Edição de Domingo, 26 de Outubro de 2003
 

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Opinião

O ensino superior

Num país social e economicamente definido como pobre - ou 'emergente', com muito favor -, o ensino superior é amplamente dominado pela rede privada em detrimento do sistema público. De 1994 para cá, tem-se avolumado o número daqueles que se utilizam do ensino privado e pago, deixando de lado o ensino público e gratuito. É dado sociológico antes de ser político digno de exame pelos estudiosos da matéria. O setor público abriga 12,5 alunos por professor atuante, enquanto o privado, mais pragmático e racionalista por natureza, abriga 17 alunos.

  A expansão do segmento particular dessa atividade no Brasil não vem de poucos anos atrás, porém, mais de longe. Sabe-se que o número de alunos nas instituições particulares subiu 84% desde 1998, enquanto que nas entidades públicas a elevação foi de apenas 31%. A escola particular, mais ágil e sensível ao retorno do capital investido, descobriu no período noturno um nicho mal aproveitado pelas faculdades oficiais da União ou dos Estados. Ao encerrar-se o ano de 2002, cursavam o período noturno das entidades privadas 67% do alunato, contra 36% nas instituições públicas. No total do país, encontram-se hoje matriculados 2.428.258 alunos no sistema particular e 1.011.655, menos da metade, no segmento das escolas públicas e gratuitas.

  Os dados foram extraídos do documento que vem de ser editado pelo censo da Educação Superior do Instituto Nacional de Estatísticas e Pesquisas da Educação (Inep), órgão do Ministério da Educação, o que dá aos percentuais não apenas uma certa notoriedade, mas, sobretudo, uma aura de veracidade incontestável.

  O confronto destes algarismos não permite, é claro, a análise crítica sobre como transcorreu o processo acadêmico nestes últimos anos, nem conduz, por outro lado, a uma crítica conscienciosa sobre a qualidade do ensino superior em ambas esferas, a pública e a particular. Quanto às despesas, nas instituições federais o pagamento da mão-de-obra pedagógica e auxiliar toma em regra 95% dos recursos orçamentários que lhes são postos à disposição,restando magros 5% para o equipamento didático e científico, as experiências, as ampliações nos campi. Há mais 'doutores' nas instituições federais, porém, há maior número de 'mestres' nas entidades particulares.

  Mas o fato básico da pesquisa divulgada é a preferência do alunato pobre e remediado pela faculdade que ele se obriga a custear, em detrimento de sua presença nos cursos gratuitos da escola pública. As escolas regidas pelas leis do mercado hoje oferecem, ao todo, 9.147 cursos diversos, a maioria deles vinculada às 'humanidades', enquanto as escolas governamentais criaram somente 5.252 cursos diversos. Ao encerrar-se o exercício passado de 2002, a universidade privada com maior densidade em matrículas, localizada no Estado de S. Paulo, tinha o dobro dos estudantes matriculados na maior universidade pública do país, também localizada em S. Paulo. A segunda universidade particular, sita no Rio de Janeiro, tinha matriculado quase três vezes mais alunos do que a segunda maior instituição da rede oficial.

  Sim, nos últimos anos, os governos cuidaram de privilegiar o ensino fundamental, desinvestindo, em termos relativos, na escola superior federal. Será bastante a explicação para tanto avanço, de um lado, e tão baixo desempenho, do outro?

FRASES DA SEMANA

Me colocaram para ver somente a banda da direita, a da esquerda eu não consigo ver. Mas acho a banda da esquerda mais barulhenta que a banda da direita.
Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil, brincando com a platéia na abertura da 1ª Conferência Nacional das Cidades, em Brasília

O Brasil não pode ser considerado um país inferior que tenha que pagar tanto. Há países muito mais endividados que o Brasil que pagam menos.
José Alencar, vice-presidente do Brasil, reclamando dos juros altos e salientando a necessidade de uma mudança urgente

