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Edição de Sábado, 27 de Dezembro de 2003 
Economia | Miriam Leitão
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ECONOMIA
Miriam Leitão
Vaca no brejo
E-mail: paneco@oglobo.com.br
Parmalat, Nestlé, Paulista e Elegê controlam 60% do processamento do leite no Brasil e impõem ao produtor o preço que querem. Para se ter uma idéia, no mês passado, o preço do leite teve uma queda de mais de 20%. Sem explicação. O comprador faz o preço

A quebra da Parmalat afeta o mercado brasileiro de leite. Ela tem 21% desse mercado e é uma das quatro que controlam o leite no Brasil. Nos últimos anos, houve CPIs em seis estados brasileiros. Os relatórios unificados foram enviados para o Governo, que nada disse. Eles apontavam graves distorções no setor leiteiro que correm o risco de se agravar com a quebra da Parmalat.

  Parmalat, Nestlé, Paulista e Elegê controlam 60% do processamento do leite no Brasil e impõem ao produtor o preço que querem. Para se ter uma idéia, no mês passado, o preço do leite teve uma queda de mais de 20%. Sem explicação. O comprador faz o preço. E esta queda certamente não chegará ao consumidor. A omissão das autoridades de defesa da concorrência permitiu esta concentração na última década: as grandes empresas, como Parmalat, saíram pelo Brasil

comprando pequenos laticínios apenas para fechá-los e liquidar a competição local. O território é dividido entre as maiores. No Rio Grande do Sul, por exemplo, Parmalat e Elegê são 70% doabastecimento de leite.

  Esta concentração levou a mais distorções. Uma delas é a da embalagem. O deputado mineiro Luiz Fernando Faria,

que fez a unificação dos relatórios de todas as CPIs estaduais, conta que a produtora da embalagem do leite de caixinha é uma só: a Tetrapak.

  - É um monopólio. Na época em que fizemos levantamento, o preço da embalagem era o mesmo do produto. Não existe nenhuma outra área em que a embalagem custe tanto quanto o produto, disse o deputado.

  As CPIs de Minas, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Goiás, Mato Grosso do Sul encontraram os mesmos problemas e as mesmas distorções: excesso de concentração e abuso de poder de mercado. Apesar de tudo ter sido enviado ao Cade, à Secretaria de Acompanhamento Econômico e à Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados, não houve respostas.

  O resultado dessa omissão é que, agora, o maior participante do mercado está quebrando e não se sabe como e em quanto isso afetará o produtor e o consumidor. A Parmalat aqui não dá informação alguma. Apenas repassa aos jornalistas as notas que vêm da Itália. O Governo precisa, no mínimo, saber como isso afetará o Brasil, porque é a segunda maior empresa do mercado que tem nas mãos um quinto do abastecimento. Se a Parmalat sair do mercado ou vender ativos, as autoridades de defesa da concorrência precisam estar vigilantes para que a concentração não aumente.

  "Entre 1996 e 2001, foram visíveis as alterações de posições e um aumento significativo do grau de concentração. A Nestlé, que detinha 13% em 96, hoje detém 22%; a Parmalat, que tinha 9%, em 2001 tinha 19%. Outras indústrias foram absorvidas ou fechadas", diz Julio Rodriguez, da Universidade Rural do Rio de Janeiro na tese sobre a competitividade do produtor de pequena escala. Nos últimos dois anos, a Parmalat cresceu. O que ele viu no seu estudo é o mesmo que detectaram as CPIs: a suspeita de formação de um cartel do processamento de leite no país. As duas maiores, Nestlé e Parmalat, fazem parte juntas numa empresa de distribuição.

  A Parmalat não quis nos dizer ontem nem quantos fornecedores de leite tem. Na época do estudo de Rodriguez, em 2001, a empresa tinha 15.500 produtores de leite, e a Batavo, outra de suas empresas, tinha outros 6.800 fornecedores de leite. As empresas, ao estabelecerem suas áreas de atuação, também reduziram fortemente o número de fornecedores, tirando muito produtor do mercado. Ninguém é contra o processo de melhoria da qualidade do leite e, em todos os países, isso provocou uma redução do número de produtores. Porém, em outros países, houve programas de conversão, em que os produtores pequenos tiveram tempo e apoio para atingir as metas de qualificação. Outro problema é o abuso de poder de mercado que nunca foi investigado ou detido pelas autoridades de defesa da concorrência.

  A Parmalat tem seis mil funcionários, nove fábricas, cinco centros de distribuição, está no Brasil desde 77 e, no ano passado, teve receitas de R$ 1,65 bilhão e, em nove meses deste ano, um aumento de 7,8% no faturamento e teve delucro R$ 133 milhões nos primeiros três trimestres, 30% do faturamento líquido. Tem também as seguintes marcas: Santal, Batavo, Glória, Kidlat, Duchen, Etti e Dietalat. Está presente em mais de 30 países, mas a brasileira é a sua maior filial.

  Na defesa da produção de leite de pequeno porte, que vem sendo ameaçada cada vez mais pela concentração do mercado, o estudioso Julio Rodriguez diz que a produção de pequena escala no Brasil "é responsável por 13 milhões de empregos e por quase 50% da produção leiteira" do país, que é de 20 bilhões de litros, a sexta maior do mundo. Ele concorda que a reestruturação do setor ocorreu no mundo inteiro e é inevitável, só que no Brasil "a produção de pequena escala está sendo inviabilizada intencionalmente ou por erro de análise". Foi exatamente o que demonstraram todas as CPIs sem que o Governo demonstrasse estar minimamente interessado no tema, segundo o deputado Luiz Fernando Faria.

  No momento em que o setor é atingido por um abalo desta proporção, é hora de as autoridades responsáveis estudarem o assunto para evitar, ao menos, que as distorções se agravem e que haja falhas de abastecimento.

Comentários dos Leitores
"É isso aí Leitão!!!", Bruno Maia, por e-mail

 
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