Baluarte da liberdade
A liberdade de Imprensa é um dos principais sustentáculos da democracia e do Estado de Direito. Em conseqüência, a Imprensa torna-se geralmente a primeira vítima dos regimes autoritários e atrai a ira dos poderosos do dia. A Imprensa livre é um poderoso instrumento de fiscalização e, por isso mesmo, um ingrediente indispensável nas sociedades democráticas.
Essas considerações são feitas a propósito do aniversário do DIARIO DE PERNAMBUCO, que hoje completa 178 anos. Fundado apenas três anos depois da Independência do Brasil, a 7 de novembro de 1825, o DIARIO confirma ano a ano o mérito de ser o jornal mais antigo em circulação na América Latina. Nesse contexto, o jornal acompanhou e participou, desde o período Imperial, do surgimento e da evolução das principais instituições na Nação, ostentando outra singular legenda: é a mais velha publicação no Mundo editada em língua portuguesa.
A dedicação permanente à causa das liberdades rendeu alguns processos judiciais ao fundador do jornal, Antonino José de Miranda Falcão. Não apenas seus dirigentes e profissionais sofreram perseguições ao longo da história, o próprio jornal já foi vítima da intolerância, como durante o governo ditatorial de Vargas. Mas nenhum tipo de pressão ou adversidade levou o DIARIO a se afastar dos seus ideais de defesa do Estado de Direito, das liberdades públicas, dos interesses e valores da economia e da cultura de Pernambuco.
O DIARIO está vinculado à própria história do jornalismo brasileiro. Por sua redação passaram nomes ilustres, a começar por Assis Chateaubriand, fundador dos Diários Associados, entre os quais se encontra o nosso jornal. Podemos citar ainda os nomes de Artur Orlando, Carlos Lira Filho, Gilberto Freyre, Mauro Motta, Nereu Bastos, Costa Porto, Aníbal Fernandes, Antônio Camelo e João Calmon, que também estiveram à frente deste matutino em diferentes épocas.
A trajetória do DIARIO prossegue com os mesmos objetivos de quando o jornal foi criado, de ser um estimulador dos negócios e veículo de informação para todos ospernambucanos, além de porta-voz das aspirações coletivas. No plano nacional, o DIARO sempre esteve engajado na defesa das causas relevantes para Pernambuco e para o Nordeste. Sua conduta isenta e equilibrada na abordagem de assuntos conflitantes propiciou-lhe reunir um importante patrimônio de credibilidade.
Vários eventos vão marcar o aniversário de 178 anos do DIARIO DE PERNAMBUCO. Um dos principais foi a solenidade realizada ontem na qual personalidades ilustres do Estado receberam homenagem e o troféu "Orgulho de Pernambuco".
Saudade e consagração
Marcos Vinicios Vilaça
INTEGRANTE DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS E MINISTRO DO TCU
A perda do filho não fez com que os pais diminuíssem o contacto com a superfície da realidade. Isto seria uma fuga. Não a praticaríamos. No mais longínquo das nossas convicções está a esperança do que virá a ser o reencontro na Parusia. Nas leituras purgatoriais a que nos impusemos, Maria do Carmo e eu, assistidos pelos filhos, aprendemos nas lições vindas de muitos, de que partem cedo aqueles que Deus escolhe. Tudo isto não retira do nosso coração o sangramento da saudade. Nada cicatrizou. As lágrimas, que fisiologicamente ajudam a sarar, neste caso parecem arranhar mais ainda o que arranhado para sempre está. Não descremos, entretanto, do padre Antônio Vieira ao dizer que os olhos que choram na terra verão nos céus. Aos nossos ouvidos Vinícius de Morais é quem canta sem cessar: "Tristeza não tem fim / Felicidade, sim."
