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Arte seqüencial também é jornalismo
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Editora Conrad lança no Brasil novo volume da reportagem quadrinizada sobre conflito Israel-Palestina |
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O hispano-americano Joe Sacco ajudou a popularizar no mundo o chamado jornalismo em quadrinhos, graças a suas incursões pelo Oriente Médio. Palestina, Nação - Ocupada, lançado no Brasil pela Editora Conrad, em 2000, reportagem gráfica sobre o conflito entre judeus e palestinos, conquistou prêmios internacionais importantes e simpatias de leitores pouco afeitos ao universo das HQs, como o historiador e escritor americano de origem palestina Edward W. Said, que assina o prefácio de Palestina - Na faixa de Gaza, livro que a mesma Conrad agora lança no Brasil.
Sacco colheu material para essa série no final de 1991 e início de 1992, no auge da primeira Intifada (levante popular palestino), quando passou dois meses em Israel e territórios ocupados, tomando nota em seu caderninho, entrevistando pessoas comuns e fotografando o recrudescimento da ação militar israelense. Vale dizer que o momento atual é distinto do denunciado no livro, mas não menos delicado: as forças de Israel retiraram-se de algumas áreas ocupadas e a Autoridade Nacional Palestina de Yasser Arafat foi temporariamente instalada, mas o tempo fechou novamente, em 2000, com a segunda Intifada (já foi iniciada a construção de um muro cercando Israel e os territórios ocupados).
Uma história de privações, violência e dor, sem perspectiva de armistício. Jornalista de formação, o autor de Palestina não se furtou à análise política que a situação exigia e, talvez por isso mesmo, tenha criado uma graphic novel sem precedentes. Em Na Faixa de Gaza, Sacco relata seus dias no maior campo de refugiados palestinos, um dos lugares com maior densidade populacional do mundo, com uma narrativa carregada de emoção, oferecendo aos leitores "uma janela grande o suficiente para um povo cujo sofrimento e destino têm sido ignorados por tempo demais", nas palavras de W. Said.
PRIVAÇÃO - Sua reportagem inclui um tragicômico guia de viagem, mas o humanismo da obra é desconcertante. Ele não mede palavras (nem imagens) para mostrar a crueza da vida de palestinos privados de quase tudo: paredes para o banheiro, emprego, perspectiva de vida. Curioso observar como os adolescentes, a quem o autor dedica quatro capítulos do livro - e guardadas as proporções -, são aliciados por facções rivais para ingressarem nas milícias armadas (de paus, pedras e bombas caseiras) palestinas, como os jovens brasileiros das favelas.
É preciso estômago para ler numa tacada só esse gibi sem final feliz. E quem ninguém pense se tratar de um manifesto, puro e simples, pró-Palestina (as contradições do outro lado também estão lá). Trata-se de uma história baseada em fatos: não é a Palestina que se vê na televisão. Inspirado pelo new journalism, de Hunter S. Thompson e John Reed, o autor é o precursor do comics journalism, e desde seu Palestina, vem sendo escalado a outras reportagens para clientes como a Time Magazine.
ESTRÉIA - Como a grande maioria dos cartunistas no Mundo, Sacco iniciou sua carreira como artista gráfico fazendo ilustrações para posters de rock, capas de discos e co-editou o jornalPortland Newspaper Press. Pela Fantagraphics debutou no jornalismo em quadrinhos com a história Natal com Karadzic, baseada nos meses em que passou na Bósnia. A mesma experiência serviu de pano de fundo para Área de Segurança -Gorazde, no qual relata as privações que a população de maioria muçulmana da cidade de Gorazde sofreu durante a guerra na Bósnia Oriental (de 1992 a 1995).
Em Palestina - Na Faixa de Gaza Joe Sacco mantém-se fiel ao seu próprio estilo, através de desenhos que complementam, de forma particular, a atmosfera opressora das histórias - algo só possível na linguagem dos quadrinhos. A alma do conflito Israel- Palestina, está lá. A última seqüência do livro, quando o autor está partindo de Israel num ônibus para o Egito e o motorista se perde entre os assentamentos e campos de refugiados, é quase uma metáfora, não fosse uma realidade. (Lydia Barros)
Serviço
Palestina - Na Faixa de Gaza 160 páginas R$ 33,00
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