A política é como uma droga. Não faz bem, mas você não consegue deixá-la. Vou passar um tempo nos EUA, mas pretendo voltar ao meu país.
Gonzalo Sánchez de Lozada, ex-presidente da Bolívia, em entrevista concedida a jornais norte-americanos

Carta ao leitor

O pólo petroquímico de Pernambuco

Sebastião Barreto Campello
Professor da UFPE

Sebastião Simões, uma das maiores inteligências de Pernambuco (nasceu na Paraíba, mas era tão pernambucano quanto Ariano Suassuna, José Rafael de Menezes e Germano Coelho) concebeu a criação de uma série de indústrias químicas, tendo como base a produção de borracha sintética e do ácido acético e como matéria prima o álcool. Essa proposta foi feita quando a única indústria desse tipo existente no país era a Petroquímica União, em Cubatão, SP. Ressalte-se que na época, do ponto de vista econômico, a cadeia petroquímica podia ter como base tanto o álcool etílico, quanto a nafta. Posteriormente a produção de ácido acético passou a ser feito pela carbonilação do metanol (CH3.OH + CO ? CH 3. COOH ), que é muito mais barato.

  Caso esse projeto tivesse sido viabilizado as indústrias petroquímicas estariam hoje concentradas no Cabo, tendo como indústrias pioneiras a Coberbo e a de ácido acético.

  O projeto foi apresentado a Cid Sampaio, recém-empossado no Governo do Estado, o qual imediatamente imaginou um esquemaeconômico que viabilizasse o empreendimento.

  Assim, adicionou-se 0,5% ao então Imposto de Vendas e Consignações, que posteriormente seria trocado por ações da Coperbo. Esse adicional, denominado de BS, estava ressaltado nas notas fiscais.

  A fim de adiantar a instalação da fábrica, o Governo tomou um empréstimo no Banco francês, Credit Lionais, com o aval do BNDES. A amortização da dívida seria feito com a arrecadação do BS.

  O plano consistia em criar a Coperbo e, posteriormente, fabricar o ácido acético (Romeu Boto criaria anos depois a Alcoolquímica), a qual deveria desencadear a fabricação dos produtos derivados desse ácido. Se tivéssemos partido na frente, nenhum outro polo petroquímico teria se desenvolvido no país (após a eleição de Geisel, 14 anos depois da criação da Coperbo, é que se desenvolveu o polo de Camaçari).

  Infelizmente o Governo que se seguiu ao de Cid extinguiu o BS. Quando terminou a carência do empréstimo externo e as faturas começaram a se vencer, não havia recursos para pagá-lase o BNDES passou a resgatá-las . Desse modo, a Coperbo saiu do controle do povo pernambucano (foi um exemplo de uma grande fábrica construída com o capital socializado), passou para o BNDES, que repassou-a para a Petrobrás.

  Em outras mãos, a idéia da sua expansão e de ser núcleo de toda uma indústria petroquímica foi paralisada, inclusive, porque a Petrobrás já era sócia das indústrias do Pólo de Camaçari. Antônio Carlos Magalhães, relegou as diferenças políticas, levou Sebastião Simões, juntou com Rômulo de Almeida, com o Banco Econômico e com a Odebrecht e criou o Pólo de Camaçari, fazendo a Bahia disparar o seu crescimento econômico.

  Por pura mesquinharia política, Pernambuco perdeu a grande oportunidade de realizar o seu desenvolvimento econômico.

Bom-dia, Recife

Ronildo Maia Leite
Jornalista

WWW camarada Mércia Albuquerque ponto com ponto céu. Não pense que esqueci de você. Não custa esperar, por esses dias também chego pelaí. Aliás, estou lhe mandando este e-mail porque o Recife resolveu homenagear o dia da morte de Gegório Bezerra. Uma nova ponte vai ter o seu nome. Vão botar o retrato na cela da antiga Casa de Detenção, aquela mesma em que você, como advogada, aparece ao seu lado depois da carnificina de 1 de Abril de 64 quando o coronel Vilock puxou o velho com uma corda amarrada no pescoço.