Mas, na hora em que se inaugurou o Espaço Cultural Marcantonio Vilaça era dia de lágrimas medidas e misturadas. Poucas, por não se poder evitá-las de todo. Misturadas, pois também são de conforto. Toda a família esteve lá, honrada com o gesto da colegialidade no qual os ministros do TCU, sob a inspiração determinada e determinante de Valmir Campelo, puseram Marcantonio aqui e para sempre. O Espaço Cultural é, em si mesmo, uma obra de arte, naquele entendimento de Bergson de que na arte não há outro propósito senão descartar generalidades convencional e socialmente aceitas.
Marcantonio que, certamente, continua por aí com os calcanhares de curioso a freqüentar galerias de arte, estará feliz. Ainda mais, lendo a legenda que a ele dedicou o presidente Valmir Campelo, inserida no pórtico do Espaço Cultural: "Marcantonio fez da vida uma oração à arte e da arte, um ato de fé. Desfez-se como uma estrela e nos deixou o clarão de seu talento imortal".
O presidente do TCU, os ministros, o Ministério Público e os servidores, estes, por continuada manifestação de apoio que também tanto nos distingue, mostraram originalidade nos procedimentos e reafirmaram capacidade emotiva nos gestos. O homenageado dequela noite praticou a clareza no agir sem desembocar no simplismo complacente. Minimizou o que não escolheu e maximizou o que elegeu como preferência. Nunca se satisfez em apenas ser livre. Queria saber para que finalidade ele era livre.
O homem é do tamanho do seu sonho. Por isso, intensificou o cotidiano dos pais e dos amigos. Por isso, vivemos em busca da estrela cintilante, sua magia perdida. Temos dele, "saudade de idéias e saudade de coração".
Marcantonio preferia em vez de aceitar convocações, atender às suas convicções. Tinha a coragem da franqueza e um olhar de sementes abertas. Temperamento forte, incomodou o silêncio da mesmice. Acreditou na arte contemporânea pois sabia que não avançar é conceder ao risco da permanência no epicentro do nada. O modo e a forma óticas com que o artista encarou e replicou a realidade faziam a sua cabeça. Foi um crente de que a arte não é só o material. É, sobretudo, a idéia do artista. Desconhecer e desvalorizar a arte contemporânea, ele o provou, é pobreza de espírito dos inquilinos da anorexia intelectual.
Marcantonio encarou o novo como acréscimo, não como obstáculo, algo que alterando trajetórias oferece a possibilidade de conhecer mais. Como ensinou Mario Pedrosa, a arte é o exercício experimental da liberdade. Assim, o que vemos não é o que vemos, é o que somos. E tudo isto porque não é necessário enclausurar a tradição como fonte de melancolia. Antes, há que fazê-la fonte produtiva.
Na arte contemporânea são propostos jogos de percepção visual ou táctil em que peças se ajustam às dificuldades do espaço e sugerem investigação filosófica inserida na criação plástica. A pintura, a instalação, o vídeo, a escultura são para dar prazer, para permitir o vôo da liberdade, deixando surgir nelas tudo que existe na concentração de emoções, inclusive, com a sua materialidade a suprir, por exemplo, o abstrato de algum poema. A esse propósito, Gao Xing-jan (La Montagne de l´âme) diz claramente que o papel desse tipo de arte é o de ocupar espaço onde a palavra não é adequada forma de expressão.
Aos presentes ao ato inaugural de 5 de novembro, fiz questão de expressar que uma Corte de Contas não poderia admitir que algo fosse criado sem cânones. Assim seria a anarquia e criar a partir do caos é tarefa reservada a Deus. Por empenho pessoal do presidente Valmir Campelo e endosso dos seus pares, buscou-se respeitar a teoria da qualidade na res publica, seja nos aspectos materiais do Espaço Cultural, seja na operação programática a cargo de Regulamento rígido, seja na composição de um Conselho Curador de primeira ordem, seja na consciência de que não devemos fazer concessões à culturocracia de culturocratas.
