Cinema
Júlio Cavani
Da equipe do DIARIO
Ao contrário dos personagens de Lisbela e o Prisioneiro, os moradores de Paudalho não possuem um cinema perto de casa. Filmado no município da Mata Norte, o filme de Guel Arraes foi exibido ao ar livre no sábado numa praça da cidade, onde há pessoas que nunca haviam ido ao cinema. A sessão se tornou um evento ainda maior por causa da presença do mito Caetano Veloso, que aplaudido cantou o refrão de Você Não Me Ensinou a Te Esquecer antes do início da projeção.
"Já passei pela frente do São Luiz, mas nunca entrei", respondeu o paudalhense José Ricardo Cavalcanti, de 33 anos, ao ser perguntado se já havia ido ao cinema. A sessão do sábado corre o risco de ser a primeira e a última de sua vida, a não ser que se concretize a restauração do cine-teatro municipal, que está na lista de reformas da Fundarpe para casas de espetáculos do interior.
A sessão só começaria às 19h30, mas à tarde já tinha gente chegando na praça para observar a montagem da megaestrutura de projeção esom. A aposentada Raminha Fidelis, que há mais de 20 anos não assistia a um filme no cinema, levou consigo o pequeno Guilherme Henrique, de 4 anos, que também nunca havia sido colocado diante de uma tela grande. Perto dali, um grupo de garotas ansiava por pegar um autógrafo de Caetano.
O evento teve seu objetivo alcançado, atraindo cerca de 10 mil pessoas segundo a Fundarpe, todas muito atentas e em silêncio durante a projeção, apesar das falhas técnicas que interromperam a sessão duas vezes. Ao ver seu filme trepidando diante da multidão, o próprio Guel Arraes arregaçou as mangas, vestiu seus óculos e foi ao projetor tentar resolver o problema pessoalmente, preocupado com a reprodução de sua obra.
Descobriu que a falha não tinha solução, pois o equipamento estava com defeito, e que também era impossível evitar o excesso de claridade na imagem, inconveniente causado pela luz natural da praça e pela insuficiente potência da lâmpada do canhão de luz. O diretor também mudou de posição várias vezes em meioà platéia, para checar o ponto de vista de todos (quem estava mais longe da tela assistiu melhor).
Antes do filme, o cineasta falou com os jornalistas ao lado de Caetano Veloso, Paula Lavigne, Virgínia Cavendish e Lívia Falcão, que informaram que o Cine São Luiz foi a sala onde Lisbela e o Prisioneiro obteve maior público no Brasil. "É de grande força política o fato de as pessoas do Brasil se reconhecerem na tela", complementou Caetano, que confessou "adorar Lisbela sobretudo por ser um grande filme que fala do amor."