Festival
Luciana Veras
ENVIADA ESPECIAL
RIO DE JANEIRO - Em Nome de Deus, terceiro longa-metragem do ator Peter Mullan na direção, tem sete sessões na programação do Festival do Rio 2003, que começou na quinta-feira e se desdobra até o dia 9 de outubro. No sábado pela manhã, duas horas antes da projeção inaugural do máximo vencedor em Veneza em 2002, quatro delas estavam lotadas.
Conclusão óbvia: numa mostra com mais de trezentas películas, vários nichos temáticos e inúmeras opções para os cinéfilos-garimpadores, que curtem jóias indianas, japonesas ou tailandesas, ou para os que preferem ficar com os badalados (Elefante, Dogville), o sucesso dos três dias iniciais veio com um filme de tema dura, inspirado em fatos reais nada amenizados por seu diretor, um escocês visto na última vez no Recife em Meu Nome é Joe, de Ken Loach.
Baseado na existência de incontáveis "lavanderias", como se convencionou chamar os conventos das irmãs de Madalena, ordem (?!) eclesiástica destinada a dar um rumo às vidas das jovensque se desvirtuavam, Em Nome de Deus, é um filme político, que denuncia uma barbaridade e a contextualiza no cenário irlandês da década de 1960.
É, também, um drama focado em três adolescentes, Bernadette (Nora-Jane Noone), Margarett (Anne-Marie Duff) e Rose (Dorothy Duffy). Enviadas para a casa comandada pela irmã Bridget (Geraldine McEwan, de Henrique V) por motivos distintos, elas logo se vêem diante da única saída que é a passividade. O diretor é incisivo ao centrar a narrativa nas meninas e atrelar a passagem de tempo a episódios pontuais na vida delas dentro do convento. O anglo-irlandês Em Nome de Deus não deve sair do festival sem aclamação e reconhecimento de crítica e platéia.
musical - Na Trilha dos Musicais é o nome da mostra dedicada a exibir, em duas sessões diárias no Odeon BR, a mais charmosa das salas cariocas, títulos-referência no gênero. O primeiro, na sexta-feira, foi A Noviça Rebelde. Ontem passou All That Jazz, hoje é dia de Hair, ao longo da semana ainda tem Pink Floyd - The Walle o New York, New York de Martin Scorsese; contudo, o mais festejado, ansiado e concorrido foi mesmo The Rocky Horror Picture Show, projetado para um Odeon lotado, gente sentada no chão, festivo e barulhento na madrugada do domingo.
Descrever Rocky Horror é similar a narrar a história de A Noviça Rebelde ou de qualquer outro título da Na Trilha dos Musicais. Deles, mesmo quem não os viu, sabe de algo, uma curiosidade, um detalhe, uma polêmica. Rocky Horror, pois bem, tem tudo isso e ainda um carisma que, quase três décadas após seu lançamento, prova-se invicto. É a saga dos noivos Janet Weiss (Susan Sarandon) e Brad Majors (Barry Bostwick), que, numa noite chuvosa, procuram abrigo no castelo do dr. Frank Furter (Tim Curry), um transexual com aspirações a Frankenstein.
Mais do que isso, é uma homenagem às ficções dos anos 50 urdida com versos apimentados, divertida, desencanada e pós-moderna sátira às ditas "aberrações" sexuais e às normais sociais que, escamoteadas por valores, não resistem a uma tentação, um musical que respeita a cartilha dos gênero e permite aos personagens a expressão via canções. No Odeon, não havia como resistir a Rocky Horror Picture Show. A platéia jogou arroz, cantarolou, acendeu isqueiros, xingou, aplaudiu, num autêntico show de horrores.
A repórter viajou a convite da TAM