Qualidade é dever ético da administração. Assim entendemos nós, que naquela Corte cumprimos um serviço de Estado. Ali é igualmente bem compreendida a lição de João Paulo II: "A Nação só existe através da Cultura e para a Cultura". O Espaço Cultural deseja cultivar a aura sensível do visível que, afinal de contas, é o que deve emocionar-nos.
Disse aos Ministros do TCU que o pernambucano é forjado no sentimento de que só deve se curvar, se for para agradecer. Pois os Vilaça, Maria do Carmo, Rodrigo Otaviano, Taciana Cecília e eu à frente, estávamos curvados. Curvados para agradecer.
Curvados e agradecidos também à Empresa dos Correios e Telégrafos pelo lançamento do selo comemorativo da data de hoje, oportunidade que se abre ao colecionismo e consagra as tantas internacionalidades do nome de Marcantonio, sem esquecer ter sido ele um filatelista, um seu tanto especializado nos temas de flora e fauna.
E, por fim, fiz questão de dizer que Marcantonio foi expressão da ética e esbanjava domínio da estética. Não buscava a aventura como um entediado das horas. Vingava-se com mordacidade impiedosa, no humor refinado, diante do que fosse medíocre. Deve estar feliz, por seu nome enlaçar quem cuida da ética e quem sabe aproveitar a oportunidade para apoiar a estética.
O vento marinho da praia da Boa Viagem, no Recife, em fim de tarde, começo de noite, de 1º de janeiro de 2000,lançou-nos ondas de maresia como se fossem lágrimas oxidantes da vida de uma família. Mesmo assim, não estamos desesperados. A mãe dele não conjuga esse verbo nunca.
Vida que segue. Sob a inspiração de um dos maiores poetas vivos da língua castelhana (Luís Izquierdo) repetimos todos os dias: Seguir / Y nada más. / Es este el don. / Es lo que queda.
Avaliação do Bolsa-família
Bertoldo Kruse Grande de Arruda
PRESIDENTE DO IMIP
Muito se tem falado e sugerido para eliminar a pobreza, sem que ela, na verdade, tenha diminuído expressivamente em valores absolutos, Outrossim, o êxito das ações específicas na área social depende sobretudo do número e proporção das pessoas necessitadas desse benefício. No caso brasileiro, o percentual da população-alvo carente é bastante elevado e dificulta o atendimento, principalmente pelo volume de recursos necessários à sua execução. Daí a expectativa em relação ao Programa Fome Zero, caracterizado pelo sentido de mobilização e articulação da sociedade, como um redespertar do sentimento de cidadania, e mais recentemente à proposta de unificação dos programas sociais de transferência de renda, reunidos sob a denominação de Bolsa-família.
Na realidade, estamos diante de um grande desafio, porque o sucesso dessa racionalização dos programas federais de transferência de renda dependerá sobremaneira do cumprimento de uma agenda de condicionalidades no âmbito da saúde e da educação, de um plano local de desenvolvimento mais consistente, da harmonização e sintonia das ações de monitoramento do desempenho e da avaliação dos resultados. Portanto, requer uma forte conscientização da comunidade, por um lado e, por outro, do que foi salientado no editorial do DIARIO DE PERNAMBUCO de 11.7.98, ao tratar da Segurança Alimentar: "Uma ação coordenada para obter a cooperação construtiva dos vários níveis de governo e de segmentos organizados da sociedade, e que as políticas sociais sejam coerentes com uma visão moderna de gestão pública". Somente assim será possível romper a dependência do Estado, fortalecendo a articulação de agentes e ações locais, pois ressalta a economista Lana Lavinas, do Ipea, que essa é uma tarefa essencialmente dos municípios, conhecedores das especificidades locais.
