Duas adolescentes bonitas, de classe média, desaparecem no dia 3 de maio. Seus corpos são encontrados num canavial, dez dias depois, com marcas de tiros e em adiantado estado de putrefação. O assassinato de Tarsila Gusmão e Maria Eduarda Dourado, ambas com 16 anos de idade, ganhou dimensões de uma novela policial cujo roteiro inclui polêmicas, famílias divididas, investigações incompletas e suspeitos liberados por falta de provas. Oito meses depois, a dúvida permanece. Somente no início do próximo ano, com a divulgação dos exames que estão sendo realizados em São Paulo, um novo capítulo será escrito nesta história, que ficou conhecido como o Caso Serrambi.
O começo do fim Tarsila e Maria Eduarda viajaram para Serrambi, praia do litoral Sul, no dia 2 de maio para passar o final de semana na casa de um amigo, Tiago Alencar Carneiro da Silva. Na tarde de sábado, fizeram um passeio de barco até o Pontal de Maracaípe. Na noite do dia 3, elas teriam sido vistas entrando em uma Kombi, em Porto de Galinhas.
Caminho sem volta
A Polícia já trabalhava com a possibilidade de duplo homicídio. Este termo está presente na nomeação do delegado do Grupo de Operações Especiais (GOE), José Silvestre, para investigar o caso. O documento foi assinado pelo chefe da Polícia Civil, Aníbal Moura, em 8 de maio, mesmo dia em que comunicava oficialmente à Imprensa que as duas adolescentes estavam desaparecidas.
DIA D
Os corpos foram localizados pelo pai de Tarsila, José Vieira, na tarde do dia 13 de maio. Maria Eduarda foi morta com dois tiros na cabeça. Já Tarsila levou cinco tiros, sendo dois na cabeça, dois no abdômen e um na mão, um sinal de que ainda tentou reagir. Estavam em uma estrada vicinal na subida de um canavial, a cem metros do quilômetro 1,5 da rodovia PE-051, em Camela. O local era o mesmo já informado ao Disque-Denúncia no dia 13.
KOMBEIROS na mira
Em 18 de maio, Valfrido Lira foi detido em casa, no distrito de Camela. Um dia depois, seu irmão, Marcelo Lira, foi preso em Cachoeirinha, no Agreste, onde teria levado a Kombi na qual as vítimas teriam supostado embarcado no dia 3 de maio. Os dois suspeitos permaneceram na sede do GOE por 60 dias, sendo liberados por conta da ausência de provas.
Polícia na parede
O inquérito presidido pelo delegado José Silvestre foi concluído no dia 16 de junho, data em que os kombeiros foram apresentados como os responsáveis pelo homicídio. O documento foi devolvido pelo promotor de Ipojuca, Miguel Sales, com a informação de que era inconsistente e que necessitava de novas diligências. Fios de cabelo, papéis de bombons e aparelhos de barbear encontrados na Kombi dos acusados e no local do crime foram considerados apenas indícios. A juíza de Ipojuca, Ildete Veríssimo, acatou a posição do promotor Miguel Sales.
Operação pente-fino
A pedido da família de Maria Eduarda, o gaúcho Domingos Tochetto (especialista em balística), o paraibano Genival França (legista) e o baiano Luís Carlos Galvão (antropólogo forense) estiveram em Pernambuco, no final de novembro. Os corpos foram exumados no cemitério de Santo Amaro e no canavial em Camela foram encontrados um projétil de calibre 38 e uma cápsula de pistola ponto 40. As armas ainda devem ser periciadas.
Festa do barulho
A festa realizada na casa de Tiago Carneiro, em Serrambi, onde as jovens estavam hospedadas, também foi alvo de um inquérito. Oito pessoas depuseram sobre possível uso de drogas e bebidas para menores. O anfitrião acabou sendo indiciado.
Comentários dos leitores
"Gostaria de saber por que o Dr. Miguel Sales ainda não se aposentou
do Ministério Público e, ainda, se ele tem condições
de, caso fique comprovado, que agiu de má-fé nesse inquérito.
Terá ele condições de pagar as despesas arcadas pelo Sr.
José Vieira
e o Estado de Pernambuco, para até agora querer dizer que esses kombeiros
precisavam de mais e mais provas para denunciá-los. É incrível
como foi temerária a atuação do Dr. Miguel Sales, isso sim
precisa ser apurado!", Marcelo, por e-mail
"Não se pode negar que as suspeitas contra os kombeiros são muito fortes, entretanto
há detalhes que deveriam ser analisados: 1º)
Se as meninas saíram para um passeio de lancha, perguntas: A) Quem foram as pessoas
que estavam na lancha; B) Se alguns deles foram interrogados ? C) Por que as
mesmas não
voltaram com os mesmos que estavam na lancha, pois por qual motivo as meninas
não
quiseram retornar com os demais na lancha - muito estranho! D)
E se as mesmas por conta própria
quiseram dar um passeio à deriva.
Quem da lancha acompanhou-as. Honestamenet muito estranho!", Lamartine Bruno
de Araújo e Sá |