  Este e-mail é pra lembrar a você uma velha crônica que escrevi no dia 21 de outubro de 1983, onde eu dava as minhas razões sobre a morte de Gregório Bezerra. O título de um desses Bom-dia, Recife: "Gregório não morreu, mataram-no." Entre outras coisas, dizia:

  1) - Primeiro, eu quis escrever uma crônica triste, que falasse de um homem (Ferreira Gulart) feito de ferro e de flor. Poder não poderia - as flores murcharam. Depois, eu quis escrever uma crônica magoada, sobre o esquecimento de um homem feitode ferro e de flor. Como assim, se o ferro virou o punhal afiado que o apunhalou pelas costas? Agora, ponho-me irado pra escrever com raiva sobre Gregório Bezerra, o ferro e a flor fundidos no mesmo caule. Ferro de dar porrada, ferro de agüentar porrada. Flor de florar a bondade dos povos.

  2) - Gregório não morreu, não, camaradas. Mataram-no. Ora, dirão as baratas vermelhas, o velho morreu como morrem todos os velhos - de velhice. Faltou-lhe fôlego para atravessar a ponte safena. Quem disse, mentiu. Gregório morreu de tédio.

  3) - Quando ele voltou do exílio, dois jovens militantes comunistas, Mano Teodósio e Antônio Arraes, quiseram premiá-lo, devolvendo-lhe o mandato cassado pelo golpe branco de 1947, quando fecharam o PCB. Fizeram-no candidato a deputado federal. De repente, as lacraias vermelhas acharam que o velho estava velho demais. Um dia, a sacanagem resvalou pro deboche, pra sem-vergonhice. Vetaram a palavra do velho numa praça pública do Recife - logo a fala dele, do Grega, que arrebatara todasas praças do Grande Recife ao se eleger o deputado federal mais votado em 1945. Todos se lembram, Gregório teve, à época, mais votos do que Prestes na área metropolitana. Mas, naquele instante, era 1982, os seus cabelos brancos perturbaram a liderança dos sacanoides de coreto.

  4) - Gregório não falou. Cassaram a palavra do Constituinte de 45, respeitado no Parlamento pela direita mais radical. Lembro, a propósito, o que dele me disse o jornalista Costa Porto, da UDN, porta-voz dos usineiros no Congresso: "Homem sério demais, esse Gregório. De coragem e sinceridade incomuns. Não posso odiá-lo. O seu caráter se impõe. Ele tem uma presença enorme..."

  5) - Os jovens militantes comunistas pretenderam premiar os últimos dias de vida do velho Grega. Funcionou, então, a matraca das lacraias vermelhas, pedindo o voto da palha da cana pra outros candidatos: o velho está velho demais, não votem nele. No final da apuração, o homem de ferro e flor obteve pouco mais de dez mil votos. A partir de então, se iniciou o processo de mágoa. O tédio acabou vencendo, fulminando o coração de ferro e flor.

  7) Amigos íntimos iam visitá-lo e saiam estarrecidos. Em seu coração, murchavam de tristeza o ferro e a flor. Resistir quem poderia.

  6) - Outras sacanagens, maiores e menores, vinham fazendo desde a volta do exílio. Frescaram com a cara do velho no dia mesmo da sua volta, com a calhordice daquela missa gratulatória mandada celebrar pra ele. Pela volta dele - logo dele, Gregório, que de missa não entendia um terço.

  Sempre ouvi dizer, embora tudo isso hoje não passe de uma mentira: comunista que se preza só vai à igreja grelhar com a cara das moças, fazer bilu-bilu no beiço do Menino Jesus. Ou pedir voto às filhas de Maria, a todas ameaçando com o apocalipse da revolução bolchevique.

  Fizeram muita sacanagem com o velho. Amolegaram os seus sentimentos com a babaquice de um ramalhete de rosas vermelhas. E ele não era de rezas, nem rosas, nem de risos. Era de rugas nas faces, calcadas ao longo dos anos de luta, sempre em nomedo povo.

