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Edição de Domingo, 14 de Dezembro de 2003 
Esportes | Rivaldo quer apenas poder jogar futebol
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ESPORTES
Rivaldo quer apenas poder jogar futebol
Esquecido no Milan, craque da Seleção procura um novo time
SÃO PAULO - O maior jogador do Mundo no ano de 1999, campeão mundial e um dos melhores jogadores da Copa de 2002, atual titular incontestável da seleção de Carlos Alberto Parreira está isolado em sua solidão. O pernambucano Rivaldo, aos 31 anos, tem hoje um só sonho: quer ir para um clube no qual possa dar seus chutes mortais com a perna esquerda, suas arrancadas espetaculares. Enfim, o craque que se desiludiu no futebol italiano quer hoje apenas jogar bola.

  Rivaldo está de volta ao Brasil depois de romper seu contrato com o Milan, dia 29 de novembro. A iniciativa foi sua. Foi ele que procurou o presidente do clube, o todo poderoso Silvio Berlusconi, para pedir para sair. Esquecido pelo técnico Carlo Ancelotti, Rivaldo não suportou mais ficar sem jogar. Seu pedido foi aceito, as duas partes se despediram de modo altamente civilizado. Ancelotti elogiou o profissionalismo do atleta. O porta-voz do Milan deu a desculpa de que ele não se encaixava no esquema tático da equipe.

  Rivaldo curte agora o sossego entre Paulista - onde mora a família - a pacata Mogi Mirim, no interior de São Paulo, onde estão os filhos. Foi Mogi a cidade que o acolheu depois que deixou o Santa Cruz. Foi no simpático "Sapão", o apelido do Mogi Mirim Esporte Clube, que ele formou trio inesquecível com Valdo e Leto, no "carrossel caipira", em 1993. Depois vieram Corinthians, Palmeiras, La Coruña, Barcelona, Milan, o Mundo, enfim. Encerrado o ciclo de glórias, tudo leva a crer que Rivaldo vai partir para uma nova fase em sua carreira.

  Os dias que está passando no Brasil, ao lado dos filhos Rivaldinho e Thamyris, certamente servirão para que ele decida o seu destino. É provável que Rivaldo se aventure no futebol inglês, mas também pode voltar ao Brasil. Os dois antigos Palestras - Cruzeiro e Palmeiras - estariam interessados em repatriá-lo. Um sonho? Na verdade, um mistério que talvez seja revelado pelo próprio Rivaldo, que promete, ainda nesta semana, quebrar seu isolamento e falar à Imprensa.

 Futuro

Rivaldo muitas vezes já manifestou a vontade de encerrar a carreira. Não se dá muito bem com as críticas. Suas exibições pela Seleção Brasileira nem sempre receberam elogios. Nessas horas, escolhe o silêncio como resposta. Nas poucas ocasiões em que fala é monossilábico. Segue na contramão dos astros de futebol: não tem assessores pessoais, como a maioria dos jogadores e dá pouca importância a ações de marketing. Deixa seus negócios nas mãos de Carlos Arime e José Carlos Lages.

  Entre esses negócios estão as propostas dos clubes ingleses, que desta vez pode não hesitar em aceitar. Em 1999, recusou salários de US$ 413 mil para defender o Manchester United. Hoje, por menos, pode defender Chelsea, Liverpool, ou o próprio Manchester. Além da perda financeira, passaria a atuar em um campeonato sem grande visibilidade como o Espanhol ou o Italiano.

  Mas para quem agora está mais interessado apenas em jogar futebol, a estratégia pode não ser a mais certa. O Liverpool, grande potência inglesa em anos passados, tenta retomar o caminho de grandes títulos. A cobrança seria grande. No Manchester, estaria em um clube acostumado a conquistas e recheado de estrelas. Poderia acabar na reserva, repetindo a novela recente vivida no Milan. No Chelsea, do multimilionário Roman Abramovich, Rivaldo faria parte de um projeto semelhante ao do Palmeiras na era Parmalat. Teria bons companheiros, como Petit, Makelele, Verón, Crespo e a chance de retomar o caminho de conquistas. Resta saber se sem ser muito pressionado.

 Talento precoce

Os primeiros chutes a gol de Rivaldo foram dados no futebol de várzea, nos times da Vila Chesf e no Paulistano, da pequena Paulista, vizinha de Recife. Aos 11 anos, seu pai o levou para fazer testes no Santa Cruz. Mário Santana, sargento reformado da PM foi seu primeiro técnico. Atuando de centroavante, acabou bicampeão do time de juniores. O salário na época: R$ 50,00 por mês, o que dava apenas para ajuda de custo.

  Suas atuações pela equipe de juniores do time pernambucano na Taça São Paulo de 1992 chamaram a atenção dos dirigentes do Mogi Mirim. Transferiu-se para o interior paulista. Fez parte do "carrossel caipira", ao lado de Leto e Valdo, sob o comando de Oswaldo Alvarez, o Vadão. No ano seguinte, defendeu o Corinthians. Depois de belas exibições, queria um reconhecimento. Entenda-se aumento: R$ 40 mil mensais.

  Não houve acordo e ele acabou no Palmeiras de Vanderlei Luxemburgo e da Parmalat. Seu futebol cresceu. Colecionou gols, títulos e acabou sendo recompensado com a ida à Europa. O Deportivo La Coruña, para o qual foi negociado em 1996, foi o destino inicial. Na verdade, apenas trampolim para a Seleção Brasileira e o poderoso Barcelona.

  Dono de dribles variados, arrancadas poderosas e passes perfeitos, virou sinônimo de conquistas: Copa do Rei, bicampeonato espanhol e melhor jogador do Mundo. Rivaldo fez de tudo para apagar a mancha pela perda do título de campeão da Copa do Mundo para a França, em 1998. A recompensa viria quatro anos mais tarde, em 2002, diante da Alemanha. Precisamente na manhã de 30 de junho no Brasil - ou noite em Yokohoma, no Japão. Os dois gols de Ronaldo não ofuscaram uma campanha impecável, digna de um astro de primeira grandeza.

 Inferno astral

Mas depois da Copa, Rivaldo começou a viver seu inferno astral. O Barcelona resolveu recontratar o técnico Louis Van Gaal, seu antigo desafeto. Foram meses de discussões, trocas de acusações, que culminaram com a rescisão de contrato.

  O acerto com o poderoso Milan parecia resolver de vez seus problemas, mas Rivaldo novamente teve seu caminho bloqueado por um treinador, Carlo Ancelotti. Apesar de se mostrar simpático, bem diferente de Van Gaal, Ancelotti também não se entusiasmou com o futebol do craque brasileiro. Depois de um início de temporada como titular, foi perdendo espaço no time. A contratação do jovem Kaká indicava que seus dias no Milan estavam contados. Chegou a anunciar sua saída do clube, no fim de setembro.

  Dias depois, mudou de opinião. Mas a solidão da reserva falou mais alto. Deixou Milão, passou por Barcelona, onde reviu seus amigos, e voltou ao Brasil. Um ciclo se completou.

 
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