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Edição de Sábado, 20 de Dezembro de 2003 
Economia | Miriam Leitão
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ECONOMIA
Miriam Leitão
Celeiro cheio
E-mail: paneco@oglobo.com.br
Nos dados divulgados ontem pelo IBGE, a previsão da safra do ano que vem passa a ser de 130 milhões de toneladas. Em 2003, o Brasil produziu 122 milhões e, no ano anterior, 97 milhões. A área plantada cresce mais lentamente, mostrando o aumento da produtividade

Este ano, o Brasil produziu 25 milhões de toneladas a mais de grãos do que em 2002. E, no ano que vem, vai produzir oito milhões de toneladas a mais do que em 2003. Pelo que o IBGE divulgou ontem, a safra em 2004 será 6,88% maior do que a deste ano. O boom da agricultura continua. "A gente recebe os produtores estrangeiros aqui e eles não acreditam que a gente faz tudo isso sem subsídio", diz o presidente da Sociedade Rural Brasileira, João Almeida Sampaio Filho.

  A agricultura impulsionou o setor de fertilizantes, defensivos e máquinas agrícolas. Este ano, a natureza ajudou, mas o que está mudando o campo brasileiro é o investimento em tecnologia de produção e melhor uso dos recursos, ou seja, produtividade.

  "Tem aumentado muito a área de plantio em Mato Grosso com a redução da área da pecuária mas, por outro lado, estamos exportando muito mais carne bovina. Há dois, três anos, a pecuária racionalizou o uso do solo com técnica de rotação de pastagem e usa menos terra para mais produção", diz João AlmeidaSampaio.

  A Case New Holand, produtora de máquinas agrícolas, teve este ano o melhor da sua história e as concorrentes, como a americana John Deere, maior fabricante mundial de maquinário agrícola, também teve excelente desempenho:

  "Vendemos cerca de 30 mil tratores e 5.500 colheitadeiras em todo o Brasil, o que dá um total de R$ 5 bilhões em vendas. Somando a parte de arados, plantadeiras, nosso resultado fica em torno de R$ 6 bilhões", diz Paulo Herrmann, diretor de marketing para a América do Sul da John Deere.

  "Recentemente, num encontro agrícola, o presidente da Rodobens, Waldemar Verdi, disse que, em 50 anos de trabalho, nunca viu o campo crescer tanto e que a agricultura vai puxar o resto da economia. Porque ela cresce, compram-se mais tratores, o campo produz mais com os novos tratores e, no ano seguinte, a economia precisa de mais caminhões e, depois, o produtor acaba comprando mais carro com o aumento da renda", avalia o presidente da Sociedade Rural.

  O economista José Roberto Mendonça de Barros é outro que circula muito entre produtores rurais e tem evidências deste boom do setor.

  "Este foi um ano especial para fertilizantes porque a valorização do real reduziu o custo da matéria prima usada pela indústria. O crescimento do setor puxou a demanda e eles aumentaram o volume de produção. Tratores, defensivos e processadoras de soja tiveram também aumento de produção e venda - diz o economista".

  José Roberto Mendonça de Barros acha que, no ano que vem, o avanço continua, porque ele também tem a ver com a mudança estrutural que acontece na agricultura brasileira. E os dados mostram que o crescimento do Brasil nesta área é mesmo impressionante:

  "Hoje o Brasil é o terceiro mercado do mundo em maquinário agrícola, mas, sem dúvida, é com o maior potencial de crescimento. A Europa toda é considerada o segundo mercado e os Estados Unidos, o primeiro. A diferença é que nos EUA não há mais para onde crescer a venda de tratores. A melhor perspectiva de crescimento do mundo é a brasileira", diz Paulo Herrmann.

  A John Deere tem duas fábricas no Brasil. Uma em Horizontina (RS) e outra em Catalão (GO). A primeira é considerada a mais moderna fábrica de maquinário do mundo.

  O presidente da SRB dá um exemplo da mudança estrutural que está acontecendo na agricultura, que não tem a ver com uma safra boa apenas:

  "A produção de borracha brasileira perdeu para a da Malásia e Tailândia no século passado. Hoje, o Brasil voltou a produzir borracha natural em grande quantidade e baixo custo em São Paulo e no triângulo mineiro. Os asiáticos não estão entendendo a nossa produtividade", diz João Almeida Sampaio.

  Nos dados divulgados ontem pelo IBGE, a previsão da safra do ano que vem passa a ser de 130 milhões de toneladas. Em 2003, o Brasil produziu 122 milhões e, no ano anterior, 97 milhões. A área plantada cresce mais lentamente, mostrando o aumento da produtividade. Os números do IBGE mostram que o boom não se esgotou este ano e que o País tem ficado cada vez mais produtivo.

  "No Brasil, a agricultura vai bem,e a questão agrária vai mal", diz o presidente da SRB. Ele não está preocupado com o fato de haver uma reforma agrária aqui, mas sim com a ineficiência e falhas desta política.

  Para a maioria das culturas, a previsão do IBGE é de aumento no ano que vem de área plantada e produção. E, no balanço que está semi-pronto este ano - falta colher uma parte do trigo - o resultado positivo é quase geral.

  "Quem não foi muito bem foi apenas o café. Em 2002, tivemos grande safra com preços baixos, faltou dinheiro no campo. Este ano, a safra foi menor. O pessoal do café especial está melhor. Nos próximos dois anos, acho que o preço se recupera um pouco - diz o presidente da SRB.

O que o café precisa é que seja vendido produto com maior valor agregado, e isso está acontecendo muito lentamente.

  "Antes, sempre se dizia que tudo ia bem menos o café com leite, este ano até o leite melhorou", complementa João Almeida Sampaio.

  Os dados do IBGE, de fato, mostram que, no terceiro trimestre, aumentou em 6,3% a produção e a industrialização do leite.

  Mas o mais importante da previsão de safra divulgada ontem é que ela confirma um fato raro na agricultura que é a repetição de safra boa. Para o ano que vem, Paulo Herrmann acredita que já tem duas boas colheitas contratadas: a do final de janeiro e a de abril e maio. Isso porque as chuvas estão ajudando o trabalho do campo brasileiro.

 
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