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Edição de Quinta-Feira, 11 de Dezembro de 2003 
Economia | Miriam Leitão
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ECONOMIA
Miriam Leitão
O conselheiro
E-mail: paneco@oglobo.com.br
Tarso Genro começou o ano debaixo de controvérsias sobre o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. Ao fim de um ano, o balanço é favorável ao ministro. Não fez sombra ao Congresso e foi um espaço de interlocução. Houve muita crítica à política econômica, mas o ministro acha que isso é normal

O ministro Tarso Genro não participará da reunião do diretório do PT que vai julgar a filha dele, a deputada Luciana Genro. Acha que a extrema-esquerda não tem espaço no Brasil. Acredita na possibilidade de aliança futura com o PSDB. Disse que o PT atendeu à demanda da sociedade por estabilidade. Sobre as criticas dos intelectuais do partido, ele disse que "a responsabilidade do Governo não é com a intelectualidade.

  Numa entrevista que me concedeu na Globonews, Tarso Genro falou de política, do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, das criticas à política econômica e da filha.

  "Não quero estar na reunião por razões óbvias, porque quero preservar a relação estrutural de pai. Não vou julgar minha filha", afirmou o ministro, que, no entanto, deixou claro concordar com a postura do partido e disse que ela conhece as conseqüências da posição que assumiu.

  "Temos uma relação amorosa profunda e pensamos diferente", disse e elogiou a correção e seriedade da deputada. Garantiu que nada disso afeta a relação com a filha, mas admitiu que os almoços de domingo são animados pelo debate e pelas provocações.

  Quando quis saber que futuro político ele via para a filha, Tarso Genro preferiu fazer uma análise política. "Se você quer saber que chance tem a extrema esquerda de empolgar o Brasil, não muita, na minha opinião".

  Sobre as transformações do PT ao chegar ao poder, abandonando antigas convicções, ele disse que se esperava que o PT fizesse um governo de esquerda, mas as coalizões o levaram a ser um governo de centro-esquerda. Segundo Tarso Genro, este foi o recado que a população passou com o segundo turno:

  "O recado do segundo turno foi que ampliássemos a coalizão. A população nos disse isso. Nós não negamos o programa; readequamos nosso programa". O ministro diz que o Governo tem que ouvir as criticas dos intelectuais porque eles são a "antena da sociedade", mas ressalva:

  "Nosso compromisso não é com a intelectualidade, mas com toda a sociedade. Ele defende a política econômica como parte do atendimento a esta demanda da sociedade pela ampliação do programa e pela manutenção da estabilidade:

  "Mesmo com este custo. Se compararmos com outros países que tiveram queda do PIB de 7%, 8%, concluímos que a equipe do Meirelles e do Palocci, orientada pelo presidente, fez o ajuste seriamente. Este ano vai ser de estagnação, de crescimento nulo, mas criamos a condição para a retomada no ano que vem. Se tivéssemos outra atitude, a insegurança que isso geraria, a crise, poderia nos levar a ter uma queda do PIB como a da Venezuela, que foi de 15%, a partir de uma visão rupturista. A questão de ruptura ou evolução é um conceito fundamental para se saber como deve ser tratada a questão pública, e o Governo demonstrou que está tratando corretamente".

  Segundo o ministro, é possível uma aliança com o PSDB. "O PSDB não tem uma posição só. Há setores que têm pontos em comum com a posição do partido, que combina estabilidade econômica com crescimento. Acho que a grande coalizão política de sustentação de um novo contratosocial ainda não está terminada. Vejo como possibilidade; não entrar no Governo, não estou falando disso, mas este novo contrato deve incluir num futuro próximo setores do PSDB. Se vai haver coalizão no futuro, eu não sei, mas não vejo nenhuma impossibilidade de que façamos ajustes políticos com setores do PSDB, do PMDB que queiram crescimento econômico, política industrial, controle político do Estado e inclusão social. Não estou falando hoje de coalizão política, mas sim de uma nova relação política estratégica do País que, no futuro, pode sim determinar algum tipo de coalizão política".

  Tarso Genro começou o ano debaixo de controvérsias sobre o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. Ao fim de um ano, o balanço é favorável ao ministro. Não fez sombra ao Congresso e foi um espaço de interlocução. Houve lá muita crítica à política econômica, mas o ministro acha que isso é normal porque reflete o desconforto de um ano difícil mesmo em que houve muitas tensões na sociedade. Tarso Genro admite que hádesequilíbrio na representação da sociedade composta no Conselho.

  "No começo, muitos diziam que havia paulista

demais e era verdade. Aos poucos, foi mudando a composição. Há sim muito mais empresários do que trabalhadores, mas o governo Lula precisava de mais espaço para dialogar com os empresários", disse ele.

  Com sua experiência de advogado trabalhista, o ministro acha que o Brasil precisa de uma reforma da legislação trabalhista que fuja de dois modelos. "Da visão atrasada da flexibilização e da dogmática de manutenção de CLT. É preciso entender o novo mundo do trabalho que emerge e jogar sobre ele normas modernas, que englobem as novas normas contratuais de trabalho".

  Ele organizou os trabalhos no conselho em níveis de concordância. Leva tudo ao presidente, mas indica o que é opinião à parte, o que é recomendação e o que é consenso. Acha as críticas aos juros altos normais e disse que isso aconteceu na sociedade em geral. E o próximo desafio agora é definir uma política industrial. Perguntei se nãohá o risco de favorecimento dos setores que estão lá. O ministro disse que o interesse particular não está sendo levado "ao ouvido do príncipe", mas ao debate público.

 
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