Edição de Segunda-Feira, 6 de Outubro de 2003
 
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Marcha une 25 mil contra as armas

No mesmo momento em que a passeata acontecia, policiais prenderam duas pessoas com revólver

A Polícia Militar calculou em 25 mil o número de pessoas que participaram, na tarde de ontem, na avenida Boa Viagem, da marcha Brasil Sem Armas - Pernambuco é da Paz. A poucos metros da multidão, na avenida Conselheiro Aguiar, Fernando da Silva, 18 anos e D., 17, mostravam na prática que a luta contra a posse ilegal de armas de fogo ainda precisava percorrer mais do que o quilômetro programado de passeata na beira-mar. Fernando e o menor portavam uma pistola 380 e um revólver calibre 38 quando foram abordados por dois motociclistas da PM. O menor foi levado para a Diretoria de Proteção da Criança e do Adolescente (DPCA). O adulto acabou sendo liberado da Delegacia de Boa Viagem depois de ser lavrado um Termo Circunstancial de Ocorrência (T.C.O.). Livre, pode ter acesso a uma nova arma, já que afirmou que estava ameaçado de morte.

  Alheias ao risco de uma bala perdida, as pessoas que perderam familiares vítimas da violência dividiam espaço no asfalto da avenida Boa Viagem com artistas, policiais e políticos na campanha a favor do Estatuto do Desarmamento. Se for aprovado na sua proposta original, em votação na Câmara dos Deputados, na próxima semana, o Estatuto vai definir como crime inafiançável o porte ilegal de armas. "Revólver dá uma falsa sensação de segurança. É preciso acabar com esta farra da venda de armas", afirmou o deputado Luís Greenhalg (PT-SP).

REFERENDO - Relator da comissão mista do Congresso Federal que trata do assunto, ele afirmou que não vai aceitar as mudanças propostas pela deputada Laura Carneiro (PFL-RJ), que retirou o artigo prevendo a realização de um referendo em outubro de 2005 para a população decidir se a venda de armas de fogo será proibida ou não. Greenhalg participou apenas da concentração, que teve início às 15h, já que tinha vôo marcado às 16h para São Paulo.

  A caminhada, promovida pelos movimentos Cidade Cidadão e Viva Rio, foi prestigiada por artistas como o músico Marcelo Yuka (ex-Rappa) e atores como Giuseppe Oristânio, Felipe Folgozi e Maria Paula. Yuka, vítima da violência, encabeçou, com Mosana Cavalcanti - irmã do coordenador do evento Murilo Cavalcanti e que também ficou paraplégica depois de um assalto - a ala das pessoas feridas ou que tiveram parentes mortos por causa de armas de fogo. Vestindo camisetas com as fotos de quem foi assassinado, elas traziam cartazes pedindo justiça. Regina Dourado, mãe de Maria Eduarda, que foi morta com a amiga Tarsila Gusmão em maio passado, quando veraneavam em Serrambi, aproveitou o evento para colher mais registros para o abaixo-assinado que pretende pressionar as autoridades na identificação dos assassinos. "É preciso participar, lutar contra esta violência", defendeu. Conceição Diniz, mãe de Maria Carolina, estuprada e morta em Sirinhaém no dia 1º de janeiro de 2002, disse que era importante participar de mobilizações para pedir a paz.

CAMINHADA - Às 16h22, o cantor Nando Cordel soltou uma pomba, simbolizando o início da caminhada, que teve início no segundo jardim de Boa Viagem. Do trio elétrico que era precedido pela ala das vítimas da violência, um locutor incentivava a multidão. A Frevioca, bonecos de Olinda e um grupo de maracatu deram o tom de festa a um evento com tema sério. No final do percurso, Ricardinho Aboiador, de nove anos, fez versos contra a violência. O artista mirim veio de Caruaru com uma caravana de 400 pessoas em dez ônibus.

  Às 17h20, Marcelo Yuka faz um breve discurso - "temos que deixar de ser otários nas mãos de quem ganha com nossa miséria" - e pede um minuto de silêncio. O Hino Nacional encerrou o evento, que teve como ponto positivo a entrega de uma arma no Núcleo de Segurança Comunitária de Boa Viagem. Uma viúva de 64 anos de idade resolveu se desfazer de um revólver 38 que pertencia ao marido, morto há três anos.

Comentários dos Leitores

"E por que para acabar com a violência, não se começa punindo os próprios policiais infratores que ameçam a população?? Há um mês, um oficial embriagado agrediu covardemente um popular em frente ao Laçador de Boa Viagem... Cadê a corregedoria militar??? Ele estava a bordo de um Honda Civic Prata de placa KKT5564... A polícia militar de uma viatura foi conivente com essa estupidez.... Cadê a justiça??... Que segurança podemos ter do Estado se pagamos policiais agressores???", Cidadão Indignado, por e-mail

"Muito me sensibilizou ver aquela multidão deixar seus lazeres do Domingo, de lado, para se juntar a outras milhares de pessoas na Av Boa Viagem para participar da passeata contra as armas. Tudo é valido para se combater a violência e aos poucos transformar o Brasil num país mais lindo. Fiquei também muito orgulhosa de ver a participação dos meus pais Júlio e Lourdes Pinheiro, aposentados com idade avançada, na faixa dos 70 anos, se deslocarem de casa (Olinda) e ele ainda por cima recém-operado de catarata. Foram convocados à subirem no trio elétrico para abrilhantar mais aquele ato de paz. Parabéns a todos...", Sylvia Pinheiro, por e-mail

"Foi patético ver tantos policiais fazendo a segurança dos participantes. Tinha os que estavam na passeata. Mas os que foram dar "segurança", era bem significativo. Tinha razão de ser. O número de classe média alto era altíssimo.", José Medeiros, por e-mail

"Realmente isto tudo é bonito, mas será que são estas armas, compradas legalmente, que estão matando as pessoas? Vamos lembrar do seguinte: Vigilantes e Policiais vão continuar a ter o direito de andar armado e os ladrões conseguem a maioria das armas tomando as mesmas de vigilantes e/ou policiais sem falar nas que entram de forma ilegal no país e as armas que policiais corruptos conseguem vender aos bandidos. Sou totalmente contra o porte de arma, concordo que o crime deve ser inafiançavel, mas acho que o cidadão deve ter o direito de ter uma arma em casa para sua própria segurança, já que a policia não consegue garantir isto. Quando o cidadão se sentir seguro, ele mesmo vai decidir não ter uma arma, pois ele verá que não será necessário, quando isto acontecer, com certeza a violência diminuirá e para isto basta o estado cumprirá seu papel de garantir a segurança.", Cláudio, por e-mail


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