No mesmo momento em que a passeata acontecia, policiais prenderam duas pessoas com revólver
A Polícia Militar calculou em 25 mil o número de pessoas
que participaram, na tarde de ontem, na avenida Boa Viagem, da marcha
Brasil Sem Armas - Pernambuco é da Paz. A poucos metros da multidão,
na avenida Conselheiro Aguiar, Fernando da Silva, 18 anos e D., 17,
mostravam na prática que a luta contra a posse ilegal de armas de fogo
ainda precisava percorrer mais do que o quilômetro programado de passeata
na beira-mar. Fernando e o menor portavam uma pistola 380 e um revólver
calibre 38 quando foram abordados por dois motociclistas da PM. O menor
foi levado para a Diretoria de Proteção da Criança e do Adolescente
(DPCA). O adulto acabou sendo liberado da Delegacia de Boa Viagem depois
de ser lavrado um Termo Circunstancial de Ocorrência (T.C.O.). Livre,
pode ter acesso a uma nova arma, já que afirmou que estava ameaçado
de morte.
Alheias ao risco de uma bala perdida, as pessoas que perderam familiares
vítimas da violência dividiam espaço no asfalto da avenida Boa Viagem
com artistas, policiais e políticos na campanha a favor do Estatuto
do Desarmamento. Se for aprovado na sua proposta original, em votação
na Câmara dos Deputados, na próxima semana, o Estatuto vai definir como
crime inafiançável o porte ilegal de armas. "Revólver dá uma falsa sensação
de segurança. É preciso acabar com esta farra da venda de armas", afirmou
o deputado Luís Greenhalg (PT-SP).
REFERENDO - Relator da comissão mista do Congresso Federal que trata
do assunto, ele afirmou que não vai aceitar as mudanças propostas pela
deputada Laura Carneiro (PFL-RJ), que retirou o artigo prevendo a realização
de um referendo em outubro de 2005 para a população decidir se a venda
de armas de fogo será proibida ou não. Greenhalg participou apenas da
concentração, que teve início às 15h, já que tinha vôo marcado às 16h
para São Paulo.
A caminhada, promovida pelos movimentos Cidade Cidadão e Viva Rio,
foi prestigiada por artistas como o músico Marcelo Yuka (ex-Rappa) e
atores como Giuseppe Oristânio, Felipe Folgozi e Maria Paula. Yuka,
vítima da violência, encabeçou, com Mosana Cavalcanti - irmã do coordenador
do evento Murilo Cavalcanti e que também ficou paraplégica depois de
um assalto - a ala das pessoas feridas ou que tiveram parentes mortos
por causa de armas de fogo. Vestindo camisetas com as fotos de quem
foi assassinado, elas traziam cartazes pedindo justiça. Regina Dourado,
mãe de Maria Eduarda, que foi morta com a amiga Tarsila Gusmão em maio
passado, quando veraneavam em Serrambi, aproveitou o evento para colher
mais registros para o abaixo-assinado que pretende pressionar as autoridades
na identificação dos assassinos. "É preciso participar, lutar contra
esta violência", defendeu. Conceição Diniz, mãe de Maria Carolina, estuprada
e morta em Sirinhaém no dia 1º de janeiro de 2002, disse que era importante
participar de mobilizações para pedir a paz.
CAMINHADA - Às 16h22, o cantor Nando Cordel soltou uma pomba, simbolizando
o início da caminhada, que teve início no segundo jardim de Boa Viagem.
Do trio elétrico que era precedido pela ala das vítimas da violência,
um locutor incentivava a multidão. A Frevioca, bonecos de Olinda e um
grupo de maracatu deram o tom de festa a um evento com tema sério. No
final do percurso, Ricardinho Aboiador, de nove anos, fez versos contra
a violência. O artista mirim veio de Caruaru com uma caravana de 400
pessoas em dez ônibus.
Às 17h20, Marcelo Yuka faz um breve discurso - "temos que deixar de
ser otários nas mãos de quem ganha com nossa miséria" - e pede um minuto
de silêncio. O Hino Nacional encerrou o evento, que teve como ponto
positivo a entrega de uma arma no Núcleo de Segurança Comunitária de
Boa Viagem. Uma viúva de 64 anos de idade resolveu se desfazer de um
revólver 38 que pertencia ao marido, morto há três anos.
Comentários dos Leitores
"E por que para acabar com a violência, não
se começa punindo os próprios policiais infratores que ameçam
a população?? Há um mês, um oficial embriagado agrediu
covardemente um popular em frente ao Laçador de Boa Viagem... Cadê
a corregedoria militar??? Ele estava a bordo de um Honda Civic Prata
de placa KKT5564... A polícia militar de uma viatura foi conivente
com essa estupidez.... Cadê a justiça??... Que segurança podemos
ter do Estado se pagamos policiais agressores???", Cidadão
Indignado, por e-mail
"Muito me sensibilizou ver aquela multidão deixar
seus lazeres do Domingo, de lado, para se juntar a outras milhares de
pessoas na Av Boa Viagem para participar da passeata contra as armas.
Tudo é valido para se combater a violência e aos poucos transformar
o Brasil num país mais lindo. Fiquei também muito orgulhosa de ver a
participação dos meus pais Júlio e Lourdes Pinheiro, aposentados com
idade avançada, na faixa dos 70 anos, se deslocarem de casa (Olinda)
e ele ainda por cima recém-operado de catarata. Foram convocados à subirem
no trio elétrico para abrilhantar mais aquele ato de paz. Parabéns a
todos...", Sylvia Pinheiro, por e-mail
"Foi patético ver tantos policiais fazendo a segurança
dos participantes. Tinha os que estavam na passeata. Mas os que foram
dar "segurança", era bem significativo. Tinha razão de ser. O número
de classe média alto era altíssimo.", José Medeiros, por e-mail
"Realmente isto tudo é bonito, mas será que são
estas armas, compradas legalmente, que estão matando as pessoas? Vamos
lembrar do seguinte: Vigilantes e Policiais vão continuar a ter o direito
de andar armado e os ladrões conseguem a maioria das armas tomando as
mesmas de vigilantes e/ou policiais sem falar nas que entram de forma
ilegal no país e as armas que policiais corruptos conseguem vender aos
bandidos. Sou totalmente contra o porte de arma, concordo que o crime
deve ser inafiançavel, mas acho que o cidadão deve ter o direito de
ter uma arma em casa para sua própria segurança, já que a policia não
consegue garantir isto. Quando o cidadão se sentir seguro, ele mesmo
vai decidir não ter uma arma, pois ele verá que não será necessário,
quando isto acontecer, com certeza a violência diminuirá e para isto
basta o estado cumprirá seu papel de garantir a segurança.",
Cláudio, por e-mail