Por oportuno, vale referir recente documento elaborado por Ronaldo Coutinho Garcia sobre "Iniquidade Social no Brasil"(Texto para discussão nº 971, Ipea, Brasília, agosto de 2003), propondo um indicador abrangente da iniquidade social (Iniq) com vistas à possibilidade de verificar o rumo, a intensidade, a economicidade e a coerência dos programas/ações, e se os objetivos parciais vêm sendo alcançados, porque "é preciso ir além e saber se os resultados obtidos com a produção do conjunto das ações governamentais estão se traduzindo em redução da desigualdade". No caso, reporta-se à avaliação do PPA 2000/2003, aduzindo que "sem a avaliação sistemática e rigorosa do desenho e da implementação do conjunto de programas do plano e das transformações que este provoca, não se constrói, consciente e direcionadamente, o futuro distinto, mais equitativo e solidário.
Vale avançarmos no tocante à implementação de programas sociais, saindo da rotina da fiscalização, que se destina a impedir situações como as denunciadas na Paraíba (que não deve ser um caso isolado), onde "em ao menos 64 das 218 cidades atendidas pelo Fome Zero, os prefeitos são acusados de controlar e usar de forma eleitoreira - o programa" (Folha de São Paulo de 2 de novembro de 2003, A 15), para ver se progredimos na redução da iniquidade. Sem dúvidas, outros indicadores existem para avaliar a efetividade da ação governamental e comunitária. O importante é que não deixe de ser promovida a avaliação do Bolsa-família, porgrama que pode desempenhar um significativo papel compensatório numa sociedade ainda marcada por profundas desigualdades, e se teste a utilização do Iniq como instrumento para denunciar o contingente dos que vivem em condições iníquas, pois "a iniquidade não é fatalidade, é construção social".
Somos nossa história
Amparo Caridade
PROFESSORA DA UNICAP
Amadurecer, envelhecer deveria ser visto como coisa natural, do mesmo modo como vemos, o crescer na infância e o adolescer na juventude. É a vida avançando no tempo. Nenhuma etapa do desenvolvimento gera tanta inquietação como o envelhecer. Essa etapa, mais que as outras, revela a finitude em nós, fonte de angústia e inquietação existencial. O medo de envelhecer nos reenvia à certeza da morte. Mas os estágios da maturidade e da velhice inquietam, sobretudo, porque são vistos, como um tempo só de perdas, retrocessos, doenças e limitações. Onde ficam as ampliações do ser, que conquistamos até a idade adulta e o envelhecer? Não contam a experiência acumulada, a sabedoria conquistada, o brilho que vem de dentro, a capacidade de compreender, a bondade para com os outros, a dignidade no existir? Nem sempre os idosos revelam essa face bonita em seu existir, seja porque descuidaram dessa construção em seu tempo, seja por condições adversas que os impediram de viver a alegria de ser quem são. Somos nossa própria história, a cada etapa em que vivemos. O que vamos experienciar mais adiante, depende da história que escrevermos em nosso tempo. Por isso o tempo é agora. É preciso amar o presente e o que foi construído, para que se possa aceitar como natural o que é natural, acolher bem o que não pode ser modificado e viver do melhor modo possível, o que há para ser vivido.
A Sociedade do Espetáculo, com a qual convivemos, não chama a atenção para o brilho que vem de dentro das pessoas maduras, enfoca, ao contrário, a falta de brilho da pele, os sinais da aparência modificada pelo tempo, o corpo marcado pelo peso dos anos vividos. Nessa sociedade não aprendemos a ver beleza nas marcas que o tempo inscreve em nosso corpo. "Hoje trago em meu corpo as marcas do meu tempo", cantava Taiguara.
Porque essas marcas teriam de ser vistas como feias? Elas compõem nossa história. Hoje há meios e técnicas plurais para o cuidado com a beleza externa, mesmo assim não conseguimos ser mais felizes. "Vivemos numa civilização que nos concedeumais tempo, mas detesta a passagem do tempo", diz Lya Luft, em seu livro "Perdas e Ganhos". De fato, nossa civilização não vê seus idosos com olhos da alma, da inteligência, do coração da emoção. Vê-se apenas a textura da pele, a silhueta, a idade e o visual. Detalhe apenas, não a pessoa. Vêem aparências, o lado de fora, passos vacilantes, corpos em involução. Cada sociedade vê o que pode ver.
