escolha de suplentes por conseqüência política. O mais notório é o de Fernando Henrique Cardoso, suplente de Franco Montoro na eleição de 1978 e titular do posto a partir de 1982, quando Montoro foi eleito governador de São Paulo.
O caso pertence ao terreno das exceções, é possível afirmar sem medo de incorrer em generalização leviana. Os motivos pelos quais alguém vira candidato a suplente são os mais variados. Há razões de parentesco, muito utilizadas por oligarcas do atraso, precavidos quanto à sua permanência no posto, mesmo na eventualidade da ausência física.
Há razões de carência de quadros, e assim foi que o mestre de obras da casa de um senador ganhou mandato eletivo. Há razões de acochambro, quando se fazem acordos para dividir o mandato em dois de quatro anos, sob o compromisso do titular de se licenciar após a primeira metade.
E há as razões que poderíamos chamar de pecuniárias, quando a suplência é dada ao mais ativo participante financeiro da campanha do titular. Grandes nulidades já foram alçadas à condição de excelências por pertencerem a essa categoria. Algumas ainda pontificam por aí.
Os critérios de escolha de suplentes são conhecidos, aceitos e considerados perfeitamente normais, não obstante o fato de serem - como a reforma política - alvo constante de discursos de protestos por mudanças.
Dada a dificuldade de extinguir os suplentes, o Senado poderia dar-se a algum constrangimento diante da repetição de escândalos, e propor ao menos que partidos levassem a sério a exigência de atestado de bons antecedentes para seus candidatos.
ConceitoO então deputado federal José Dirceu, presidente do PT, ao longo do ano de 2001 foi especialmente pródigo na produção de pronunciamentos denunciando a "decomposição ética e política da coalizão que governa o Brasil desde o fim da ditadura".
Dirceu nominava como decompositores da ética e dos bons costumes "PFL, PMDB, PSDB, apoiados por PPB e PTB". Todos, segundo ele, responsáveis pela "grave crise" que punha em risco o País e "a soberania nacional".
Considerando que três (PMDB, PTB e PPB) dos cinco malfeitores citados hoje compõem a base de sustentação do governo gerenciado por Dirceu, de duas, uma: ou redimiram-se, num fulminante processo de penitência e purificação, ou a "decomposição ética e política" passou de aberração a atributo essencial.
Projeto Rio
O presidente foi alertado por aliados: a imagem de que seu governo considera o Rio um Estado de segunda linha corre o risco de se consolidar no eleitorado fluminense.
Lula foi inclusive aconselhado a fazer uma visita à quadra da Portela, a fim de dissolvero mal-estar provocado pela substituição da escola pela Gaviões da Fiel na viagem ao Oriente Médio, no ano passado.
Na política, a idéia é reforçar com o peso do PT nacional - hoje inteiramente voltado para a reeleição de Marta Suplicy em São Paulo - a campanha de Jorge Bittar para a Prefeitura do Rio.
Nas internas governistas, os otimistas até já apostam que a investida resultará na conquista de uma das vagas no segundo turno. A outra, por essa avaliação, pertence ao prefeito César Maia.
|