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Edição de Domingo, 14 de Dezembro de 2003 
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Verissimo
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Não vai pegar bem
Havia uma lógica perfeitamente racional por trás do muro de Berlim. Seus idealizadores tinham motivos defensáveis para construir uma barreira que impedisse a população inteira de Berlim Oriental - na qual, afinal, o governo comunista investira tanto em educação e saúde - de passar para Berlim Ocidental, onde se instalara uma vitrine fulgurante e irresistível das delícias do capitalismo. Pode-se imaginar o desprezo com que seria recebida, entre os burocratas do leste, a observação de que os benefícios pragmáticos e a longo prazo do muro não compensariam o desgaste simbólico que ele traria, que a má impressão derrotaria qualquer justificativa - enfim, que o muro não pegaria bem. Na discussão entre as várias correntes, se é que houve alguma, a frase "o fim justifica os meios" deve ter sido muito repetida para defender o muro, e ninguém se lembrou de mandar buscar a proverbial criança de três anos do Groucho Marx para enxergar o que os adultos não enxergavam. O muro foi, pior do que um crime, um erro. Um desastre de relações públicas. E o que parecia ser o seu efeito mais abstrato, e portanto desprezível, foi o que valeu, no fim. Não por acaso, a queda do muro de Berlim simbolizou o desmoronamento da opção comunista. O que foi erguido como uma imposição do real caiu como símbolo, e o símbolo levou o real junto.

  Não sei, enquanto escrevo, que destino o PT dará a seus rebeldes. As razões para expulsá-los são perfeitamente racionais. Disciplina partidária, união por propósitos finais mesmo ao custo de alguma resignação passageira e outros benefícios pragmáticos a longo prazo. Mas que vai pegar mal, vai. No plano simbólico - aquele que que não tem nada a ver com duras decisões políticas, mas costuma prevalecer sobre a realidade e até derrubar impérios, ou pelo menos a empáfia de quem o desdenha - o que vai ficar é que um dia o PT baniu os seus mais combativos e coerentes. Não os quis nem como excêntricos nem como amáveis lembranças do que foi um dia, nem sequer como práticos antídotos caseiros para o perigo de se pessedebizar demais e esquecer o que foi fazer em Brasília.

  Não sei o que aconteceu na reunião do PT, mas espero que a criança de três anos tenha chegado a tempo.

 
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