Precisamos ter um olhar próprio, saber que é possível envelhecer com alegria, elegância, dignidade e vitalidade. Há idosos que participam desse modo preconceituoso de ver a velhice. Envelhecer pode ser grande, se acreditarmos e acalentarmos, projetos próprios de bem-estar. Estamos vivos e interessantes, enquanto somos interessados, criamos, elaboramos e nos apropriamos de nosso destino. Existir no seu tempo é a arte por excelência de nosso desenvolvimento como pessoas, em todas as fases. O tempo, em cada estágio da vida, tem seus encantos e desencantos. A velhice pode ser um tempo de encanto, serenidade, mistério, confiança, sedução, elegância diante dos fatos. Um tempo sem a urgência das relações, onde se pode viver mais apoiado na própria construção interna que foi feita. Sexo não é tudo, há muitas outras coisas importantes e prazerosas na vida. Pode-se aprender a amar a própria companhia e a dos outros, mas não se pode fazer do outro um cabide para os próprios sonhos, ou para a felicidade. "Quem se subestima precisa de alguém ao lado para confirmar sua validade como pessoa" , lembra Lya Luft.
Envelhecimento é tempo de perdas sim, e a força para enfrentá-las terá de vir de nós mesmos. Encorajamento, fortaleza e confiança perante a vida, resultam de uma construção pessoal no transcorrer do existir. Começa cedo o trabalho por um envelhecimento com qualidade. Supõe o sentido do que fizemos a nós mesmos, aos outros e ao mundo. Supõe que se consolide nosso ser pessoas, satisfeitas com a vida e a passagem do tempo. O sentido do que fazemos, é encanto para a existência. Ele dá graça, sabor e sustentação à nossa história. Ovazio de sentido, é capaz de proporcionar uma velhice angustiada. Integrando, amando a própria história, teremos razões para sentir bem-estar no envelhecer. "Não é preciso realizar nada de espetacular. Mas que o mínimo seja o máximo que a gente conseguiu fazer consigo mesmo", diz Lya Luft. Seremos a história que conseguirmos escrever nas páginas do tempo em que vivemos. Ela pode ser tecida de coisas simples ou grandiosas, mas que significam.
A primeira cidade da Borborema
Alberto Frederico Lins
ESCRITOR
Gravatá é a cidade mais bela de Pernambuco. Ao viajante que venha do Recife, para o sertão, ao descer a lançante das Ruças, entre as cumiadas do Balanço e do Ladrilho, sobre a Água Fria e a Casanova, no altiplano descendente da cordilheira da Borborema, deparar-se-á, lá na frente, com as primeiras casas e vilas dos arrabaldes de leste, em horizonte aberto, e, mais ao fundo e a oeste, o perfil da serra Negra, nos longes dos Bezerros, além das colinas cinzentas do Maroto e das Éguas. Atingindo o centro do peneplano agrestino, sobre o vale do Ipojuca, desdobra-se-lhe à vista o magnífico postal da cidade que se espraia em 50 quilômetros quadrados. Da zona divisória entre o brejo, ao sul, e o caatingal, ao norte. Lembra Jerusalém, quando se sai das planícies transjordanas para o litoral do Mediterrâneo. É de uma suavidade de veludo, o casario conjugado a cobrir as encostas do Sampaio, do Riacho do Mel, da Boa Vista, do Cruzeiro e do Jucá. Como a cidade sagrada dos judeus, cristãos e muçulmanos; igual a uma Sião agreste que nada tem de especial, para seus filhos empolga mais do que São Paulo ou Salvador, Gravatá domina pela força de sua beleza estrutural e geográfica, da estrela de sua velha praça da Matriz, a lançar ruas antigas pelas colinas adjacentes, obscurecendo a feiúra doentia de Jaboatão, Escada ou Moreno, o buraco hiante que é Ribeirão ou a confusa mixórdia urbana do Cabo e Igarassu.