  Xumbregram um peito de ferro quando Gregório chegou do exílio. Primeiro, em São Paulo. No Recife...

  Essa história do Recife é triste, mas nem por isso deixa de ser engraçada. Domingo que vem, eu conto.

De cana e empregos

José Chaves
Deputado federal pelo PTB de Pernambuco

"É viável plantar cana-de-açúcar em Pernambuco?" O questionamento foi feito pelo ministro da Casa Civil, José Dirceu, numa audiência que ele concedeu a integrantes da bancada federal pernambucana, da qual participei. Houve um breve silêncio que decidi romper: "É viável. E quem disse isso não foram os órgãos governamentais que trabalham no setor. Não foi o Banco do Brasil, que financia as atividades do setor. Não foi o Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), hoje extinto. Quem disse isso foi o mercado, na sua tradicional linguagem da competição, ao mesmo tempo, sadia e cruel". Mas essa minha afirmação tem ainda uma outra vertente, que é a da geração de empregos.

  Não existe nenhuma outra atividade econômica que gere tantos empregos na Zona da Mata, região que tem a segunda maior densidade demográfica de Pernambuco, três vezes maior do que a média estadual. Alternativas foram testadas. Algumas tiveram sucesso econômico, outras não. Mas o certo é que nenhuma delas conseguiu superar a cana na geração de trabalhoe renda para os mais pobres.

  Pernambuco, de todos os Estados produtores de cana, é o que mais emprega por hectare plantado. São 100 mil empregos diretos. Nesta safra, com a melhoria nas condições do setor, novas vagas foram abertas. Não existe razão melhor para justificar o apoio oficial à atividade sucroalcooleira, como os subsídios do programa Política de Preço Nacional Equalizado, que garante a competitividade com a produção do Centro-Sul, onde os custos são em média 50% menores do que no Nordeste. A produtividade da cana produzida é de 50 toneladas por hectare, contra 83 toneladas do Centro-Sul. Mas a vantagem nordestina é social, pois a atividade aqui gera mais empregos, justamente numa das regiões mais carentes do País.

  Também é de se elogiar a decisão assegurando para o Nordeste a cota de açúcar que os Estados Unidos destinam ao Brasil, rechaçando a mobilização dos produtores do Centro-Sul, que queriam que essa exportação fosse dividida. No entanto, essa cota precisa ser ampliada. As 152 mil toneladas reservadas ao produto brasileiro representam um volume menor do que o que os norte-americanos destinam à República Dominicana.

  A outra frente de batalha ocorre na Organização Mundial do Comércio (OMC). O Brasil detém os dois menores custos de produção de açúcar do mundo, com seus canaviais do Centro-Sul e do Nordeste, mas não consegue entrar no mercado europeu. Organizações internacionais mostram que a política da União Européia o açúcar prejudica os países em desenvolvimento. Os europeus destinam US$ 1,6 bilhão, por ano, para subsidiar a produção no continente. O açúcar na Europa recebe US$ 500 de subsídio por tonelada, enquanto o Brasil vende o produto no porto por menos de US$ 200.

  Essa vantagem cria uma superprodução européia, que exporta o produto derivado da beterraba a preços irreais no mercado internacional. A Europa mantém taxas de importação do produto de até 140%. Os produtores brasileiros afirmam que o País perde cerca de US$ 1,5 bilhão em exportações do produto por ano por causa das barreiras da União Européia. Vamos torcer para que se realize a previsão do Presidente Lula de que essas barreiras vão cair. Recentemente, o Governo federal anunciou a redução de impostos para a indústria automobilística sob o argumento de isso manteria empregos. Se essa lógica é válida para essa atividade, ela é ainda mais necessária quando falamos de agricultura, muito mais sujeita às variações de clima, por exemplo.

