|
|
 |
 |
 |
Ao tomar conhecimento da retirada das tropas holandesas, desfazendo assim a sua formação inicial de combate, os luso-brasileiros, aproveitando-se desse erro estratégico, resolvem atacar com toda a fúria recolhida no exato momento em que "os Regimentos de Hauthyn e do Tenente General desciam do monte grande para seguir a vanguarda na terra baixa [...] As cinco companhias, comandadas pelo capitão Tenbergen e que formava a retaguarda, voltaram frente a retaguarda imediatamente e começaram a ação com o inimigo. Tanto quanto pude julgar fizeram o seu dever convenientemente; mas repelidas vivamente pelo inimigo viam-se obrigadas à retirada. Nesse ínterim, os regimentos do Tenente General e de Hauthyn voltaram-se igualmente, achando-se separados em duas divisões, a primeira comandada pelo Coronel Hauthyn, que avançou pela direita até bem perto do inimigo, e que deixando aí os mosqueteiros atirou-se com as lanças do corpo de batalha sobre o inimigo; mas então o inimigo a cavalo acudiu, lançou por terra uma parte daslanças e repeliu o dito Coronel, que, ferido, teve de retirar-se para o flanco do monte".11
E continua o oficial holandês a sua narrativa:
O Tenente Coronel Claes com o regimento do Tenente General do qual naquele momento tinha o comando, e o Coronel Hauthyn , tendo entrado ambos igualmente em ação contra o inimigo, e tratando de reconquistar a garganta do monte abandonado, tiveram de recuar igualmente para o monte, por causa da excessiva força do inimigo, que então veio com tanta impetuosidade sobre os nossos que as nossas tropas começaram a fugir e acharam-se logo na maior confusão, a tal ponto que nem as palavras nem a força puderam retê-las, apesar de todos os esforços dos oficiais em geral e do abaixo assinado em particular, tendo pela brandura como pela força. Essa fuga e confusão foram consideravelmente aumentadas pelas tropas dos Coronéis van den Brande e van Elst, que descendo o monte vieram correndo o mais que podiam atirar-se em confusão nos mencionados regimentos do Tenente General e de Hauthyn,produzindo neles uma desordem completa.
Analisando o documento holandês, em comparação com a narrativa de Diogo Lopes Santiago, conclui o Major Antônio de Souza Júnior: 12
Enquanto Vieira, na baixada, entrava no boqueirão e repelia o inimigo, causando-lhe pesadas perdas, Vidal de Negreiros, por sua vez, acossava os holandeses no alto do monte e infligia-lhes muitas baixas. Parece que Vieira, Henrique Dias e Diogo Camarão enfrentavam, na terra baixa e na ladeira do monte, os Regimentos do Tenente General [Johan van den Brincken ] e dos coronéis Hauthyn, Brinck e Carpentier, ao passo que Vidal de Negreiros, Francisco Figueiroa, Antônio Dias Cardoso e a Cavalaria de Antônio da Silva, pelas alturas, atacavam e punham em debandada os Regimentos dos Coronéis van den Brande e van Elst.
Conclui Diogo Lopes Santiago, que após duas ou três horas de luta titânica, sem quartel, Vieira "se foi unir e incorporar com André Vidal de Negreiros, Francisco Figueiroa e Antônio Dias Cardoso, e todos juntos foram apertando com o inimigo de tal sorte que o fizeram precipitar e despenhar por aquelas barrocas e grotas dos montes Guararapes, donde lhe fizeram grande estrago e mortandade, com que estava já toda aquela campanha dos altos e baixos dos montes lastrada e juncada de corpos mortos do inimigo, que era uma cousa horrenda e espantosa de ver tanta mortandade, tantas e tão espantosas feridas, tantos corpos sem cabeças, braços, pernas, uns já mortos, outros agonizando e lutando com a morte, outros revolvendo-se em sangue e muitos urrando e gritando com as ânsias e agonias mortais, não poucos dando e exalando o último suspiro".13
O cenário realístico, pintado com cores vivas pelo cronista português, está bem de acordo com o relatório do oficial holandês, quando analisa a maneira de lutar das forças luso-brasileiras:
