Documentários
O posicionamento do documentarismo brasileiro diante do poder da religiosidade no Brasil guia o Ciclo Documentário em Pauta, cuja terceira edição tem início hoje e dura três dias na Fundação Joaquim Nabuco do Derby, sempre às 19h, na sala João Cardoso Ayres, com entrada gratuita. Quatro filmes selecionados pelo Instituto Itaú Cultural serão exibidos na mostra, com debates na quarta e na quinta após as sessões.
Os dois primeiros filmes da programação, exibidos hoje, são o curta-metragem Penitência e o longa Iaô - Iniciação num Terreiro Gegê-Nagô. O curta é dirigido por Joel de Almeida e registra o ritual messiânico do Sacramento da Penitência, herança de Canudos mantida viva até hoje por agricultores de uma pequena comunidade no Sertão da Bahia. Em Iaô, filmado 1976, o cineasta Geraldo Sarno vai a um terreiro de candomblé no Recôncavo Baiano filmar o processo de iniciação de três abiãs.
Na quarta, a exibição do filme Santa Cruz é seguida de debate com a professora e documentarista Cláudia Mesquita, da Universidade de São Paulo. O documentário é dirigido por João Moreira Salles, cineasta responsável por Nelson Freire e pelo essencial Notícias de uma Guerra Particular, que disseca o tráfico de drogas dentro de um morro carioca. Santa Cruz, produzido para a série Seis Histórias Brasileiras, do canal GNT, acompanha a construção e inauguração de uma pequena igreja evangélica na comunidade do título, mostrando como a chegada do templo afeta a vida dos moradores. Ao comentar o filme, Cláudia Mesquita usa trechos do longa-metragem Fé, de Ricardo Dias, exibido no Festival de Cinema do Recife em 1999, que viaja pelo Brasil retratando diferentes práticas religiosas.
O encerramento do ciclo, na quinta, é enriquecido por um debate com Cláudia junto com o professor e jornalista pernambucano Paulo Cunha, da UFPE, especialista em História do Cinema Brasileiro. Eles comentam o filme Santo Forte, de Eduardo Coutinho, que, apesar da importância, só foi exibido no Recife uma vez, há duas semanas, numa mostra do Itaú Culturalpromovida numa unidade do Sesc. Santo Forte é o filme mais importante de Coutinho desde o fundamental Cabra Marcado para Morrer (de 1984). Vencedor do Festival de Brasília, o documentário de 1999 chegou a ser incluído na área dedicada à arte barroca na Mostra do Redescobrimento, exposição comemorativa dos 500 anos da chegada dos portugueses ao Brasil.
No filme, o cineasta exibe, praticamente sem fazer cortes, o depoimento de espíritas, católicos e evangélicos da favela Parque da Cidade, no Rio de Janeiro, mostrando como os seguidores de diversas religiões encaram o significado do Natal, dois meses depois da visita do Papa ao Rio. Mais do que um registro, a equipe de filmagem alcança uma representação da fé brasileira por meio das vozes dos personagens. (J.C.)