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Edição de Domingo, 14 de Dezembro de 2003 
Mundo | Crianças são maiores vítimas de guerra
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MUNDO
Crianças são maiores vítimas de guerra
Economista da Chechênia apresenta casos dramáticos de menores que morreram ou ficaram órfãos
BERLIM - A ONG Sociedade dos Povos Ameaçados vai entregar ao governo alemão, em Berlim, e à União Européia, em Bruxelas, na próxima quinta-feira, um documento sobre os crimes contra os direitos humanos praticados na Chechênia e sobre as crianças vítimas da guerra que já causou 160 mil mortos. A documentação foi elaborada por Sainab Gachayeva, uma economista de 50 anos, de Grozny, que no início do conflito largou a profissão para se dedicar aos órfãos da guerra, ao todo 50 mil crianças. "As crianças são as maiores vítimas da guerra e continuam sofrendo, apesar das mentiras do governo russo de que a Chechênia está se normalizando" diz Sainab. Ela mandou os seus quatro filhos viverem com parentes em Moscou para se dedicar aos órfãos da guerra, crianças com membros amputados em conseqüência de ferimentos causados por minas terrestres ou traumatizadas com a perda dos pais. "Os casos mais dramáticos são os das crianças que morreram vítimas de tiros dos russos" lembra a chechena.

  A lista de crianças vítimas da guerra documentada por Gachayeva é grande. Ela relata o caso de três crianças, de 2, 9 e 10 anos, que foram gravemente feridas por tiros - intencionais, segundo acusações - disparados por militares russos. Para os seus projetos com crianças chechenas, Sainab recebe doações de vários países europeus. Ela construiu em Grozny e arredores abrigos para crianças e mulheres desamparadas em conseqüência da guerra. Porém, para ela, o mais difícil é prestar ajuda espiritual. "Sobretudo as mulheres que perderam os maridos no conflito têm vivido ultimamente em estado de choque" disse, referindo-se aos atentados suicidas que têm sido praticados desde o ano passado por mulheres chechenas.

  Entre os órfãos de Sainab, há três crianças de um casal que morreu em circunstâncias dramáticas. A família Magomedov vivia numa casa grande em Grozny: os avós Aset e Mussa, com os dois filhos, Ali e Arsen, bem como a mulher e os três filhos de Ali. A mulher deste morreu logo no início da guerra. Em julho do ano passado, durante um ataquede helicópteros, Mussa foi ferido quando estava no jardim. Ali foi ajudá-lo e morreu com um tiro. Os três filhos, de 5 a 10 anos, vivem hoje entre o abrigo de Sainab e a casa semidestruída dos avós.

  A jornalista russa Anna Politkovskaya, a primeira a relatar na Imprensa da Rússia as atrocidades cometidas pelas tropas do Kremlin na Chechênia, acusou o Ocidente de aceitar tudo o que condena para proteger seu aliado, o presidente Vladimir Putin. Segundo ela, os russos praticam na Chechênia "tortura e execuções e destroem tudo sem nenhum escrúpulo com a população chechena". A tese de Politkovskaya é que as autoras dos atentados esquecem os próprios filhos para, em um ato de desespero, vingar com atentados suicidas os seus maridos mortos. Ela chama as terroristas de "viúvas negras".

  Segundo Sarah Reinke, da Sociedade dos Povos Ameaçados, da Alemanha, que apóia os projetos de Sainab, entre as crianças órfãs amparadas pelas ONGs há também filhos de autoras de atentados suicidas. "Por trás de cada atentado, há uma história longa e trágica" lamenta.

 
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