Exposição
Júlio Cavani
Da equipe do DIARIO
Manoel Veiga assume que é interessante, e praticamente fundamental, conhecer seu processo de trabalho antes da apreciação de seus quadros. Nas obras do pernambucano, o como é tão ou mais importante quanto o que. Manchas soltas sobre espaços brancos retangulares, as pinturas abstratas do artista, numa observação cuidadosa, possuem texturas e detalhes estranhos ao mundo artístico, que mais lembram as matérias da natureza - as nervuras das plantas, os cristais do gelo, os vapores - do que pinceladas. "Muitos especialistas em pintura, não só do Brasil, já olharam para meus quadros e ficaram intrigados quanto à técnica, sem entender como eu pinto, pois os minhas imagens nunca poderiam ter sido feitas com pinceladas tradicionais", conta o artista, ajudando a entender sua contribuição para a arte. Morando em São Paulo, ele revela aos conterrâneos sua nova produção em exposição que tem início hoje na galeria Dumaresq.
Primeiro, Manoel mistura num balde uma dezena de tintas de cores diferentes, mexendo tudo até o"sopão" se transformar num líquido grosso e preto. Depois, ele pega o composto (não necessariamente usando um pincel) e derrama sobre a tela, que está plana, no chão, em posição horizontal. A mancha preta resultante depois recebe borrifadas de água pontuais, que vão expandindo a imagem enquanto a clareiam e vão revelando as cores escondidas por trás da mistura de tintas. Olhando para seus quadros, as partes mais escuras correspondem à região onde a tinta foi derramada. As áreas clareadas e coloridas estão nos locais onde ele pulverizou a água.
Formado em física, Manoel classifica suas obras como verdadeiras "experiências científicas". A densidade e o peso dos pigmentos que compõem cada cor influenciam no aspecto final do quadro, pois as cores mais pesadas são as últimas a se desmembrarem, num processo que recebe interferência da força da gravidade. A exposição da Dumaresq também mostra quadros feitos sobre papel, com resultados diferentes, já que o processo de absorção do material é diverso. "Primeiro eu precisava descobrir um papel que se mantivesse sempre plano, que não criasse acúmulos e bolhas."
Aleatoriedade e imprevisibilidade são marcas fundamentais do trabalho do artista, que vez por outra se surpreende com algum acidente não planejado. "A falta de controle me interessa. Eu quero essa tensão." Essa independência da obra em relação ao criador levanta outra questão relevante à leitura sobre a produção de Manuel, pois ele não precisa tocar nas peças para construí-las, mantendo-se sempre distante se quiser. Essa atitude parece estranha, mas ele lembra que mesmo os artistas que usam pinceladas tradicionais não estão tocando nos trabalhos, tendo seu contato intermediado pelo instrumento. Mesmo assim, a obra de Manuel tem algo de corporal e performática na medida em que a ação física do artista, está registrada na tela.
Serviço
Exposição de Manoel Veiga
Onde: Dumaresq Galeria de Arte (Rua Prof. Augusto Lins e Silva, 1033, Boa Viagem)
Quando: Inauguração hoje, às 10h. Aberta ao público até 29 de novembro
Informações: 3341.0129