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Verissimo
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Atingindo o alvo |
| Luis Fernando Verissimo |
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Hoje em dia, paranóia é outro nome para realismo. Terrorismo sempre existiu, a novidade - que não começou em 11/9/01 mas universalizou-se espetacularmente com o ataque às torres - é o terrorista suicida. O que mergulha com o avião ou explode com a bomba. O disposto a morrer junto.
O Mundo conviveu razoavelmente com o terror convencional, que desafiava autoridades e exércitos mas não atentava contra a sanidade de nações inteiras. A Itália agüentou os seus anos de terror sem sacrificar muito da sua estabilidade institucional, ou o que passa por estabilidade institucional na Itália. Separatistas irlandeses e bascos ainda assustam ingleses e espanhóis mas não transformaram seus países em reféns do medo. Mas primeiro em Israel, onde fez seu aprendizado sangrento, e agora nos Estados Unidos depois do 11/9, o terror suicida abalou tradições e costumes, transformou medo em política nacional e paranóia em sinônimo de avaliação criteriosa. O terrorismo já tinha ajudado a mudar a história do Mundo e afetado, radicalmente, a história de suas vítimas, mas nunca tinha atingido um alvo deste tamanho: o espÍrito de uma época, os hábitos e as expectativas de toda uma civilização.
Há anos Israel vive o dilema de como lidar com o terror insurgente disposto a morrer junto sem recorrer ao terror de estado. Com uma extrema direita dura e intransigente no poder, não está conseguindo. Nos Estados Unidos teme-se por direitos constitucionais que ainda podem cair na luta contra o terror - além dos que já estão cambaleando - e aumentam os choques entre uma histórica rotina judicial de proteção do indivíduo contra desmandos do estado e as medidas de emergência de um estado em pânico. Não ajuda o fato que, mesmo antes de 11/9, o arquiconservador homem da Justiça do governo Bush, John Ashcroft, não era exatamente um paladino dos direitos civis.
A pior novidade trazida pelo terrorista suicida é que mudou o conceito de emergência. Como qualquer mártir ou maluco hoje tem os meios para se explodir em qualquer lugar por qualquer causa, entramos no assustador novo mundo da emergência permanente - onde a menor das nossas preocupações é ter que esperar muito numa fila de aeroporto. E perdeu todo sentido a frase "Onde é que isso vai acabar?". Não acaba. Ou, para não sucumbir ao fatalismo terminal, ainda mais num começo de verão, não acaba tão cedo. Ou só acaba quando não houver mais mártires e malucos com causa, ou causas com mártires e malucos. E um feliz 2004 para você também.
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