Edição de Quarta-Feira, 29 de Outubro de 2003
 
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O Doping do Futuro

Genética já é usada para melhorar desempenho

Sérgio Miguel Buarque, Fred Figueiroa
Da equipe do DIARIO
Mirella Marques
Especial para o DIARIO

Imagine um time de futebol formado por vários Ronaldinhos Gaúchos. A idéia apresentada pelo médico Eduardo de Rose no Pré-Congresso de Medicina Esportiva, realizado ontem, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), pode parecer fantasia ou sonho de torcedor. Fantasia pode até ser, mas De Rose a usou para chamar atenção de um problema bem real e que, em menos tempo do que se imagina, pode virar um pesadelo para a próxima geração esportiva mundial: o doping genético.

  Pode até parecer ficção científica, mas De Rose e seus colegas da Agência Mundial Antidoping (WADA) acreditam que o doping genético deve substituir as drogas farmacológicas, como os anabolizantes, por exemplo, num curto espaço de tempo. Um atleta que quiser aumentar a produção de determinado hormônio, em vez de usar remédios, poderia induzir o corpo a acelerar a produção interna manipulando um gene específico. "Pode-se estimular a produção de fibras rápidas para ajudar os velocistas, ou fibras lentas para os maratonistas. Um atleta com pernasmuito longas terá vantagem nas provas de saltos", exemplifica.

  Do alto da autoridade de ser o único representante do Brasil na Wada, De Rose faz um alerta. "Teremos que encontrar formas de evitar essa manipulação de genes". Como? "Teremos que procurar pistas. Algo como um vírus". As pesquisas em terapia genética ainda estão no início, mas o professor Geoff Goldspink, da Universidade de Londres, deu uma declaração importante sobre o assunto no Congresso Médico do COI, realizado em Atenas, no início do mês. "Já podemos detectar DNA ilícito e a introdução de produtos genéticos".

  Segundo Goldspink, experiências feitas com ratos de laboratório mostraram que a transferência genética pode levar a um salto de 25% na massa muscular em apenas duas semanas. "Se isso pode ser feito em ratos, pode ser feito em homens".

  O temor de uma futura geração de atletas dopados geneticamente já começou a mobilizar centros de pesquisas e agências esportivas que vêm promovendo conferências técnicas - como o Congresso Médico deAtenas - para tratar do tema. A última delas aconteceu no início do mês, em Genebra, e concluiu que dos 40 mil genes do corpo humano, apenas cem são responsáveis por determinar as habilidades atléticas de uma pessoa. Essa centena de genes é que seria manipulada nos laboratórios.

  A viagem ao futuro não pára por aí. Nem a criação de clones de atletas "perfeitos" estaria fora de cogitação. Quem não gostaria de um time de Ronaldinhos, como sugeriu De Rose? Mas a tarefa não será nada fácil. Além das limitação científicas do momento - tudo indica que serão logo superadas - existe uma outra questão mais subjetiva. A base genética, segundo o médico, é desenvolvida com treinamento e o ambiente influi na formação. "Por isso um atleta é descoberto e não feito. A base genética ajuda muito, mas não é tudo". Por isso, se serve de consolo, Ronaldinho, Pelé ou Guga serão únicos.


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