Ministra foi patrocinada
DORA KRAMER
E-mail: dkramer@estadao.com.br
A ministra Benedita da Silva, a Presidência da República
e adjacências já decretaram duas vezes o encerramento do caso da viagem
a Buenos Aires, mas sempre acontece alguma coisa e o episódio volta
à cena.
Muito provavelmente porque as explicações fornecidas são insuficientes,
nada convincentes ou acabam dando brecha para mais desconfiança sobre
a lisura de procedimentos.
Agora mesmo, o advogado contratado pela ministra, Luiz Paulo Viveiros
de Castro, envia uma correspondência informando que estamos errados
os que supomos ter Benedita da Silva pago com dinheiro do erário brasileiro
a diária dela e de sua assessora no Hotel Alvear, em Buenos Aires.
Não, segundo ele, a estadia foi um gentil patrocínio dos organizadores
do Café da Manhã de Oração, que também se ofereceram para pagar as passagens.
Benedita, alegando estar em viagem oficial, recusou os bilhetes aéreos,
mas aceitou a hospedagem, segundo o advogado, pela praticidade de se
hospedar no mesmo hotel onde se realizaria o evento.
Nesse caso, dr. Viveiros não informou, mas a Comissão de Ética já anotou,
a ministra deveria, no mínimo, ter pedido que a viagem fosse realizada
em regime de ônus parcial. Ela não o fez. No decreto de licença, assinado
pelo vice-presidente José Alencar, consta ônus integral ao Tesouro.
O que inclui diárias. Para pagamento de hotel e alimentação. Como teve
direito a uma quantia que não despendeu para o fim oficialmente a ela
destinado, não é possível dar o caso por encerrado, a ser correta -
e deve ser - a versão apresentada pelo advogado Viveiros de Castro.
Cabe ainda, no mínimo, a verificação do valor alegadamente depositado
em juízo.
Ele diz mais: revela que "a informação de que o hotel foi pago pelos
organizadores do evento, assim como a oferta do pagamento da passagem,
consta do documento entregue ao presidente da República pelos senhores
Norberto Pereiro e Arnaldo Valazza, da comissão organizadora" - do café
da manhã, pressupõe-se.
Mas, também nesse caso, reside uma falha. E grave. Pois, a menos que
os senhores Pereiro e Valazzatenham se lembrado da oferta só agora e
entregue a correspondência a Lula durante a viagem dele à Argentina
no fim da semana passada, o presidente foi omisso.
Por algum motivo, não encaminhou à Comissão de Ética Pública essa informação.
Na documentação que lá chegou, não consta o detalhe de que a hospedagem
foi cortesia de uma entidade privada.
O que, aliás, não muda em nada a inadequação da viagem tal como foi
feita e ainda cria a desconfiança de que pode ter havido o providencial
acréscimo de um fato novo à versão oficial.
Curioso que em outra correspondência aqui encaminhada pelo mesmo advogado
há nove dias, com o objetivo de detalhar os reais motivos da viagem,
também não haja nenhuma referência à questão do pagamento do hotel.
O dr. Viveiros, na ocasião, limitou-se a reclamar muito dos "adversários
políticos" interessados em "transformar uma jornada de trabalho num
passeio religioso às custas do erário".
Explicava também que a reunião de Benedita da Silva com Alicia Kirchner
era para discutir a "implementação do Instituto Social Brasil-Argentina".
Um encontro anterior havia sido realizado na província de Missiones,
na Argentina, em maio, quando o Brasil foi representado por Agostinho
Guerreiro, então secretário de Articulação dos Programas Sociais do
Ministério de Promoção e Assistência Social.
Segundo o advogado, o encontro das ministras brasileira e argentina
teve o objetivo de "retomar as discussões". Ficou faltando só explicar
então por que a conversa foi marcada apenas na véspera do embarque de
Benedita para Buenos Aires e qual a razão que impediu, dessa vez, o
Brasil de mandar um representante como fizera na reunião anterior.
E aí não tem jeito, caímos na questão central: o compromisso de Benedita
era mesmo, como consta no Diário Oficial, o encontro religioso e o advogado,
no seu arrazoado, acaba confirmando essa evidência.
Não fosse assim, a reunião com a ministra é que estaria marcada antes
- sendo, o café da manhã, apenas uma agenda secundária - e não o contrário.
A antecedência do Café da Manhã deOração fica estabelecida pela troca
de informações prévias a respeito de oferecimentos de passagens e hospedagem
gratuitas.
Resta ainda a questão ética da cortesia da hospedagem. Como o próprio
advogado informa, depois do café da manhã, Benedita da Silva almoçou
com empresários que haviam participado do encontro religioso. Discutiu
com eles "mecanismos de apoio e cooperação nos projetos sociais do Brasil
e da Argentina".
Considerando que isso configura interesse direto dos participantes dos
negócios do ministério, pelo Código de Ética Benedita da Silva não poderia,
como ministra, aceitar que lhe pagassem as despesas.
Comentários dos Leitores
"Esta ladainha toda só porque ela é
negra. Lalau, Fernando Collor, Jorgina de Freitas..", Sergio Ricardo,
por e-mail