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Edição de Quinta-Feira, 11 de Dezembro de 2003 
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Que coisa bonita
Luis Fernando Verissimo

"Ah, que coisa bonita" foi um dos cantos ouvidos na missa deste domingo da Igreja do Rosário dos Pretos de Salvador, um dos últimos eventos do Mercado Cultural que se realizava na cidade e este ano chegou à sua quinta edição. A missa na igreja construída pelos negros para os negros de Salvador une liturgia católica e música afro-brasileira e é uma celebração adequada ao evento, que também mistura culturas e épocas, surpreende pelo arrojo e a criatividade e é uma coisa muito bonita.

  O Mercado, uma iniciativa do Instituto Casa Via Magia de Salvador com a parceria do Ministério da Cultura, do Sebrae, do governo da Bahia, da Petrobras e da Ford Foundation, entre outros, serve como amostra de talentos nacionais para produtores culturais estrangeiros e talentos internacionais para produtores culturais brasileiros, também está aberta ao público a preços baixos e, entre artistas conhecidos e desconhecidos (pelo menos para mim) da música, da dança e do teatro do Brasil e do mundo, apresenta uma variedade e uma qualidade sempre empolgantes. E com uma organização e eficiência que desmentem todos os mitos conhecidos sobre a Bahia.

  Este ano, entre o teatro Castro Alves e vários outros locais da cidade, inclusive o Pelourinho, fomos de Lenine ao uruguaio Leo Masliah, um ótimo pianista e humorista que faz coisas como contar a história do Chapeuzinho Vermelho contra o fundo de uma fuga de Bach e cantar "Unforgetable" (ou era "Embraceable you"?) usando apenas as consoantes, do grupo cubano "Los jubilados", com a idade somada de alguns séculos, ao grupo pernambucano Comadre Fulozinha, do Guinga - só ele no violão (tocando, entre outras coisas, "Senhorinha", certamente a música mais bonita feita no Brasil nos últimos anos), Paulo Sérgio Santos no clarinete e (surpresa) o portoalegrense Jorginho, um dos grandes músicos do país, bairrismo à parte, no trompete - aos alagoanos do Xique Baratinho, passando pelo Jongo da Serrinha, do Rio de Janeiro e pelo ballet da Cia. Au Ments, das Ilhas Baleares.

  E só o que se igualou, em sonzão e pegada, à Luckman Jazz Orchestra de Los Angeles tocando Mingus, Ellington e Jobim, foi a poderosa Orquestra Spok Frevo do Recife, que passa de Vassourinha a Chico Science sem deixar cair uma nota. Louvados sejam o Rosário dos pretos e todos os milagreiros baianos.

 
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