  Não se deve negar as distorções que existiram no passado, mas a correção de rumo foi dada pelo próprio mercado. Das 60 indústrias que atuavam no setor em Pernambuco, há cerca de 20 anos, apenas metade sobreviveu. A estiagem que castigou severamente a Zona da Mata pernambucana fez com que a área plantada despencasse para menos da meta de 600 mil hectares. Na Mata Norte, a atividade foi quase extinta. Isso causou desemprego maciço. Milhares de trabalhadores rurais com suas famílias tiveram que buscar seu sustento nas áreas urbanas das cidades, ou foram para o Recife, ou ainda resolveram tentar a sorte no Sudeste.

  Esse êxodo estilhaçou famílias, jogou milhares de jovens no dia-a-dia da falta de oportunidades, da marginalidade, da vida curta. É preciso ficar claro na pauta de quem atua no setor público que perdas econômicas implicam em perdas sociais. Essa equação precisa ser levada em conta na hora de tomar as grandes decisões que o País necessita.

  O Brasil teria de ver a sua economia crescendo a taxas de 7%, 8%, 9% ao ano para absorver essa mão-de-obra. Mesmo assim é bom lembrar que são trabalhadores que sempre estiveram na palha de cana. Eles não têm chances no mercado de trabalho urbano sem um grande esforço na requalificação profissional.

  Por isso tudo, disse ao ministro Dirceu que a cana-de-açúcar é viável em Pernambuco. Qual é o foco do governo Lula? Das mais variadas fontes, todos se esforçam em falar no compromisso social, com os excluídos, os menos favorecidos. Enquanto não começa o "espetáculo do crescimento", se faz necessária uma atenção maior aos setores que empregam mais.

Pranto por um arquiteto digno

Clóvis Cavalcanti
Economista e pesquisador social

Um dos maiores arquitetos americanos, criador do domo geodésico, Buckminster Fuller (1895-1983), nunca cursou universidade. Meu amigo Arnaldo Gedanken, que morreu no dia 16 deste outubro, próximo de completar 60 anos (mas jovem), também não era arquiteto quando reformou minha casa de Olinda em 1977-1978. É certo que contou com o suporte de seu notável colega e grande amigo, Geraldo Gomes, que, como ninguém, conhece a arquitetura do ferro e de casas-grandes no Brasil. Geraldo não assinou apenas o projeto da reforma; também concebeu-o em muita coisa. Mas Arnaldo é que, antes de seu amigo e à luz de sólida experiência, começou a imaginar como ficaria minha residência. Além disso, foi o responsável direto pela obra de reforma, que durou mais de um ano, fiscalizando cada detalhe, contratando mão-de-obra, administrando o serviço, comprando o material. Essa tarefa lhe foi delegada por mim e minha mulher, Helenilda. Eu sabia que seu trabalho seria de ótima qualidade, tanto porque isso já fora demonstrado em outras obras, inclusive e sobretudo em sua agradável casa da rua 13 de Maio, também em Olinda. Arnaldo sabia utilizar o espaço, sabia fazer um teto de linhas, caibros e ripas expostos, sabia criar reentrâncias e saliências, sabia aproveitar, grande e autêntico amante da natureza que foi, os condicionamentos ecológicos. A casa que comprou em ruínas e para a qual depois se mudou na Ladeira da Misericórdia o comprova, do mesmo modo que sua última residência, nos Milagres, cuja reforma não pôde completar.