Ela é uma cidade que se organizou e permanece com o mesmo fascínio de outrora. Vê-se-lhe a estátua do Cristo de qualquer parte que se vá, a sentinela de pedra de duas gerações, sobranceira e à sombra da qual, há sessenta anos, cresceu, magnetizando e seduzindo seus filhos. Gravatá, como cidade, não é o espinho, o acúleo que indica o seu nome nativo, o substantivo próprio tupi, não: é a graça feita centro urbano, onde vive e trabalha uma gente simples, uma sociedade aberta ao progresso, que, infelizmente, aos poucos, lhe vem tirando muito da paz e tranqüilidade antigas.
Por mais de cem anos acolheu os enfermos do peito, que aprocuravam em busca de cura, que o ar puríssimo do seu planalto das Ruças não negava jamais. Recebeu-os no alvorecer do Século XX e deles constituiu a sua elite intelectual, bastando lembrar Mário Mello, Leopoldo Lins e Osíris Caldas. E hoje continua a receber e conservar apaixonados, os que se lhe fixam nas colinas, em casas, cotages, mansões, chalés, apart-hotéis, chácaras, sítios de refúgio, solares, palacetes, a exemplo de Thomé Dias, Gláucio Veiga, Marly Mota, Pinto Ferreira, Luciano Cerqueira, Carol Fernandes, Mauro Arruda, Bartolomeu Brito, Arthur Carvalho, Helena Lundgren, Valdemir Miranda, Alexandre Rabelo ou Paulo dos Santos Dias, Dagoberto Carvalho Júnior ou Orlando Cavalcanti - entre dezenas e dezenas de outros.
Seus bairros entrelaçam-se, com o rio agrestino circundando o perímetro central, numa unidade que o corte da via férrea secciona, à margem de uma das mais belas e interessantes avenidas de Pernambuco, e que a ponte Preta, há mais de cem anos, estreita e afunila novamente. Exaltar-lhes abeleza - e isto fiz em crônicas, livros e contos, artigos e ensaios publicados nos últimos cinqüenta anos - é uma redundância, pois ela, como tecido urbano, é a beleza em si. Entre as bonitas comunidades do interior do estado - Garanhuns, Petrolina, Bom Conselho, Caruaru ou Triunfo, exemplificando, destaca-se como a primeira depois do Recife, esta, sem dúvida, uma preciosidade urbanística, recortada por rios, camboas e braços de mar - a mais linda capital do Brasil.
Gravatá é uma cidade aberta, ampla, livre, espaçosa, que se oferece ao observador de uma só vez, surgindo, passada a quina da Cabeça do Boi, como se fosse, num passe de mágica, um postal de Turner, um oásis multicolorido, espraiado entre e sobre as colinas encantadoras do Antunes, do Valentim e da Volta ao Rio. Na paisagem agreste é um panorama de linhas concretas e curvas suaves. Tudo isto é Gravatá, a cidade bonita no dizer do escritor Osíris Caldas, que sobre ela escreveu na página 85 de seu livro Flores e Pedras do Meu Caminho:" (...) Do cimo do Cruzeiro (...) contemplo Gravatá neste fim de tarde, do alto da colina onde o Cristo de pedra, muito branco e muito triste, parece chamar a si todos os sofredores lá de baixo (...) Continuo a olhar o cenário admirável e a sentir um deslumbramento interior. Gravatá! Tão linda e tão romântica! (...) Do céu imenso cai uma paz acariciadora e luminosa (...) A cidade domina a vida e domina a morte... É que ela tortura - acariciando; martiriza - seduzindo, mas ninguém lhe pode guardar rancor. E dentro dessa carícia e desse martírio, a gente morre, amando-a ainda mais".