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Mula Manca bebe em fonte literária
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CD |
Júlio Cavani Da equipe do DIARIO |
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A cada música, um ser fictício, com personalidade própria e passado pessoal, emoldurado em cenários feitos de música, ganha vida em O Circo Sem Futuro, primeiro disco da banda pernambucana Mula Manca & a Triste Figura, formada por admiradores da literatura que compõem suas canções usando métodos da escrita na criação dos ambientes e personagens. "Nossa idéia era fazer um CD em formato de livro, com prefácio e introdução, onde cada música pode ser transformada em um conto", antecipa Carlos Tibério, o vocalista. O próprio nome do grupo tem origem em personagens literários, extraídos do romance Dom Quixote, de Miguel de Cervantes.
Teatro, circo, literatura e música encontram-se no conteúdo do álbum, pois a proposta da banda é mesmo promover esses intercâmbios, inclusive nos shows. O escritor Raimundo Carreiro recita em duas faixas do CD trechos dos livros Demian, de Herman Hesse, e Dom Quixote. O ator João Lima dramatiza com teatralidade textos escritos pelos integrantes da banda em mais dois momentos (um deles, intitulado Um Minuto Antes da Palhaçada, é um trecho de um conto escrito por Tibério). A capa ainda foi feita por um artista plástico, Edmundson, com liberdade para viajar. "A gente quis agregar várias artes", confirma o violonista e cantor.
REFERÊNCIAS - Mula Manca & a Triste Figura mostra-se importante para a nova música pernambucana também por fugir de certos comportamentos recorrentes por aí. Pois Tibério, Lula (teclados), Arthur Grupillo (jornalista que toca baixo, mas acaba de sair da banda para fazer mestrado em Filosofia em Minas Gerais), Cristiano (bateria) e Ângelo (guitarra) não se sentem na obrigação de criar novos ritmos ou misturas e não têm medo de buscar referências tanto no samba e na MPB quanto no universo medieval. Eles gravaram o disco em um esquema independente, com produção de Fabinho Trummer da Eddie, e agora iniciam a divulgação.
Seria ótimo falar da Mula Manca sem mencionar Los Hermanos, como eles preferem, mas é impossível não notar a semelhança entre as duas bandas em canções como Carnaval. Além do clima saudosista momesco (a figura tragicômica do palhaço ao longo do disco é outro ponto em comum nesse sentido), a música usa as caixas da bateria em ritmo de marchinha, é carregada de lirismo nos vocais cândidos e insiste na guitarra pesada brecada, exatamente como faz o grupo carioca, sugerindo que não foi à toa a escolha dos dois conjuntos para tocarem na mesma noite no último Festival de Garanhuns. "Quando escrevemos as músicas desse CD ainda nem conhecíamos Los Hermanos", garante Tibério, mostrando que o que há nessa semelhança é realmente uma coincidência de influências.
O vocalista acha natural que comparações surjam entre sua banda e outros músicos mais famosos, já que a Mula Manca & a Triste Figura é realmente influenciada pelas coisas que o cercam. "É tudo muito aberto. Posso encontrar mais de dez grupos que se parecem com a gente". Se no conjunto das canções eles conseguem realmente não encontrar similares, em cada faixa há ligação direta com o trabalho de outros artistas, mesmo que involuntariamente (o que nunca deve ser entendido como imitação). Há algo de Renato Russo, Cazuza e Nando Reis (e conseqüentemente Cássia Éller, que trabalhou com os três) na melodia de Ratos Adestrados, assim como o Roberto Carlos da Jovem Guarda pode ser percebido de forma saudável e renovada na equilibrada e dançante Vira-Lata, entre outras coincidências, como no The Doors (Whiskey Bar) que ronda a faixa de abertura, intitulada Introdução. Talvez justamente nessa colagem espontânea de referências e linguagens esteja a contemporaneidade d'O Circo da Solidão.
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