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Lula Cardoso Ayres sobre papel
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Mostra inédita contempla traços do artista-menino à fase mais abstrata, entre 1950/60 |
Júlio Cavani Da equipe do DIARIO |
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Menos valorizados no mercado e na História da Arte, os trabalhos feitos por um artista sobre papel (principalmente desenhos, aquarelas e gravuras) podem se mostrar fundamentais para o entendimento do conjunto de sua obra quando revelados ao público. Lula Cardoso Ayres (1910-1987), pernambucano notabilizado por sua pintura moderna nas formas e sociológica nos temas, ganha uma nova contribuição para a compreensão de seu trabalho com a exposição O Papel na Arte de Lula, que reabre nesta sexta o instituto criado em sua homenagem, em Piedade. A mostra expõe 120 trabalhos do mestre nunca antes apresentados em uma exposição, todos feitos sobre papel.
Organizada em temas, a nova exposição do Instituto Cultural Lula Cardoso Ayres divide espaço com a mostra permanente que preserva as principais obras do artista ainda pertencentes à sua família. Os desenhos inéditos estão dividindo as mesmas paredes ocupadas pelos quadros mais famosos. Segundo o engenheiro e pesquisador Lula Cardoso Ayres Filho, que dirige o espaço aolado da esposa Regina, "pela importância, algumas obras devem ficar sempre expostas". Ele não quis subdividir o espaço também para sugerir uma relação entre as novas peças apresentadas e as antigas. De acordo com ele, ainda há muitos trabalhos feitos sobre papel a serem descobertos, em um processo de pesquisa que, se receber apoio, pode adquirir a importância de um projeto como o Brennand Desenhos, que redefiniu a maneira de se encarar a obra do ceramista da Várzea.
O Papel na Arte de Lula começa pelos trabalhos mais antigos realizados pelo artista quando criança. Impressionantes pela segurança dos traços, pela beleza e pelo domínio da técnica, esses desenhos foram feitos por Lula aos 12 anos de idade e se inspiravam nas ilustrações das revistas de variedades que circulavam no Brasil no início da década de 1920. São 23 ilustrações (todas de 1922, com exceção de uma de 1921) incluindo um poético desenho retratando o menino do filme O Garoto, de Charles Chaplin, que já indicava uma paixão precoce pela sétimaarte. Seu filho acredita que o traço do pai nessa época se inspirava no trabalho do caricaturista Emílio Cardoso Ayres, seu parente.
Ao lado da série há ainda retratos que o artista fez de sua esposa nos anos 50 e croquis de vestidos desenhados por ele mesmo para ela nessa época, revelando suas habilidades como estilista. Na outra sala da exposição, uma série de serigrafias mostra as etapas dessa técnica de reprodução. Em cada quadro (de inspiração cubista) uma cor é acrescentada aos espaços em branco. A exposição também contempla a produção mais abstrata do artista, principalmente com três pequenas imagens das décadas de 1950 e 60, uma delas com figuras semelhantes a ouriços ou explosões negras. A liberdade formal se manifesta nos delirantes originais da série Bichos Imaginários, nunca mostrada, com criaturas de formas estranhas.
A vertente antropológica e sociológica da produção do artista está bastante contemplada na exposição, em quadros que retratam negros e povos indígenas. Em alguns, como nos doisdesenhos que mostram costumes das mulheres baianas, o aspecto cultural é mais valorizado. Em outros, como nos retratos de índios e negros, as formas das faces são o objeto de estudo de Lula. "Não chega a ser uma caricatura, mas ele destaca bastante as partes dos rostos", comenta o filho, explicando o exagero no desenho dos narizes, olhos e lábios de alguns, feitos para ressaltar as características físicas peculiares de cada etnia. A cultura popular aparece no estilo e no conteúdo dos quadros, seja registrando rituais do povo pernambucano nema série de desenhos ou usando formas de bonecos de barro para retratar camponeses, em desenhos que antecipam aspectos estéticos marcantes de um criador versátil.
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