Em referência ao combate acima relatado, observei principalmente duas particularidades que, em minha opinião, merecem bem atenção : em primeiro lugar, as tropas do inimigo saindo do mato e por detrás dos pântanos e de outros lugares tinham a vantagem da posição, atacavam sem ordem e em completa dispersão e aplicavam-se a romper diferentes quadrados. Em segundo lugar, as tropas do inimigos são ligeiras e ágeis de natureza, para correrem para diante ou se afastarem, e por causa de sua crueldade inata são também temíveis. Compõem-se de brasileiros, tapuias, negros, mulatos, mamelucos, nações todas do país e também de portugueses e italianos, que têm muita analogia com os naturais do país quanto à sua constituição, de modo que atravessam e cruzam os matos e brejos, sobem os morros tão numerosos aqui e descem tudo isso com uma rapidez e agilidade verdadeiramente notáveis. Nós, pelo contrário, combatemos em batalhões formados como se usa na mãe pátria, e nossos homens indolentes e fracos, nada afeitos àconstituição do país; disso resulta que essas espécies de ataque com armas de fogo, como acima se trata, devem inevitavelmente tem bom resultado, e que rompendo nossos batalhões e pondo-os em fuga, matando-nos um maior número de soldados em perseguição do que teriam feito em combate mesmo. [...] Além disto as peças de artilharia de campanha não podendo ser apontadas sobre bandos ou grupos dispersos, tornam-se inteiramente inúteis, ou para melhor dizer, transformaram-se em verdadeiras charruas para o nosso exército, sem contar uma multidão de outros inconvenientes, muito numerosos para serem aqui apontados.14
A segunda batalha dos Montes Guararapes foi um dos maiores fracassos da história dos exércitos holandeses. Enquanto as perdas do lado luso-brasileiro foram computadas em 47 mortos e 200 feridos, do lado holandês perderam à vida o comandante geral, Tenente General Johan van den Brincken, o Vice-Almirante Giesseling e 101 outros oficiais que, somados as demais perdas, perfaziam um total de 1.044 mortos e mais de 500 feridos.
E foram tomadas muitas armas de fogo e grandessíssima quantidade de chuços e piques, de que vinham bem armados e providos contra as nossas espadas; porém não foram de nenhum efeito". No amanhecer no dia seguinte, relata o cronista, foram recolhidas no campo da batalha "dez bandeiras, seis canhões, muita pólvora, balas, munições e toda a mais bagagem, onde vinha muito de comer, com que se alentaram os nossos soldados. 15
No depoimento de Joan Nieuhof (op. cit), "tanto na luta como na fuga, as nossas perdas ultrapassaram de 1.100 homens, entre os quais o Coronel Brink e quase todos os demais comandantes. Perdemos ainda 19 bandeiras bem como toda artilharia e munição que havíamos levado. Somente depois de cinco dias conseguimos permissão para enterrar os mortos que, já possessos de franca putrefação, devido ao calor causticante do sol, exalavam um cheiro nauseabundo, terrível".
Essa foi a última tentativa que poderíamos ter feito em campo aberto. Todos os nossos cuidados futuros se concentrariam na manutenção e defesa do Recife, a menos que recebêssemos novos reforços da Metrópole.
1 BOXER, C R. Os holandeses no Brasil 1624-1654. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1961. (Brasiliana, v. 312) p. 302
2 MOREAU, Pierre. História das últimas lutas no Brasil entre holandeses e portugueses. Tradução e notas Leda Boechat Rodrigues. Belo Horizonte: Itatiaia, 1979. p. 84.
3 NIEUHOF, Joan. Memorável viagem marítima e terrestre ao Brasil. Tradução do inglês por Moacir N. Vasconcelos. Confronto com a edição de 1682 por José Honório Rodrigues. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981. p. 314-315.
4 MOREAU, Pierre. Op. cit. p. 70
5 Relatório do Coronel Miguel van Goch, datado de 22 de fevereiro de 1649. In Quatro documentos históricos sobre as duas batalhas dos Guararapes. Recife: Governo do Estado; Imprensa Oficial, 1962.
6 SANTIAGO, Diogo Lopes. Op. cit. p. 538.
7 SANTIAGO, Diogo Lopes. Op. cit. p. 538.
8 Relatório do Miguel van Goch. op. cit.
9 SOUZA-JÚNIOR, Antônio de. Do Recôncavo aos Guararapes. Rio de Janeiro, 1949 p. 180
10 SANTIAGO, Diogo Lopes. Op. cit. p. 540.
11 Relatório do Miguel van Goch. op. cit.p. 25
12 SOUZA-JÚNIOR, Antônio de. Do Recôncavo aos Guararapes. Op. cit. p. 185.
13 SANTIAGO, Diogo Lopes. Op. cit. p. 554.
14 Relatório do Coronel Miguel van Goch, datado de 22 de fevereiro de 1649. Op. cit. p. 27-28.
15 SANTIAGO, Diogo Lopes. Op. cit. p. 555.
|
 |
|
|