  Com sua morte, Arnaldo deixa não só aquela lacuna que família e amigos tanto pranteiam nessas ocasiões de dor, como também o vazio de um homem decente, honesto, simples, trabalhador e comprometido com as melhores causas. Certa vez, recebi dele uma lição exemplar de civilidade e firmeza. Foi em fevereiro de 1979, quando os moradores de Olinda se uniram e, com permissão do prefeito Germano Coelho, resolveram fechar o sítio histórico ao trânsito de veículos durante o Carnaval. Decidiu-se que só morador com permissão especial poderia circular pelas ruas dessa área uma providência das mais sensatas e que persiste até hoje. Amigo meu residente em Boa Viagem, querendo ter o acesso que só era facultado aos moradores, pediu-me para que eu conseguisse o papel com permissão para circular na cidade. Sem maior constrangimento, fui à casa de Arnaldo e fiz-lhe o pedido em nome do meu amigo (seguindo a velha tradição do compadrio e do privilégio numa sociedade desigual). Arnaldo, visivelmente enfurecido, mirou-me fortemente nos olhos, tomou um monte de papéis de livre trânsito para moradores, atirou-o sobre a mesa bem diante de mim e esbravejou: "Tome! Tire quantos quiser para seus amigos". Assustei-me com a reação, mas, imediatamente, percebi o justo puxão de orelhas que estava levando. Pedi desculpas, frisei que ele estava certo e, cabisbaixo, saí de mãos vazias de sua casa na 13 de Maio. Aprendi ali uma lição republicana definitiva.

  Judeu de origem bastante remediada, Arnaldo veio morar em Olinda em 1972, trazido por Giuseppe Baccaro, outra figura de amigo de minha admiração. Chegou aqui e integrou-se, abraçando as melhores causas olindenses. Morava e trabalhava na Marim dos Caetés. Conhecia como ninguém seus becos, casas, igrejas, monumentos. Por isso, defendia tudo com enorme garra, sem visar lucro ou retorno pessoal. Tendo finalmente concluído o curso de arquitetura em 1985, passou a assinar projetos de restauro tanto em Pernambuco como em outras partes do Brasil, onde punha em prática sua sensibilidade e competência para a preservação de nossa herança monumental. E o fazia sem ruído, sem badalação, sem propósitos comerciais. Sua última intervenção na área de recuperação do patrimônio histórico ocorreu na sacristia da Sé de Olinda, onde, sob a severa vigilância de meu compadre beneditino Irineu Marinho Falcão, não só fez um trabalho extraordinário (está lá para quem quiser ver), como ainda soube usar de modo multiplicador os recursos disponíveis. Executou, de fato, bem mais do que estava previsto com a dotação recebida. Essa era, naverdade, a forma de agir de Arnaldo e aquela que gostaria que os gestores da coisa pública seguissem no país. Na época em que Arnaldo atuou como administrador da obra de minha casa, combinamos um pagamento mensal. Isso foi em junho de 1977. Lá para janeiro de 1978, com a inflação de 40% ao ano que então se verificava e sem reajustes em sua remuneração (quando tudo o mais era reajustado), ele, com muita diplomacia, me propôs um aumento, logo concedido.

  Combativo membro da Sodeca (Sociedade dos Amigos da Cidade Alta de Olinda, da qual foi bravo presidente), inimigo das ameaças de "desenvolvimento" louco que pairam em nossa bela cidade com propostas ominosas como a de construção de um shopping no Alto da Sé (que deveria ser uma área desimpedida de qualquer coisa, sem barracas, sem lojas, sem ambulantes), Arnaldo era ainda grande carnavalesco. Fantasiava-se bem no seu estilo irreverente, anarquista (no sentido político), e acompanhava os blocos interessantes de Olinda, como Ceroula, Eu Acho É Pouco, Sala de Justiça, Mulher na Vara. Encontrávamo-nos nessas ocasiões alegres e celebrávamos a simplicidade de brincar Carnaval à maneira do povo. Povo a que ele se sentia muito ligado, seja como torcedor do Santa Cruz (contra o meu Sport), seja como eleitor do PT. Certa ocasião, Arnaldo me fotografou num São João de minha fazenda, flagrando-me de chapéu, paletó e gravata, ao lado de um morador da região. Mandou-me depois a foto com uma dedicatória que diz bem de sua irreverência e amizade: "Ao democrático coronel Cavalcanti". É essa pessoa amável que, como tanta gente em Olinda, no Recife, em Aldeia, em São Paulo, em Brasília, estou aqui pranteando.








 

 
 
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